Jornal Médico Grande Público

Pretendemos colocar a APMCG rumo ao futuro
DATA
22/03/2009 05:58:26
AUTOR
Jornal Médico
Pretendemos colocar a APMCG rumo ao futuro

O candidato à presidência da APMCG para o triénio 2009-2011, João Sequeira Carlos, pretende colocar a APMCG rumo ao futuro “sem apagar os 25 anos de história que constituem a memória viva do que a MGF alcançou até hoje em Portugal, bem como a sua visibilidade internacional”.

 

O candidato à presidência da APMCG para o triénio 2009-2011, João Sequeira Carlos, pretende colocar a APMCG rumo ao futuro “sem apagar os 25 anos de história que constituem a memória viva do que a MGF alcançou até hoje em Portugal, bem como a sua visibilidade internacional”. Entre as linhas mestras do seu projecto destacam-se as áreas da inovação, intervenção, informação, investigação e desenvolvimento técnico-científico, bem como o internato e as relações internacionais da Associação. O médico não ignora que a responsabilidade da sua equipa é grande. Mais ainda, quando irá substituir uma equipa liderada por um médico de família carismático: “o Dr. Luís Pisco colocou definitivamente a APMCG e, consequentemente, a MGF na rota do futuro. Com ele, a APMCG conseguiu atrair uma nova geração de médicos de família para a vida associativa”, afirma João Sequeira Carlos. “E foram justamente os seus sinais que nos motivaram a constituir uma lista jovem e inovadora”

 

Jornal Médico de Família – Que motivos o levaram a avançar com uma candidatura à presidência da APMCG?
João Sequeira Carlos - Em Janeiro de 2008, na reunião de Quadros da APMCG, os participantes foram estimulados a delinearem estratégias de mudança na acção e estrutura da organização. Na altura soubemos que havia uma intenção clara de renovação de quadros associativos, e deu-se início ao trabalho de reflexão sobre a forma de dar corpo a esta ideia. Pessoalmente, tinha o firme propósito de integrar um grupo que viesse a constituir uma lista candidata aos Órgãos Sociais da APMCG. Criou-se uma dinâmica, catalisada por internos e jovens médicos de família, que não surtiu efeito em tempo útil de apresentar uma candidatura, ainda em 2008. Com a abertura de novo processo eleitoral, o grupo organizou-se de forma a conseguir uma melhor e mais consistente organização. Depois de uma reflexão pessoal e por sentir o apoio dos colegas, decidi liderar o processo.

É uma candidatura de mudança?
Qualquer candidatura é de mudança e renovação. Já passei por dois processos eleitorais na APMCG – as listas que integrei tiveram, nos dois momentos eleitorais (2001 e 2004), manifestos diferentes e propósitos de renovação, ainda que a equipa fosse de continuidade. Neste momento o desígnio é semelhante – há uma lista que se apresenta a eleições com o objectivo de introduzir inovação nas linhas de orientação da APMCG e de renovar os quadros associativos. Mas como tenho dito, é uma candidatura que quer colocar a APMCG rumo ao futuro sem apagar os 25 anos de história que constituem a memória viva do que a MGF alcançou até hoje em Portugal e com visibilidade internacional.

É uma lista de médicos de família jovens mas integra alguns seniores. Procurou-se, de alguma maneira, um equilíbrio que reflicta a diversidade geracional da Medicina Familiar no nosso país?
Na linha do que referi atrás, tentámos conciliar a capacidade de inovação da nova geração de médicos de família, com o saber e a experiência de quem assistiu ao desenvolvimento da MGF nacional. Na lista candidata, os nomes escolhidos para a Direcção reflectem a intenção de criar uma equipa executiva mais jovem, equilibrada, depois, pelos restantes Órgãos Sociais. Mais do que reflectir a diversidade geracional da MGF portuguesa, foi nossa intenção trazer para a APMCG capacidade de realização e uma visão que vá ao encontro das gerações futuras de médicos de família.

Trabalhou durante vários anos no Serviço Nacional de Saúde mas, há pouco tempo, decidiu mudar para o sector privado. Pensa que essa dupla experiência irá reflectir-se no projecto que apresenta para os próximos três anos de mandato?
Devo confessar-lhe que essa situação me causou algum constrangimento no processo de decisão de avançar para a liderança da lista candidata. Até certa altura, considerei que estar no sector privado do sistema de saúde seria uma contra-indicação absoluta para ocupar a presidência da APMCG. Percebi rapidamente que apenas eu estava incomodado com o facto e o apoio de vários colegas que tenho como conselheiros bem como dos membros da lista foi tão forte, que as dúvidas ficaram completamente diluídas. E a sua questão encerra uma ideia forte que me tem sido transmitida – a dupla experiência terá reflexo nos três anos de mandato. Um reflexo positivo.

