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Medicamentos Genéricos... Mas afinal, o que é que se passa?
DATA
22/04/2009 04:35:55
AUTOR
Jornal Médico
Medicamentos Genéricos... Mas afinal, o que é que se passa?

Responsável pela maior companhia de genéricos a operar em Portugal, e uma das maiores do mundo,  o Director-Geral da Mylan esclarece, em entrevista ao nosso jornal, muitas das dúvidas que ainda vingam na opinião pública e desfez alguns dos mitos sobre o modo como funciona este mercado

 

Nunca, como nos últimos dias, os genéricos fizeram correr tanta tinta. Ele não há primeira página, ou noticiário das TV que não pegue no assunto, dando-lhe um destaque muito pouco habitual. Que em Portugal são muito caros, dizem uns... Que os médicos os prescrevem pouco, garantem outros... Que o número de apresentações de uma mesma molécula, comercializadas por diferentes laboratórios é irracional... Gritam quase todos... No mesmo palco, ouve-se ainda afirmar, com o mesmo ênfase, uns que a escolha, pelo médico, não faz qualquer sentido... Outros, que retirar ao médico essa responsabilidade acarreta riscos graves para a Saúde Pública. Médicos e Farmacêuticos já esgrimiram, na praça pública, as suas razões... Contraditórias. Já da indústria farmacêutica, que afinal é quem investiga, desenvolve e produz estes medicamentos, até agora ainda não se ouviu nada. Ou quase nada. O que não faz sentido. E porque assim é, decidimos entrevistar o Director-geral da maior companhia de genéricos a actuar em Portugal e uma das maiores do mundo, a Mylan, que há poucos meses foi também alvo dos holofotes das notícias por ter adquirido o gigante Merck Genéricos. Ao nosso jornal, João Félix esclareceu muitas das dúvidas que ainda vingam na opinião pública e desfez alguns dos mitos sobre o modo como funciona este mercado

 

Jornal Médico de Família - Uma das críticas mais vezes apontadas ao mercado de genéricos português, é a de que o número de apresentações aprovadas pelo INFARMED, de diferentes companhias, é demasiado elevado... 500 apresentações de uma mesma molécula... 700 de outra... Como se explica esta situação?

 

João Félix - Bom... Antes de mais, importa distinguir entre apresentações aprovadas pelo INFARMED e apresentações efectivamente disponíveis no mercado. Coisas muito diferentes. Veja o exemplo da Sinvastatina, tantas vezes referido nos últimos dias: registadas no INFARMED, temos 174 AIM aprovadas, que correspondem a diferentes dosagens de 65 marcas, entre genéricos e medicamentos com nome de fantasia. Pois bem: destas 65 marcas, só 49 estão disponíveis no mercado.

 

O que ainda assim, é um número muito elevado. O Estado não deveria travar a proliferação de empresas a actuar nesta área, e assim o número de marcas e correspondentes apresentações?

Essa tem sido a solução mais vezes apontada... Mas que não é possível implementar. Isto porque vivemos no mercado europeu, sujeito às regras da livre concorrência. Não se pode impedir alguém de actuar neste sector, desde que reúna os requisitos técnicos para tal.

 

... Mas a verdade é que, dizem algumas vozes, o enorme número de apresentações disponíveis obriga as farmácias a stocks absurdos...

Não me parece que o cenário seja assim tão absurdo como o pintam. Dou-lhe um exemplo: eu vivo em Algés, na zona de influência da USF Dafundo, que é a principal responsável pelo receituário dispensado pelas farmácias de oficina que funcionam naquela área. Ora bem: é de crer - digo eu - que para uma mesma substância activa, cada médico irá prescrever os produtos de uma mesma empresa farmacêutica... Ou porque confia mais num determinado laboratório, ou por qualquer outra razão. A menos que alguém ache possível que um médico adopte, como hábito de prescrição, receitar a cada um dos seus doentes um Omeprazol diferente. Como também me parece improvável que, logo por azar, os 7 ou 8* médicos que exercem na USF Dafundo prescrevam, cada um, "o seu" Omeprazol...

Ou seja, as substâncias prescritas numa determinada área geográfica concentram-se num número limitado de companhias, pelo que as farmácias condicionam os seus stocks a esta realidade. É evidente que pode sempre aparecer um genérico de outra empresa. Mas para isso também há solução, que não passa pela obrigação de a farmácia ter todas as apresentações disponíveis no mercado. Assim, e de acordo com as regras do sector, quando confrontado com um pedido de medicamento que não disponha em stock, o farmacêutico tem um determinado prazo para o disponibilizar ao consumidor.

