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Saúde prepara uma nova geração de médicos
DATA
02/05/2008 08:40:51
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Jornal Médico
Saúde prepara uma nova geração de médicos

O lançamento do Programa de Investigação Clínica no Internato Médico assinala a oportunidade de se preparar uma nova geração de médicos que, a par da formação clínica, possam desenvolver investigação científica

 

O lançamento do Programa de Investigação Clínica no Internato Médico assinala a oportunidade de se preparar uma nova geração de médicos que, a par da formação clínica, possam desenvolver investigação científica. Esta iniciativa conjunta dos Ministérios da Saúde e da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, vai permitir aos médicos frequentar, durante o Internato, programas de investigação conducentes ao grau de doutor. Pereira Miguel, presidente do Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge, salienta a importância da investigação clínica na comunidade e afirma que “se os programas de doutoramento forem acessíveis aos médicos de Medicina Geral e Familiar e se os médicos de outras especialidades e as instituições de acolhimento não enjeitarem este domínio, o seu contributo poderá ser muito importante para os ganhos em saúde da população, sem prejudicar os ganhos em eficiência”. InvestugClinica4.jpgA dificuldade em compatibilizar uma formação profissional longa e complexa, como o é a formação médica, com uma actualização de conhecimentos que acompanhe a ciência biomédica, tem levado a um progressivo declínio do envolvimento de médicos na investigação. “Poucos profissionais têm mantido processos de investigação e quando o fazem é sempre com grande investimento pessoal, nem sempre bem aceite pelos pares”, referiu a ministra da Saúde, Ana Jorge, na sessão de apresentação do Programa de Investigação Clínica no Internato Médico. Este distanciamento entre o clínico e a investigação sistematizada “tem elevados prejuízos para ambos os lados. Inclusive, para a evolução qualitativa que queremos para os cuidados de saúde e o ensino científico”, diz a titular da pasta da Saúde, argumentando que “sem o envolvimento do médico, a investigação perde duas características únicas: a experiência de um cuidador do ser humano doente e a de um profissional cuja formação é orientada por uma visão centrada na pessoa como um todo”.A impossibilidade que até agora existia de o médico poder aliar a sua formação, durante o Internato, à investigação clínica “tem tido também o efeito perverso de afastar do Serviço Nacional de Saúde profissionais qualificados e motivados, obrigados a escolher entre uma carreira de investigador ou a prática clínica”. Com o objectivo de contrariar esta tendência, o Ministério da Saúde tentou dar, nos últimos três anos, algum impulso à investigação clínica, através de bolsas co-financiadas e geridas pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT). O Programa de Investigação Clínica no Internato Médico constitui, na realidade, a renovação desse impulso. Essencialmente, porque “médicos motivados para a aplicação da investigação na sua prática clínica são profissionais valiosos. Exercem a sua missão orientada pelas Boas Práticas e por critérios de qualidade em Saúde, tornando-se assim motores da modernização e humanização da própria dinâmica interna dos serviços médicos onde trabalham, revertendo esta sinergia sempre a favor do cidadão”, diz Ana Jorge. Apoio financeiro do Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior O Programa de Investigação Clínica no Internato Médico, criado por portaria conjunta e publicado em Fevereiro, permite que os internos admitidos através de concurso nacional se possam candidatar, em qualquer momento do seu internato, a programas de doutoramento.A compatibilização entre a formação médica e científica do interno doutorando compete aos responsáveis clínico e científico da sua formação.A Portaria 172/2008 cria, por outro lado, um instrumento de apoio público aos internos, fazendo com que recebam, através do Ministério da Saúde, a remuneração calculada, em termos percentuais, da sua participação nos programas de formação clínica hospitalar em função de um horário completo de 42 horas semanais. Por sua vez, o Ministério da Ciência e Tecnologia e Ensino Superior, atribui-lhes um subsídio mensal de 50% do valor de uma bolsa de doutoramento no país, assim como o financiamento suplementar para, por exemplo, deslocações ao estrangeiro. Pereira Miguel quer agenda de investigação em saúde O presidente do Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge (INSA), diz que a Portaria 172/2008 “concretiza um sonho antigo, em resposta a uma necessidade que se tornou premente”. Nessa medida, tanto o INSA como as instituições congéneres afirmam a sua “total disponibilidade para apoiar o programa”.Para Pereira Miguel, é prioritário “definir uma agenda de investigação em saúde”, em áreas tão fundamentais como a investigação sobre as doenças crónicas prevalentes, doenças infecciosas emergentes e re-emergentes, doenças mentais (incluindo os comportamentos aditivos), determinantes da saúde (como os estilos de vida ou as causas dos acidentes), a par da investigação clínica e da investigação em serviços de saúde.