Jornal Médico Grande Público

Nova dinâmica contagia CS de Lamego
DATA
17/04/2008 08:38:16
AUTOR
Jornal Médico
Nova dinâmica contagia CS de Lamego

O processo de constituição da equipa da USF Douro Vita não foi nada fácil. A contra-informação fez-se sentir ao longo de muitos meses, levando alguns profissionais a desistirem do projecto

 

O processo de constituição da equipa da USF Douro Vita não foi nada fácil. A contra-informação fez-se sentir ao longo de muitos meses, levando alguns profissionais a desistirem do projecto. No entanto, em 29 de Novembro de 2007, a equipa estava em condições de avançar. São seis médicos, seis enfermeiros e cinco administrativos para uma população de cerca de 11 mil utentes. Mas não são estes os únicos que ganham. A concorrência começa a dar frutos. Nomeadamente, com a implementação, no Centro de Saúde de Lamego, da consulta aberta entre as 20 e as 22 horas e o alargamento do horário ao sábado, entre as 9 e as 13 horas.

Novembro de 2007. Depois do almoço, os profissionais da USF Douro Vita juntam-se na sala de reuniões para dar início à primeira reunião da equipa. Dominam as questões relacionadas com a organização, sobretudo da área administrativa. O coordenador, António Marques Luís, modera a discussão, que envolve médicos, enfermeiros e administrativos. "A nossa candidatura foi muito trabalhada pelos médicos, um pouco pelos enfermeiros e quase nada pelos administrativos", explica à jornalista do JMF.

As obras do edifício onde se encontra localizada a unidade de saúde familiar tiveram início em Maio de 2006 e só terminaram em Novembro de 2007, poucos dias antes da abertura oficial da USF. Nesse intervalo de tempo, alguns dos profissionais que integravam a candidatura desistiram. "Houve pessoas que não acreditaram que o projecto iria para a frente", explica o médico.

Na equipa médica, inicialmente constituída por oito médicos, dois desistiram. Quanto à área de enfermagem, entre a apresentação da candidatura e o início da actividade da USF, registou-se uma completa alteração. Muitos profissionais tinham receio de perder o vínculo à Função Pública, de modo que cinco dos seis elementos de enfermagem procedem, não dos cuidados de saúde primários, mas do Hospital de Lamego, que António Marques Luís dirigiu até há cerca de um ano atrás.

"O processo de constituição da equipa foi extremamente complicado. Houve muita contra-informação e daí o facto do nosso projecto não ter sido muito participado pelos sectores de enfermagem e administrativo. As pessoas não começam a trabalhar em equipa de um dia para o outro", explica o médico.

O sector administrativo "é o menos estável", na medida em que apenas dois dos seus elementos pertencem ao quadro do Centro de Saúde de Lamego. Três são contratados e essa é uma questão sensível. "A questão organizacional passa muito pelos administrativos", daí a preocupação do coordenador.

Dificuldades iniciais determinaram escolha do coordenador

Inicialmente, a coordenação da unidade de saúde familiar recaiu no médico de família Cardoso Leite mas as dificuldades do processo de constituição da equipa levaram os profissionais a desafiar António Marques Luís no sentido de assumir aquela responsabilidade.

O médico tem uma história profissional interessante e um pouco sui generis: depois de trabalhar 13 anos como médico de família, foi convidado para dirigir o Hospital de Lamego, cargo que ocupou durante outros 13 anos até que, em Março de 2006, com a integração do hospital no Centro Hospitalar de Trás-os-Montes, regressou à Medicina Familiar, no Centro de Saúde de Lamego. "Estive 13 anos sem exercer clínica e isso significa que tive que fazer um esforço – e continuo a fazê-lo – para me aperfeiçoar na vertente da prestação de cuidados. Era esse o meu objectivo principal, até que os colegas pensaram que, dada a minha experiência ao nível da gestão, as pessoas acreditariam um pouco mais no projecto se fosse eu a assumir a coordenação. E foi assim que acabei por aceitar o cargo, embora me sentisse muito mais confortável apenas como médico de família".

Problemas de relacionamento com a direcção do centro de saúde

A USF foi estrear um novo edifício na Av. 5 de Outubro de Lamego. Quando visitámos a unidade, em 2007, os profissionais diziam-se satisfeitos com o espaço. Pesava-lhe apenas o facto de ainda não terem recebido todo o material. "causa-nos algum desgosto", confessaram ao nosso jornal. O coordenador explicou, então, que a equipa elaborou uma lista baseando-se no equipamento-tipo recomendado para as unidades de saúde familiar. "No entanto, a Sub-região de Saúde de Viseu cortou várias coisas. Nomeadamente, um electrocardiógrafo, um disfibrilhador portátil, um espirómetro e o material para projecções da sala de reuniões". No que se refere à viatura para os cuidados domiciliários, a USF continuava "muito dependente da boa vontade do centro de saúde".

De acordo com António Marques Luís, o actual director do Centro de Saúde também chegou a integrar a candidatura da unidade de saúde familiar. No entanto, "desistiu por problemas pessoais e adoptou uma postura de afirmação do centro de saúde, que está a criar algumas dificuldades à USF em termos organizativos".

O médico assinala como positivo o facto de o centro de saúde passar a disponibilizar um horário de consulta aberta, durante a semana, entre as 20 e as 22 horas, e alargado a abertura da unidade aos sábados, entre as 9 e as 13 horas, "tal como nós".