 

Prévia à questão do número, surge no debate público a relativa à qualidade dos genéricos. Há quem diga que não são "tão bons" como os "originais" e que mesmo entre companhias, a qualidade dos produtos varia. É assim mesmo?

Colocar em causa a qualidade dos genéricos é colocar em causa o sistema Europeu de regulação do medicamento. Obviamente que a realidade que melhor conheço e sobre a qual me posso pronunciar, é a da Mylan, e quanto aos seus medicamentos,  não tenho a menor das dúvidas: a sua qualidade é garantida!

 

Sim... Mas isso é o que dirão todas as demais companhias.    

É provável... Mas será que todas elas poderão afirmar que são especialistas mundiais no mercado de genéricos? Ou que têm escritórios em 90 países e estão representadas em mais de 140? Ou ainda, que contam com cerca de 11 mil pessoas e produzem 570 medicamentos?

Por outro lado, importa dizer - até porque, para muita gente, este argumento dirá provavelmente mais do que tudo o resto - a Mylan está cotada no NASDAQ**, mercado onde todos os dias são transaccionados muitos milhões de títulos da empresa. Pois bem... Agora imagine o que aconteceria às nossas acções se fosse noticiado que num qualquer canto do mundo - por mais remoto - tinha sido detectado um problema com um produto nosso.   Era um desastre! Ou seja: para nós, os custos da não qualidade são verdadeiramente desastrosos. É por isso que empresas como a Mylan não correm riscos... Que na Mylan não é permitida a mais pequena não-conformidade com os mais elevados "standards" mundiais de boas práticas de fabrico.

Diria mesmo que no que toca à qualidade... Somos fundamentalistas!

 

E no que toca ao INFARMED... É eficaz?

A experiência diz-nos que podemos confiar totalmente no INFARMED. Uma companhia com presença mundial como a Mylan tem a perfeita noção que o INFARMED se destaca pela positiva entre as várias agências europeias, com excelentes ratios de performance e reconhecidas capacidades técnicas dos seus colaboradores.

Dou-lhe um exemplo: acabámos há pouco tempo o processo de transição de marcas, que se seguiu à aquisição, pela Mylan, da Merck Genéricos. Foi um processo extremamente complexo, que envolveu inúmeras questões e obrigou a um sem número de procedimentos. Pois bem: tudo correu da melhor maneira, dentro dos prazos, tendo-se cumprido todos os requisitos. Foi um dos melhores processos de transição a nível Europeu, facto que em muito se deveu à cooperação do INFARMED.

 

Outra das críticas que têm surgido, respeita às diferenças de preços destes medicamentos: dos genéricos entre si e dos genéricos face aos de marca. Que os médicos prescrevem mais dos mais caros e que depois o doente chega à farmácia e não tem dinheiro para aviá-los a todos. Isto é mesmo assim?

São três questões distintas. Antes de mais, importa dizer que os medicamentos genéricos são, logo à partida, 35% mais baratos do que os medicamentos de marca que estiveram na sua origem. Dizer também que nos últimos tempos, o preço dos genéricos tem vindo a sofrer reduções drásticas, impostas pelo Estado. Em Outubro de 2008 tiveram um corte de 30% e recentemente ainda mais um outro, que em alguns casos chegou aos 12%. Para além destes descontos, vai ser introduzido um regime de comparticipação mais favorável, dirigido a utentes com regime especial (na gíria da saúde, geralmente referidos como utentes com "vinheta verde") que na prática vai fazer com que, muito em breve, estes utentes não paguem nada pelos genéricos que lhes são dispensados nas farmácias.

Uma segunda questão tem que ver com os preços dos genéricos entre si. Ora, a verdade é que estas diferenças são desprezíveis. Ou pelo menos, não podem ser apontadas como causa da sua não aquisição pelos utentes.

Por fim - e esta é, certamente, a principal questão - respeita às diferenças de preços entre os genéricos e os produtos de marca. Estas, sim, são exorbitantes e podem, de facto, condicionar a aquisição, pelos utentes mais desfavorecidos, dos medicamentos que lhes são prescritos pelos médicos.

 

Quer então dizer que a culpa de não se prescreverem mais genéricos é dos médicos?