Muitos dos elementos da lista candidata às eleições pertencem a unidades de saúde familiar… Como se explica esta predominância?
Longe de ser um critério de selecção dos elementos da lista, tenho de admitir que a dinâmica de mudança, a capacidade de realização e inovação que os colegas das USF têm, são características desejáveis para os membros de qualquer organização. Mas o mais relevante é o predomínio de jovens médicos internos e recém-especialistas na lista candidata.

A reforma em curso nos cuidados de saúde primários reflecte a visão da APMCG de como deve ser organizado este nível de cuidados. Volvidos cinco anos, qual o balanço que faz do processo?
A reforma em curso nos CSP foi alicerçada em pressupostos que a APMCG foi definindo ao longo dos anos como essenciais para a MGF e para os CSP. Foi criada na actual legislatura a oportunidade para transpor os conceitos para terreno. Personalidades ligadas à APMCG ocuparam, inclusivamente, lugares chave. O trabalho da Missão para os Cuidados de Saúde Primários tem sido notável. Contudo, uma reforma não é feita só pela vontade e acção de quem a idealiza. Há uma conjuntura política e social que envolve o processo e que determina os resultados. E há também o trabalho que deve ser feito pelos receptores de uma reforma. Olho hoje para a reforma como um processo contínuo que, muito provavelmente, ainda vai a meio do caminho. E o mais importante é fazer o caminho e não pensar apenas na meta. Gostava muito de assistir, não só à reforma estrutural, mas também à reforma de mentalidade e cultura organizacional.

Que diferenças encontra entre esta e as anteriores reformas tentadas no passado para os CSP?
A grande vantagem desta reforma, foi a de se ter apostado na iniciativa dos profissionais envolvidos. Outras diferenças de relevo são, sem dúvida, a vontade política (determinante para o lançamento da reforma há quatro anos) e a integração de um enquadramento conceptual definido pelos profissionais dos CSP.

Quais são as linhas mestras do programa de acção da vossa candidatura à liderança da APMCG para o triénio 2009-2011?
As linhas mestras estão explícitas no manifesto da lista. Temos um projecto para a APMCG orientado para as seguintes áreas: inovação, intervenção, informação, investigação e desenvolvimento técnico-científico, internato e internacional.

Num mundo cada vez mais dependente das novas tecnologias da informação, como vai a sua equipa, na Associação, enfrentar este enorme desafio?
Não podia ser de outra forma – vamos enfrentar o desafio com inovação. Esta é, aliás, uma das linhas mestras do nosso projecto para a APMCG. Queremos capacitar os médicos de família para lidar com as novas tecnologias de informação e comunicação, essenciais à prestação de cuidados no século XXI. Pretendemos, ainda, promover a dinamização de redes colaborativas e de comunidades de prática. Por outro lado, não iremos esquecer a comunidade à qual prestamos cuidados. Nesse sentido, planeamos criar espaços virtuais de informação em saúde orientados para os cidadãos.

A APMCG tem, sob a sua alçada, algumas das mais relevantes iniciativas médicas portuguesas na área da Medicina, como o são o Congresso, o Encontro Nacional, as Escolas e os Encontros regionais. Vamos ter novidades nesta área?
A APMCG tem de continuar a ser uma organização ligada à formação dos médicos de família. Para tal, iremos manter e desenvolver os eventos que referiu. As novidades podem passar por tentar encontrar outros espaços para o Encontro Nacional, dinamizar o Congresso Nacional e reforçar o apoio aos eventos regionais. Uma palavra especial para as Escolas de MGF: dado o seu sucesso, pensamos que há espaço para mais dois períodos formativos por ano. Para introduzir novidades, pretendemos ir ao encontro das necessidades e expectativas dos associados e participantes dos eventos em causa.

Ao longo dos últimos anos, a APMCG tem tido um papel extremamente interventivo na defesa da especialidade e das condições de trabalho dos médicos. Opôs-se, sem receio, a líderes políticos, ministros e secretários de Estado sempre que foi necessário. Será assim no futuro, se as circunstâncias a isso obrigarem?
Mais uma vez respondo utilizando o nosso manifesto – seremos firmes na defesa da especialidade. Planeamos intervir de forma responsável, séria e criteriosa. Acima de tudo, procuraremos dialogar com outras organizações para evitar sobreposição e duplicação de esforços. Convém lembrar que as condições laborais são objecto de intervenção dos sindicatos médicos. A nossa prioridade será a defesa da MGF.

