Jornal Médico

O ABC da asma
DATA
29/12/2016 11:43:41
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O ABC da asma

Falta-lhes o ar. Descrevem as crises como um sufoco inolvidável. Escondem-se. Saiba mais sobre a asma: sem rodeios e na primeira pessoa.

“Sinto tosse com bastante frequência, falta de ar, pieira e uma pressão no peito”. “A tosse e a falta de ar limitam-me durante o dia e acordam-me durante a noite”. “Não me vai dizer que a tosse e a falta de ar que eu sinto todos os dias é asma?! Nunca me tinham dito”.
Já ouviu isto em algum lado? Tem um irmão, um conhecido ou um colega no trabalho com estas queixas? Então é bem provável que esteja diante de um caso de asma (mesmo que a pessoa ainda não saiba). A dificuldade em respirar é a primeira marca desta doença crónica que se manifesta através de uma inflamação nas vias áreas que, quando não é devidamente controlada, provoca uma forte instabilidade na qualidade de vida dos doentes. A imprevisibilidade é a segunda característica: nunca sabe o dia ou a hora em que uma crise o levará à impossibilidade de respirar com qualidade. Pode ser no dia em que decide visitar aquele amigo de longa data, na presença de animais ou em ambientes de fumo de tabaco.
A terceira ideia-chave pela qual a asma se dá a conhecer é pela transversalidade. Não escolhe idades mas é sabido que muitos casos têm início na infância. Não faltam casos de pessoas que afirmem que “felizmente, a maioria dos casos vai desaparecer”. Para Mário Morais de Almeida, presidente da Associação Portuguesa de Asmáticos (APA) e médico imunoalergologista, isto não é verdade. “Mais de metade dos diagnósticos continua na idade adulta. Depois, em cada momento da vida, podem aparecer novos casos de asma”, explica.
Há vários cenários possíveis no que diz respeito ao aparecimento desta doença. No primeiro deles, algumas pessoas parecem não se lembrar de, nos primeiros anos de vida, estes sintomas já fazerem parte das suas vidas e apercebem-se com espanto do seu (re)aparecimento por volta dos 30, 40 anos de idade, ou mesmo mais tarde. Para outros, aquilo que houve foi um continuum e, nessas situações, os doentes admitem ter asma “desde sempre, desde que me lembro”. Num terceiro cenário, a asma surge “mesmo” na idade adulta, na sequência de uma infeção respiratória, de uma alteração hormonal (no caso das mulheres) ou de uma gravidez. Nem os idosos escapam, devido às alterações próprias do organismo, fruto de algumas exposições ao longo da vida (poluição, tabaco, etc.) e, é claro, ao efeito de doenças infeciosas. Em todas as situações, e pelo desconforto que a doença provoca é importante identificar o problema e controlá-lo o mais rapidamente possível.

“É preciso não ter medo de falar, ir ao médico e procurar um diagnóstico”