“A agenda de investigação em saúde poderá ser um instrumento útil para orientar, no melhor sentido, os magros recursos disponíveis. Em breve, apresentaremos à tutela uma primeira proposta, fruto de um grupo de trabalho alargado”.Pereira Miguel assinala, por outro lado, que “muita investigação clínica tem-se reduzido aos ensaios clínicos de medicamentos, implementados pela indústria farmacêutica, relegando-se, por falta de apoios, a investigação de outro tipo de intervenções médicas para um plano residual”. Na sua perspectiva, “o programa de internos doutorandos poderá ajudar a corrigir esta discussão”. Recordando que este ano se comemoram os 30 anos de Alma Ata sobre os Cuidados de Saúde Primários, o responsável do INSA chama a atenção para o facto de que “a investigação clínica relevante não se faz só em meio hospitalar” e salienta a “importância da investigação clínica na comunidade, até agora um parente mais pobre”. Todavia, se os programas de doutoramento forem acessíveis aos médicos de Medicina Geral e Familiar “e se os médicos de outras especialidades e as instituições de acolhimento não enjeitarem este domínio, penso que o seu contributo poderá ser muito importante para os ganhos em saúde da população portuguesa, sem prejudicar os ganhos em eficiência”. Uma grande oportunidade para os médicos de família Para Rui Nogueira, da direcção da Associação Portuguesa de Médicos de Clínica Geral (APMCG) e Coordenador do Internato Complementar de CG/MG da Zona Centro, o Programa de Investigação Clínica no Internato constitui “uma grande oportunidade para os médicos de família, especialmente para os mais jovens”. Estando afastados dos centros de investigação e dos hospitais escolares, “temos sempre dificuldade em aceder a programas de doutoramento”, lamenta o médico.Por sua vez, Nuno Grande -  que, como recordou Mariano Gago, ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, há já mais de 20 anos que defende a possibilidade de os internos frequentarem programas de investigação clínica conducentes ao grau de doutor -, assinala que “a melhoria científica poderá ter como consequência a melhoria do cuidado do doente, que é a nossa finalidade última”.A Medicina Geral e Familiar tem a particularidade de funcionar como o representante dos doentes, da classe médica e do Serviço Nacional de Saúde. “A melhoria dessa representação passa também pela carreira académica e científica”, afirma. Conceito surgiu nos Estados Unidos há 50 anos O conceito de associar a formação médica à formação científica, agora adoptado em Portugal, não é novo. Começou a tomar forma nos Estados Unidos nos anos 60. As grandes instituições e universidades americanas, quer públicas, quer privadas, e a própria indústria farmacêutica, “chegaram à conclusão de que muito ficaríamos a ganhar trazendo médicos para a investigação científica”, diz Carmo Fonseca, directora do Instituto de Medicina Molecular (IMM), um dos centros de investigação que irá colaborar com o Programa de Investigação Clínica no Internato.Esta ideia é, aliás, partilhada pela imensa maioria dos países desenvolvidos que desde há muito implementaram medidas semelhantes àquela que foi agora lançada no nosso país.Mas do ponto de vista do licenciado em Medicina, qual é a vantagem de poder seguir a via do doutoramento? “Tenho que dizer que há mais desvantagens que vantagens”, esclarece Carmo Fonseca. Talvez por isso, nos Estados Unidos, o país onde há mais médicos cientistas, apenas 3% dos licenciados optam pela carreira conjunta.“Ao enveredar pelo doutoramento, um licenciado em Medicina vai atrasar a chegada ao final da especialidade médica e ter uma enorme desvantagem em termos de compensações financeiras relativamente aos seus colegas que optam por actividades médicas, muito mais bem remuneradas”, explica a responsável do IMM.Em Portugal, um médico que optar pela carreira do doutoramento, “recebe o mesmo que um estudante de doutoramento não médico”. Isso representa “uma clara desvantagem porque o médico que vai começar com o doutoramento é mais velho, tem encargos familiares mais pesados do que um jovem licenciado que saiu de um curso não médico e recebe o mesmo tipo de compensação”. Médicos com formação combinada são mais competitivos Mas há sempre pessoas que, intelectualmente, se sentem atraídas pela investigação científica. Nessa medida, “o médico cientista deve ser encarado como mais uma opção na grande diversidade de carreiras médicas que existem e tem o direito de não ser impedido de prosseguir nesta via”.Está comprovado que o investimento do governo em medidas que facilitem esta opção, como o recente Programa de Investigação Clínica no Internato, “vale a pena”. As estatísticas demonstram que os médicos com esta formação combinada – prática médica e doutoramento – “são claramente os mais competitivos a atrair fundos de investigação; são os que fazem a melhor investigação e contribuem mais para novas descobertas sobre os mecanismos de doença e a eficiência de novas formas de tratamento”. São também os mais competitivos para ocupar o cargo de professores nas melhores escolas médicas. Ora, em Portugal, “as faculdades de Medicina confrontam-se com uma enorme falta de médicos com formação e interesses académicos que possam substituir os professores catedráticos que agora estão a atingir a idade de reforma”. Ter mais médicos cientistas significa “que poderemos estar em condições de garantir um bom staff de professores das escolas médicas”.  Em Portugal: investigação rejuvenesce e feminiza-se As estatísticas demonstram que a presença das mulheres na investigação em Ciências da Saúde e áreas afins tem vindo a crescer de uma forma muito significativa no nosso país. Hoje, são praticamente o dobro dos homens, diz o presidente da Fundação para a Ciência e Tecnologia, João Sentieiro. O rejuvenescimento nesta área é também um facto. Em 1997, a esmagadora maioria dos candidatos a bolsas situava-se na faixa etária compreendida entre os 35 e os 40 anos. Em 2002, de acordo com João Sentieiro, as idades médias rondaram os 30 a 35 anos. Em 2007, “começámos mesmo a ter candidatos com idade inferior a 25 anos”.Já no que diz respeito ao género e idade dos responsáveis dos projectos de investigação, o panorama não é tão famoso. O predomínio é claramente masculino, apesar de se verificar alguma evolução no sentido de as mulheres jovens assumirem um papel mais importante ao nível da liderança dos projectos.

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