Alguns dos líderes da APMCG são pessoas que já fizeram história na Medicina Geral e Familiar. Como encara o peso e a responsabilidade de poder vir a substituir dirigentes como o Dr. Luís Pisco, que tem vindo a liderar um processo de reforma dos CSP, ainda há dias apontado como um “acontecimento extraordinário” na sociedade portuguesa?
Todos os líderes da APMCG são parte da história da MGF. E felizmente muitos mantêm actividade académica, assistencial e associativa. Contamos com o seu apoio para o futuro, pois não pertencem só ao passado. Há um legado que sabemos estimar e respeitar. A responsabilidade desta equipa é grande. Mais ainda quando se pretende suceder a uma equipa liderada por um médico de família carismático – o Dr. Luis Pisco colocou definitivamente a APMCG e, consequentemente, a MGF na rota do futuro. Com ele, a APMCG conseguiu atrair uma nova geração de médicos de família para a vida associativa. Foram os seus sinais que nos motivaram a constituir uma lista jovem e inovadora.

No que se refere à área dos media, quais são os seus projectos para a Revista e o Portal da APMCG?
Obviamente que o nosso projecto na área dos órgãos de comunicação e informação da APMCG irá no sentido da continuidade. Continuaremos a apostar na tríade Revista/Portal/Jornal para informar os nossos associados e todos os profissionais de saúde atentos à MGF. A informação emitida com a chancela da APMCG tem de ser oportuna, rigorosa e actual. Para que tal aconteça, precisamos de apostar definitivamente na Internet – o Portal da APMCG tem de ser a porta de entrada para a MGF portuguesa. A partir do Portal, o médico de família deve aceder rapidamente à informação socioprofissional mais actual (site do Jornal Médico de Família), ter possibilidade de receber formação on-line (plataforma de e-learning), pesquisar artigos na Revista Portuguesa de Clínica Geral (site da RPCG), obter ajuda em tempo real para a consulta (instrumentos de apoio à consulta) e dialogar com outros colegas e com os órgãos sociais da APMCG (web-fórum).

Como vê o Jornal Médico de Família no contexto da informação socioprofissional em que se insere a Medicina Familiar?
O Jornal Médico de Família, mormente desde que se apresenta em versão on-line, é uma fonte de informação ainda mais relevante para os médicos de família, que tem permitido levar a MGF a todos os agentes da Saúde. A preparação dos seus jornalistas na área da MGF resulta num tratamento adequado da informação. Pensamos, todavia, que ainda há espaço para desenvolver muitas outras áreas com interesse para os associados, promovendo uma maior abrangência informativa.

Ao nível da investigação e desenvolvimento técnico-científico, propõe, no seu manifesto eleitoral, um importante investimento na formação pós-graduada dos médicos de família no âmbito da investigação clínica e o desenvolvimento de estruturas de apoio técnico específico. A que estruturas e apoio se refere exactamente?
Queremos, efectivamente, dotar a APMCG de capacidade operacional para o desenvolvimento profissional contínuo e promoção da investigação em MGF. Isto consegue-se dando maior relevo à dimensão técnico-científica da Associação. Para que tal aconteça, devemos desenvolver estruturas já existentes, como os núcleos e departamentos, e promover parcerias com instituições nacionais e estrangeiras. Desta forma, será facilitado o acesso ao conhecimento e apoio técnico. Pensamos, ainda, reforçar a ligação à academia (escolas médicas) estimulando doutoramentos, programas de formação pós-graduada e projectos de investigação.

A APMCG conta, no seu seio, com um vasto grupo de núcleos de interesse. O que pensa fazer para incrementar o trabalho destes grupos?
Tal como disse no início da entrevista, planeamos continuar o trabalho que tem sido desenvolvido – reforçar o papel dos núcleos de interesse no seio da APMCG. Uma organização não pode estar na dependência total dos seus órgãos sociais. Deles dependerá a governação e orientação estratégica mas é dos seus núcleos e departamentos que se espera a acção concreta – em sentido figurado estes serão os músculos da organização. Para que um núcleo de interesse seja produtivo, deverá estar bem definida a sua área de actuação. Depois tem de ser constituída uma equipa motivada e com um projecto de longo prazo à volta dessa área de interesse. Nesta fase, deverá intervir a Direcção, validando o projecto e, consequentemente, aprovando o núcleo. A ligação da Direcção ao núcleo deve ser forte, permitindo um apoio e monitorização constantes. Pretendemos, desta forma, tornar os núcleos mais operacionais e activos. Preferimos que existam menos núcleos com maior produtividade, do que um vasto grupo de núcleos com actividade residual e sem visibilidade.