Bibá Pitta conhece bem este universo. Depois de uma crise na adolescência decidiu ir ao médico na companhia da mãe. O diagnóstico não deixava dúvidas: bronquite asmática. A bordo desta novidade havia uma outra: o uso da “bomba”. Os sintomas eram óbvios: “Tinha muita pieira, pingo no nariz e estava sempre a coçar os olhos. Fiz medicação”. A humidade e a diferença de temperatura também lhe marcavam os ritmos da doença.
Apesar de reconhecer que a vida de uma pessoa que sofre desta patologia não é fácil, confessa nunca ter sentido limitações. Contudo, as rotinas eram idênticas às de outros jovens em situação semelhante. “Tinha sempre uma bomba comigo onde quer que fosse”.
Os dias melhores chegaram quando tomou a decisão mais importante de todas: deixar de fumar. “As coisas melhoraram muito nessa altura, apesar de fumar muito pouco e de nunca ter fumado durante nenhuma gravidez, até porque o bebé não tem culpa dos vícios da mãe”, afirma Bibá Pitta acrescentando que, muitas vezes, as pessoas fumam mesmo tendo asma, o que para a entrevistada “é um contrassenso. O cigarro faz pessimamente a tudo!”.
Foi também no desporto que encontrou a melhoria da sua qualidade de vida. Adepta de um estilo de vida saudável, confessa treinar diariamente, adora correr e vai ao ginásio sempre que pode. “Antes tinha medo que correr potenciasse a asma, mas hoje sei que o desporto só me fez bem”, conta.
Sobre os dias de agudização da doença, Bibá Pitta recorda-se de serem situações terríveis e muito aflitivas, e por isso reforça a ideia de que “é preciso perder o medo de ter medo de uma crise”, até pelo elevado grau psicológico da patologia: “Uma pessoa com asma tem sempre medo que esta doença ou a alergia possam voltar. Psicologicamente, nunca nos desligamos disto”.
Consciente do número de asmáticos em Portugal, Bibá Pitta deixa alguns conselhos úteis. “Devemos procurar ter o mínimo de tapetes em casa e arejar a habitação sempre que possível. É preciso ainda ter cuidado com os peluches junto das crianças e, é claro, optar por tecidos de algodão em detrimento de sintéticos. E o mais importante: não fumar e praticar desporto com regularidade”. E, é claro, não esquecer o uso de inaladores e outros tratamentos indicados no controlo da sua asma.
Pelo conhecimento desta realidade na primeira pessoa, Bibá Pitta pede a todos que “procurem obter um bom diagnóstico e um bom alergologista. Há ótimos médicos!” E porque hoje é Dia Mundial da Asma, Bibá Pitta recorda que “esta é uma doença que dificulta a concentração, obriga a horas de repouso e perturba o bem--estar. Mais do que haver dias comemorativos, é preciso não ter medo de falar, ir ao médico e procurar um diagnóstico porque isto possibilita aos pais e aos filhos uma vida melhor”.

Muitas asmas para muitos asmáticos

Estima-se que existam cerca de um milhão de portugueses com asma, 700 mil dos quais têm a doença ativa (com manifestações) no último ano, ou que sentiram necessidade de a controlar com recurso a medicação no mesmo período. “Sabemos que as asmas ligeiras a moderadas são a maior parte dos casos, e temos 10-20% de pessoas com asma grave. Para o próprio doente, aquilo que importa é perceber como controlar o problema, ou seja, como viver como se o problema não existisse. Ele precisa de saber se a sua asma está controlada, não controlada ou apenas parcialmente, se consegue fazer todas (ou quase todas) as atividades ou se, por outro lado, vai sentir limitação na sua qualidade de vida. Isto é o mais importante”, afirma Mário Morais de Almeida acrescentando que “uma pessoa pode saber que tem uma doença grave, mas quer tê-la controlada e poder viver assim”.

Asma e exercício físico: uma combinação possível?

O mito em torno da combinação da asma com o exercício físico é antigo e tem limitado as opções de vida de muitos portugueses. Felizmente, não foi esse o caso da atleta olímpica Rosa Mota, que sempre ultrapassou fronteiras rumo à vitória. Aliás, a muitas vitórias: foi a segunda atleta portuguesa (a primeira feminina) a conquistar ouro olímpico em Seul: anos antes foi Carlos Lopes a dar essa alegria ao país e ao mundo. Muitos portugueses ainda terão gravado no ouvido o enérgico grito do comentador Jorge Lopes que, durante esta prova de 1988, clamava aos microfones da RTP “Corre Rosa, corre por Portugal!”. Até 1992, ano em que deu por terminadas as suas participações em provas de atletismo, Rosa Mota foi ainda medalhada nos Jogos Olímpicos de Los Angeles (Bronze) em 1984, no Campeonato da Europa de 1982, 1986 e 1990 (Ouro) e ocupou diferentes lugares de topo do Campeonato do Mundo. Fez ainda história na Corrida de São Silvestre de São Paulo, na Maratona de Roterdão, de Chicago, de Tóquio, de Boston, de Osaka e na Taça do Mundo.
Estes marcos (para a sua própria vida e para o País) foram possíveis graças ao cumprimento de um plano adequado, proposto pelos profissionais de saúde que sempre a acompanharam. Segundo Mário Morais de Almeida “o asmático pode e deve praticar desportos ou outra atividade física, quer sejam aulas de Educação Física, desportos de lazer ou mesmo de alta competição, mas também rir ou simplesmente fazer a sua vida pessoal e familiar”. E acrescenta: “A natação é um bom desporto, tal como os desportos coletivos e o ténis, mas tudo é possível”.

Porquê tratar?