A concorrência é bem-vinda - reconheceu à nossa reportagem - sempre e quando não se traduza numa rivalidade que condicione o funcionamento da unidade de saúde familiar. "Há serviços que têm que ser partilhados, daí o nosso empenho na elaboração do Manual de Articulação com o centro de saúde que determine claramente as situações que requerem a cedência de equipamentos e de serviços".

Maior autonomia do sector de enfermagem

No total, a USF Douro Vita abrange uma população de 11 mil e cem utentes, incluindo cerca de 1.800 que anteriormente não tinham médico de família atribuído no Centro de Saúde de Lamego.

"A nossa ideia relativamente à USF – tal como expressámos no guião de candidatura – consiste em prestar um serviço essencialmente diferente aos utentes". Em primeiro lugar, António Marques Luís assinala a necessidade de privilegiar as consultas programadas; em segundo lugar, alargar os serviços e, por último, proporcionar um atendimento de grande qualidade, nomeadamente na vertente técnico-científica, de acordo com normas de orientação clínica que possibilitem uma prática médica uniforme, assente em critérios reconhecidos internacionalmente.

Simultaneamente, assinala o médico, "vamos exigir muito mais dos profissionais de enfermagem, habituados a uma rotina muito incipiente que já não se coaduna com a dinâmica de uma unidade de saúde familiar. Isso significa que apostamos num trabalho de grande proximidade entre os médicos e enfermeiros, cuja função não é apenas executar ordens mas desenvolver autonomia e capacidade de intervenção numa área tão essencial como o ensino para a saúde. Temos a noção de que existe alguma dificuldade em determinar onde termina o acto de enfermagem e começa o acto médico. Isso é muito importante mas consideramos que o campo de actuação dos enfermeiros é muito vasto e que deve ser explorado na sua totalidade. Isso já está a acontecer noutras unidades de saúde familiar, daí que consideremos importante que os nossos enfermeiros estabeleçam contactos com esses colegas para conhecerem novas formas de organização e actuação". Entre outros motivos, porque "pretendemos crescer muito em termos de qualidade dos cuidados que prestamos à população inscrita na USF. Temos excelentes profissionais na área de enfermagem e não duvidamos de que vamos conseguir".

Um entrave à entrada dos grandes grupos económicos na saúde

Referindo-se ao sector médico, o coordenador explica que "todos temos mais de 50 anos" e objectivos muito claros. "Abraçámos este projecto com três intenções: sairmos de um centro de saúde com muito más condições físicas, assumirmos uma dinâmica que não estivesse espartilhada pela organização do centro de saúde e, do ponto de vista da prestação dos cuidados de saúde, aproximar-nos de um patamar de excelência que constitua um entrave à entrada, em Lamego, dos grandes grupos económicos na área da saúde. Preferimos ser nós a prestar cuidados de qualidade do que permitir que, face à desorganização dos cuidados de saúde públicos, se instale aqui um grande grupo privado".

Alargamento de horário aos sábados de manhã

A equipa iniciou a sua actividade no Modelo A mas, "assim que ganharmos consistência em termos de capacidade de organização e de resposta, é nossa intenção avançar para o Modelo B, até para ficarmos ainda mais autónomos do ponto de vista organizacional".

Para já, a carteira adicional contratualizada com a ARS incide na consulta aberta entre as 20 e as 22 horas, durante a semana, e no prolongamento do horário aos sábados, das 9 às 13 horas. Nessa conjuntura, "estamos a tentar mentalizar os nossos utentes de que, na esmagadora maioria das situações, devem dirigir-se apenas à unidade de saúde familiar".

A preocupação da equipa em termos da acessibilidade é igualmente patente na possibilidade que os utentes têm de marcar as consultas por telefone e na integração de períodos de consulta aberta no horário médico, tanto durante o período da manhã como da tarde. Além disso, a USF disponibiliza aos utentes a possibilidade de contactarem telefonicamente o médico de família. Se telefonarem fora do horário pré-estabelecido, os administrativos têm indicação para tomarem nota do seu número telefone, avisando-os de que o seu médico irá contactá-los mais tarde.

Desejo de parceria com o Hospital de Lamego

Numa primeira fase, o grande desafio da equipa da USF Douro Vita consiste em "consolidar a nossa prática de modo a atingir um nível médio superior". Quando isso acontecer, "estaremos em condições de avançar com novos projectos", acrescenta o coordenador. Ainda é cedo para avançar com propostas concretas. No entanto, até pela sua experiência profissional anterior, o médico considera que seria muito benéfico o estabelecimento de protocolos de colaboração com alguns serviços do hospital no sentido de promover a deslocação de especialistas hospitalares à USF. Nomeadamente, na área da Nutrição e da Psicologia Clínica, áreas em que o hospital dispõe de recursos suficientes.

As unidades de saúde familiar não só são interessantes para os profissionais - "que se sentem muito mais motivados" - e para os utentes - "que passam a ter um atendimento de melhor qualidade" -, mas também para os cuidados hospitalares, na medida em que "a médio e longo prazo, diminui a pressão sobre os serviços de urgência", daí que António Marques Luís considere que a colaboração inter-institucional está plenamente justificada.

Saúde Pública

news events box

Mais lidas