Em termos de política profissional, mantém-se a velha questão do alargamento do Internato para quatro anos e a publicação do programa da especialidade, o único que ainda não viu a luz do dia. Como pensa “forçar” a tutela e a Ordem dos Médicos para que aprovem e publiquem esta legislação essencial à especialidade?
O Internato é uma das linhas mestras do programa da lista. Respondendo à sua questão, convém recordar que a portaria do novo programa de internato de MGF (alargado para quatro anos) aguarda publicação, que se prevê poder acontecer a qualquer momento. Vamos estar atentos a esta situação. Seja como for, reforço que apoiamos a implementação do novo programa de internato de MGF.

A APMCG tem sido, nos últimos anos, o centro para onde confluem as diferentes sensibilidades da MGF e as suas múltiplas estruturas representativas. Vai continuar a sê-lo?
Tem de ser. A Associação deve promover as relações com organizações relacionadas com a MGF e com todas as instituições ligadas à Saúde. Os médicos de família não devem trabalhar isolados. A APMCG deve seguir o mesmo pressuposto. Podemos actuar como personagem principal num diálogo interinstitucional construtivo e eficiente. Dar forma a esta plataforma já foi objecto de debate no seio da APMCG. Pretendemos reavivar a ideia de um Fórum de MGF – um evento que congregasse diferentes estruturas médicas, organizações de doentes e instituições de Saúde com ligação especial à MGF.

Em termos internacionais, quais serão as grandes apostas para o seu mandato? O que se deve esperar da nova equipa no que toda ao relacionamento, que até aqui tem sido privilegiado, entre a APMCG, a Sociedade Brasileira de MFC e a SemFYC?
Estabelecemos como fundamental a presença e representação na WONCA (Organização Mundial de Médicos de Família), com prioridade para a região Europeia e CIMF (Ibero-americana). Continuaremos a apostar nas relações privilegiadas com a SBMFC (Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade) e semFYC (Sociedad Española de Medicina de Familia y Comunitária), sociedades científicas de MGF com as quais pretendemos realizar projectos conjuntos. Acalentamos a esperança de vir a colaborar com países lusófonos do continente africano – quiçá promovendo o desenvolvimento de organizações congéneres à APMCG. Planeamos, ainda, estabelecer protocolos de colaboração com grupos e organizações internacionais ligados à MGF. É grande a vontade de manter Portugal na rota internacional da MGF.

Ainda neste campo, saliento, pela sua posição na estrutura, o Movimento Vasco da Gama, da WONCA, de que é presidente… Quais as suas expectativas para o futuro desta organização?
Como calcula, tenho uma forte ligação afectiva ao Movimento Vasco da Gama (MVdG). Para além de ocupar a presidência, sou actualmente o último membro do grupo fundador presente na direcção da organização. Desde a sua fundação, em 2005, o crescimento foi vertiginoso e a visibilidade internacional é impressionante. Recordo sempre o que disse uma vez o presidente da WONCA Europa, Igor Svab: o MVdG foi o melhor que aconteceu à WONCA nos últimos anos. Nesta linha, só posso estar confiante no futuro da organização. Os elementos mais novos da direcção têm grande capacidade de liderança e grande competência para levar o MVdG a novos projectos e desafios.

Uma última questão… Um desafio como o que decidiu enfrentar, obriga a um balanço, determinante para a decisão final, dos prós e contras envolvidos. Que pesos colocou em cada um dos pratos da balança?
Já tive de tomar muitas decisões relevantes na minha vida pessoal e profissional. É um exercício apaixonante que comporta emoções fortes. Não costumo utilizar uma balança. Prefiro apostar na relação com as pessoas que são importantes para a tomada de decisão. Da comunicação com essas pessoas resultam forças cujo somatório me indica o caminho a seguir. Depois, conjugo essa resultante de forças com uma reflexão a solo em que antecipo cenários e meço os riscos. Só então a decisão é tomada.
Hipócrates escreveu há mais de 2000 anos que A vida é breve, a arte é longa. A oportunidade é efémera, a experiência enganosa e a decisão difícil. Foi difícil mas neste momento não tenho qualquer dúvida sobre a decisão tomada.

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