Obedecer a uma terapêutica proposta pelo médico que o acompanha é não ter restrições no momento de escolher a atividade física ou na sua própria execução. Segundo Mário Morais de Almeida, “não deve haver medo do tratamento. É a doença, e não o tratamento, que cronicamente, dia após dia, ano após ano, perturba a qualidade de vida do doente, por não estar diagnosticada e consequentemente, não estar controlada”. Uma simples conversa com o seu médico e um ajuste terapêutico podem fazer a diferença. E finaliza: “É essencial saber como atuar durante as crises e fazer a medicação preventiva!”
Por outro lado, um paciente que tenha uma asma ligeira mas que não cumpra os princípios mínimos (evitar hábitos tabágicos, exposição a fatores de poluição como o pó ou o fumo do tabaco ou pólenes), pode comprometer muito a sua qualidade de vida. “Mais importante do que a classificação da gravidade da doença é perceber se esta está controlada. Um asmático pode viver como se a doença não tivesse impacto!”.
Os estudos nesta área revelam que apenas metade das pessoas que deveria ter a doença controlada o consegue efetivamente, o que pode ou não significar que esteja a seguir a terapêutica que lhe foi recomendada. “Por vezes, existe pouca participação do paciente no controlo da sua doença, ou seja, é-lhe indicada uma medicação, um estilo de vida, princípios a evitar, etc. O seguimento desses conselhos dura umas semanas, nomeadamente enquanto o asmático se sentiu pior, e depois começa a limitar a sua vida, até para evitar seguir a terapêutica. Na asma, como em qualquer outra doença crónica, as pessoas só cumprem cerca de metade daquilo que lhes é indicado”, explica. Perante esta dificuldade, o imunoalergologista (também asmático), exorta todas as pessoas que rodeiam o doente a apoiá-lo, lembrando a necessidade de cumprir a medicação e assim chegar a um bom controlo.

O que é a asma?

A asma é uma doença crónica que implica, em quase todos os casos, a existência de uma inflamação persistente das vias aéreas que conduz a limitações tais como dificuldade em respirar e cansaço. É uma patologia transversal na medida em que atinge todos os grupos etários, desde a criança pequena até ao adulto idoso, podendo impossibilitar o doente de gozar a vida na sua plenitude. Muitos casos de asma têm início na idade pediátrica e mais de metade transitam para a idade adulta.

Aprender a identificar alguns dos sintomas da asma

Falta de ar;
Pieira e outros ruídos durante a respiração;
Tosse (particularmente à noite);
Aperto ou sensação de peso no peito;
Cansaço.

A asma tem cura?

Esta doença não tem cura, mas pode e deve ser controlada, permitindo obter qualidade de vida. De acordo com Mário Morais de Almeida, “podemos estar décadas sem sentir qualquer sintoma de asma, sendo isto muito mais provável quanto mais controlados estivermos... E temos excelentes meios para o conseguir! Temos broncodilatadores para usar por via inalatória e excelentes medicamentos anti--inflamatórios inalados e orais. Nos casos em que existem sensibilizações alergénicas (por exemplo, a ácaros ou a pólenes), a intervenção com vacinas antialérgicas pode modificar muito a resposta imunológica e, assim, alterar a história natural destas doenças, permitindo remissões de sintomas muito prolongados”.

Sou asmático e pratico desporto. Que cuidados devo ter?

Evitar praticar desporto ao ar livre em dias frios no inverno;
Evitar locais de vegetação durante a primavera;
Ter cuidado com os elevados níveis de poluição no interior e no exterior;
Usar a medicação preventiva que foi indicada e ter a medicação de alívio por perto.

A asma e os seus mitos

Na maioria dos casos a asma não é muito difícil de diagnosticar, mesmo na criança. Eis algumas ideias-chave sobre a asma que podem facilitar-lhe a vida:
A asma não passa com a idade;
Os sintomas são a base do diagnóstico da asma;
A asma pode afetar muito a qualidade de vida;
A asma pode ser controlada;
Os tratamentos para a asma não são perigosos, se bem utilizados;
Os corticoides de aplicação por via inalatória são seguros;
Os broncodilatadores se bem utilizados não “fazem mal ao coração”;
Existem associações de medicamentos que facilitam o controlo;
Quanto mais simples o esquema de tratamento melhor a adesão;
É muito perigoso deixar a asma controlar a vida dos que dela sofrem.




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