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O berço da sua saúde
DATA
17/04/2008 08:33:16
AUTOR
Jornal Médico
O berço da sua saúde

Dom Afonso Henriques é o patrono. O velho rei domina a entrada da nova USF. A sua figura emblemática foi escolhida pelos 23 profissionais como um símbolo de força, coragem e união, sentimentos que presidiram, desde o início, à criação do grupo

 

Naquele que é considerado o berço da nacionalidade nasceu, no final do ano passado, mais uma unidade de saúde familiar. Dom Afonso Henriques é o patrono. O velho rei domina a entrada da nova USF do Centro de Saúde de Guimarães. A sua figura emblemática foi escolhida pelos 23 profissionais como um símbolo de força, coragem e união, sentimentos que presidiram, desde o início, à criação do grupo

Nas novas instalações da Extensão de Urgezes, do Centro de Saúde de Guimarães, inauguradas em 2004, surgiram duas unidades de saúde familiar. a USF Afonso Henriques, No rés-do-chão, e a USF Vimaranes, no primeiro andar do edifício, onde anteriormente estavam instalados os serviços de aprovisionamento e da direcção.

As obras, de acordo com Rosa Marques, directora do centro de saúde e membro da USF Afonso Henriques, dificultaram, durante mês e meio, o trabalho dos profissionais, que tiveram que lidar ainda com o desagrado dos utentes, algo perplexos por verem em obras um edifício recente.

No espaço destinado à USF Afonso Henriques, "as alterações foram de vulto" mas, de acordo com o coordenador, Alberto Oliveira, o esforço foi positivo. "A USF dispõe de boas instalações. Todos os médicos têm gabinetes e o mesmo sucede com os enfermeiros, apesar de não estarem ainda totalmente apetrechados", facto que tem trazido dificuldades à equipa. "Mas nada que não se possa ultrapassar", garante o médico.

Grupo surgiu de forma quase espontânea

O grupo da USF Afonso Henriques surgiu "quase de forma espontânea", com o objectivo de "apanhar uma carruagem que já estava em andamento".

De acordo com o coordenador, para além do projecto poder conduzir a uma maior satisfação profissional, o grupo considerou, entre as suas prioridades, a necessidade de prestar "cuidados de saúde melhores do que até então". Essa foi, aliás, "a motivação principal" do grupo.

Todos os médicos da USF já trabalhavam na unidade de saúde de Urgezes, excepto Maria José Lopes, "uma jovem colega do CS de Oliveira de Frades".

De acordo com o médico, a actual directora do Centro de Saúde de Guimarães foi "a grande impulsionadora de um processo" que acabaria por traduzir-se na inauguração de ambas as unidades de saúde familiar.

Rosa Marques assinala, a propósito, que as condições eram propícias. "Possuíamos um edifício novo onde nos sentíamos bem. No entanto, sentíamos a falta do trabalho em equipa e isso traduzia-se nalguma desmotivação".

Quanto à equipa médica, propriamente dita, Alberto Oliveira assinala que a imensa maioria dos clínicos trabalham juntos há cerca de 25 anos. "Conhecemo-nos bem e isso também acaba por nos transmitir uma sensação de coesão e segurança". Esta é, também, a opinião da directora do centro de saúde, para quem "o trabalho em equipa, a solidariedade e o sentido de cooperação que tem de existir entre todos os elementos foi decisivo para avançarmos com o projecto".

USF absorve cerca de 1.500 utentes sem médico

No Centro de Saúde de Guimarães existiam, no final do ano, entre 4 mil a 4500 utentes sem médico de família atribuído. Na sua imensa maioria, estão inscritos na Extensão de Amorosa, no centro da cidade. Quando a equipa médica da USF estiver completa, é de prever que cerca de 1.500 transitem para as suas listas.

Mais adiante, com a entrada em funcionamento da USF São Nicolau, a directora confia que "todos os utentes da cidade de Guimarães terão médico de família".

Perspectivas de crescimento

Para todos os profissionais, "o início do funcionamento da USF foi um momento de aprendizagem e de desenvolvimento do trabalho em equipa. A nossa prioridade foi pôr a unidade de saúde familiar a funcionar e responder cabalmente às solicitações dos utentes", seguindo um plano de acção pré-determinado e a carteira básica, contratualizada com a ARS Norte.

Depois desta primeira batalha, "estamos dispostos a contratualizar, em carteira adicional, outras áreas e programas". Da USF faz parte uma enfermeira especialista em saúde materna e obstétrica, responsável pelo programa de preparação psicoprofiláctica para o parto, sendo de prever que, mais adiante, esta actividade possa ser incluída na carteira adicional.

A implementação de uma consulta de cessação antitabágica é outra área de intervenção, tanto mais que também existem na unidade de saúde familiar profissionais com formação nessa área.