Não gosto da expressão "culpa". Até porque se formos por aí, a verdade é que tudo o que de bom e de mau acontece em campo de prescrição é sempre "culpa" dos médicos, uma vez que apenas eles podem prescrever. Por outro lado, parece-me de algum modo injusto apontar o dedo aos médicos quando é a eles que devemos o crescimento deste mercado. Um crescimento que, na Europa, foi durante algum tempo uma "referência".

Em vez de apontarmos o dedo seja a quem for, faríamos melhor em analisar as razões pelas quais ainda não se atingiram os valores desejáveis em campo de prescrição destes medicamentos. Provavelmente, falta mais e melhor informação. Mais estudos sobre a eficácia, qualidade e segurança dos genéricos ou uma melhor divulgação dos que já existem, que são muitos...

Têm sido dados alguns passos neste sentido. Ainda recentemente, no Encontro Nacional de Clínica Geral, em Vilamoura, a Associação Portuguesa de Medicamentos Genéricos, em parceria com o INFARMED, organizou um workshop onde foram apresentados os resultados de um estudo, publicado no JAMA, que mostram que os medicamentos genéricos e os seus originadores são similares em todos os endpoints clínicos estudados.

 

Regressando aos preços... Diz-se que os genéricos são mais caros em Portugal do que nos países de referência...

Ora aí está outra coisa que não é verdade! Isso poderá acontecer em uma ou duas substâncias. Mas na maioria, o que se verifica é precisamente o contrário. Um estudo realizado recentemente - e cujos resultados foram também apresentados no Encontro da APMCG, em Vilamoura - demonstra isso mesmo: que em média, os medicamentos genéricos apresentam um valor mais elevado nos países de referência (Espanha, França, Grécia e Itália) do que em Portugal.

 

Há quem defenda que não faz sentido ser o médico a decidir qual o genérico a dispensar ao utente... Que as razões de segurança invocadas pelos clínicos não fazem sentido...

Fazem... E muito! Por exemplo: não nos podemos esquecer que o grupo que mais consome medicamentos é o dos idosos, com várias co-morbilidades. Trata-se de doentes polimedicados, muitas vezes com défices cognitivos. Nesta população, uma adesão correcta à terapêutica instituída, obriga a uma análise muito cuidada por parte do médico. É preciso que o doente seja treinado de modo a cumprir escrupulosamente a posologia. Isto passa, muitas vezes, pelo treino através fixação das características dos medicamentos e quantidades. Qualquer coisa do género: "dois comprimidos amarelos pela manhã; dois amarelos e um vermelho redondinho ao almoço; um da caixa azul mais dois cor-de-rosa ao lanche e mais 2 laranja e a cápsula vermelha ao jantar".

Ora, sabemos que mesmo assim, há falhas, duplicações... Esquecimentos vários. Agora imagine o que aconteceria se de cada vez que o idoso fosse buscar um medicamento à farmácia, lhe dessem uma embalagem diferente. Era o caos!

Dou-lhe um exemplo: aqui há tempos, detectei que uma familiar minha, idosa, estava a tomar o mesmo medicamento, de duas marcas diferentes. Tudo porque como a caixa tinha outra cor, achou que era mais um para tomar. Felizmente não era nada de muito grave... Mas podia: imagine que se tratava de um hipotensor... É evidente que isto não significa que o médico deva seguir este critério com todos os doentes.

 

Como assim?

Uma coisa é o médico não alterar o medicamento a um doente idoso, com défice cognitivo, mesmo que esse medicamento seja mais caro, sob pena de desaire terapêutico. Agora, nas situações em que se inicia terapêutica, a prescrição de um medicamento de marca, quando existe um genérico muitíssimo mais barato, não faz qualquer sentido.

 

Mas a verdade é que a tutela afirma que na maioria das situações, os médicos optam pelos medicamentos de marca, em detrimento dos genéricos...

Não é o que acontece com todos os medicamentos. Há genéricos líderes de mercado. Agora, de facto, em muitas áreas, a margem de crescimento é ainda muitíssimo grande. E aqui, das duas uma: na actual conjuntura de crise e de contenção da despesa, ou a situação evolui favoravelmente, com um aumento da prescrição de genéricos por parte dos médicos, ou corre-se o risco de esse aumento ser imposto por via administrativa.

 

Pensa que é isso que vai ocorrer, mais cedo ou mais tarde?

Era o pior que poderia acontecer.

* A equipa da USF Dafundo conta com 8 médicos.

 ** National Association of Securities Dealers Automated Quotations

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