Na candidatura, o grupo propôs o alargamento de horário aos fins-de-semana e feriados. A ser aceite, esta proposta permitirá aumentar a oferta de cuidados, não só em termos de ambulatório, como de domicílios. O projecto ainda está a ser estudado pela ARS Norte.

Contratualização dos tempos de atendimento

Desde o início da sua actividade – a 28 de Dezembro de 2006 – a USF estruturou a consulta de intersubstituição de forma a ajustá-la às necessidades dos utentes e dos profissionais no período de funcionamento da USF. "Entre as 8 e as 20 horas, há sempre um colega disponível. Distribuímos o nosso horário de forma que cada um de nós disponibiliza um determinado período de tempo para atender todas as situações agudas dos utentes cujos médicos de família não se encontrem naquele momento na unidade de saúde".

Inicialmente, o grupo pensou na hipótese de escalar um médico para o período da manhã e outro durante a tarde mas, como explica Alberto Oliveira, "a Missão para os Cuidados de Saúde Primários mostrou-se, desde sempre, contra esse tipo de organização, com receio de que pudesse conduzir a uma espécie de sapinhos". Ora, o que se pretende é melhorar a qualidade dos serviços e não reproduzir, mesmo em miniatura, experiências mal sucedidas.

A acessibilidade é, para a equipa, uma questão primordial, a par da eficiência dos serviços. Nesse âmbito, o grupo pretende que, entre a chegada do utente à USF e o momento de ser atendido, não decorram mais de15 minutos.

No que se refere à marcação de consultas, toda a equipa está a trabalhar em conjunto no sentido de sensibilizar os utentes para as vantagens de as agendar por telefone ou mesmo por e-mail. Esta medida visa, não só facilitar a vida das pessoas, como regular o fluxo dos utentes numa unidade de saúde onde os espaços e as zonas de espera são bastante pequenos. "A ideia é que o utente venha apenas um pouco antes da hora marcada, evitando períodos de espera desnecessários", como sucede nas unidades com um tipo de organização "tradicional".

Dificuldades com os sistemas informáticos

O facto de o sistema informático não responder não está a facilitar, em nada, a consecução destes objectivos. Tanto o SAM como o SAPE têm falhas recorrentes. De acordo com o coordenador da unidade, "o servidor não está adequado e isso é um problema. Por vezes, demoramos vários minutos até conseguirmos emitir uma receita".

Rosa Marques assinala, por outro lado, que "o problema não é de agora". Atinge, sobretudo, as extensões mais afastadas do centro da cidade"

"A coordenação da Sub-região de Saúde de Braga garantiu-me que o problema vai ser resolvido", diz Alberto Oliveira mas, entretanto, "nada funciona como deve ser". Incluindo, naturalmente, o Alert P1…

Os problemas são também significativos ao nível do secretariado clínico. "Uma das nossas dificuldades tem sido a formatação informática da agenda dos médicos", diz a administrativa Maria Fátima Alves. Para não falar da agenda dos enfermeiros, acrescenta a enfermeira Sílvia Martins. Não existindo ligação com o sector administrativo, "não é possível recebermos informação sobre as marcações ou a chegada dos utentes à unidade, o que acaba por atrasar, um pouco, o atendimento".

Falha ao nível dos equipamentos

A candidatura da USF Afonso Henriques chegou à Missão para os Cuidados de Saúde Primários em Novembro de 2007 e o parecer técnico surgiu em 13 de Dezembro. A partir daí, deu-se início às obras de remodelação do espaço, verificando-se a abertura da USF no final do mês.

O processo foi, efectivamente, muito rápido, mas nem tudo correu da melhor forma. À data da visita da reportagem do Médico de Família, a equipa continuava a aguardar grande parte do material previsto para o apetrechamento dos consultórios de enfermagem.

A falta de material era visível, sobretudo nas salas polivalentes de enfermagem e na área da Saúde Infantil e isso, de acordo com o coordenador, "não facilita o trabalho de proximidade entre o enfermeiro e o médico".

Todavia, o responsável da USF afirmou ao nosso jornal que o coordenador da Sub-região de Saúde de Braga, Castro Freitas, "tem sido excepcional, fazendo o possível e o impossível para que tenhamos tudo o que precisamos e estou convicto de que, mais uma vez, é isso que vai suceder".

Apesar das dificuldades iniciais, Alberto Oliveira salienta que o espírito das USF nada tem a ver com a organização das unidades de saúde tradicionais, onde cada um dos sectores profissionais dificilmente interage com os outros. "O sistema das USF tem a vantagem de que todos trabalhamos em conjunto e isso, para mim, é muito gratificante. Preocupam-nos, naturalmente, as falhas que se fazem sentir ao nível dos sistemas de informação e do apetrechamento da unidade. No entanto, existe um sentimento unânime de que estamos a atravessar uma nova etapa, bem melhor do que todas as anteriores".

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