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Crise económica… DGS e ENSP vão vigiar e dar resposta aos mais necessitados
DATA
21/04/2009 11:17:05
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Jornal Médico
Crise económica… DGS e ENSP vão vigiar e dar resposta aos mais necessitados

A Direcção-Geral de Saúde - em parceira com a Escola Nacional de Saúde Pública - criou uma unidade especial. Missão: preparar um sistema de alerta permanente para sinais de risco e o consequente acompanhamento médico e/ou social

Para dar resposta aos efeitos do desemprego e de outras consequências da actual crise económica na saúde dos portugueses, a Direcção-Geral de Saúde - em parceira com a Escola Nacional de Saúde Pública - criou uma unidade especial. Missão: preparar um sistema de alerta permanente para sinais de risco e o consequente acompanhamento médico e/ou social. Estes sinais, que serão monitorizados e actualizados mensalmente, estendem-se por áreas como a depressão, a desnutrição, a tuberculose, os maus-tratos ou o número de receitas não aviadas nas farmácias. Os chamados "novos pobres" constituem um dos grupos-alvo deste projecto

 

A convicção de que a actual crise financeira e económica global terá como consequência um agravamento da Saúde Pública (SP) levou a Direcção Geral de Saúde (DGS) e a Escola Nacional e Saúde Pública (ENSP) a criarem um grupo de trabalho que pretende dar resposta às vítimas deste cenário marcado, entre outros problemas, pelo desemprego e empobrecimento súbito.

Esta iniciativa, que envolverá muitos profissionais de saúde - nomeadamente, e de uma forma mais directa, os médicos de família (MF) e os enfermeiros da Linha de Saúde Pública - foi apresentada pelo director-geral da Saúde, Francisco George, no passado dia 14, no decorrer do I Congresso Nacional de Saúde Pública, sublinhando que "os fenómenos de coesão social não podem ser ignorados pela SP".

Em declarações ao Médico de Família, Belmira Rodrigues, psicóloga da DGS e membro deste grupo de trabalho, explicou como será a resposta da Saúde Pública à crise económica e social, notando que estão previstas "duas situações distintas". A primeira, adiantou, "refere-se aos grupos populacionais de baixo nível socioeconómico, pobreza e exclusão, comunidades que já estão identificadas e com respostas estruturadas". Contudo, para os "grupos populacionais afectados pelo empobrecimento súbito", que são "pessoas de mais difícil identificação", as autoridades reconhecem a "necessidade de novas respostas", sublinhou.

Para já, a DGS elaborou um conjunto de "respostas rápidas" que passam por acompanhar os potenciais efeitos da crise ao nível da situação alimentar, da auto-estima (saúde mental) e do acesso aos cuidados, adiantou a psicóloga ao nosso jornal.

O objectivo é garantir as necessidades alimentares básicas, proteger as pessoas de doenças como a depressão e dos comportamentos agressivos e identificar os indivíduos com dificuldades no acesso a medicamentos essenciais. Para estes três objectivos, a DGS tem preparadas várias acções, como a criação de um menu de receitas baratas e a abertura das cantinas escolares aos fins-de-semana e durante períodos de férias (ver caixa 1).

 

Operacionalização em marcha

 

De acordo com Belmira Rodrigues, o projecto só estará a funcionar em pleno no terreno dentro de dois meses, numa estreita articulação com a Segurança Social, o que permitirá um mapeamento social das necessidades, com base num cruzamento entre os indicadores sociais e os indicadores de saúde.

Nessa fase, "os médicos de família (MF), os médicos nas urgências hospitalares e os profissionais da Linha Saúde 24, terão um papel verdadeiramente crucial", adiantou a psicóloga, explicando que os 75 enfermeiros da referida linha telefónica "vão, em todo o país, não só identificar as famílias que precisam de ajuda, mas também as respostas existentes ao nível local". Para isso, os enfermeiros já receberam formação específica. Já os MF serão informados pela respectiva Administração Regional de Saúde (ARS) sobre as suas atribuições neste projecto, que terá, ainda, uma componente de investigação/acção da responsabilidade da ENSP.

Em síntese, o que se pretende é ter um sistema de alerta permanente para sinais de risco e consequente acompanhamento médico e/ou social. Esses sinais serão monitorizados e actualizados mensalmente. "Não podíamos ter a periodicidade clássica anual no que toca aos indicadores estabelecidos, porque queremos respostas rápidas. Como tal, optámos por uma periodicidade mensal", explicou Belmira Rodrigues ao nosso jornal.

 

Médicos vão propor menus saudáveis e baratos

 

Os médicos vão propor às famílias menus saudáveis e baratos, com o objectivo de prevenir a má alimentação das crianças, relacionada com a actual crise económica. Para responder aos efeitos desta na saúde dos portugueses, estão previstas "medidas de contingência", sobretudo a nível da alimentação das famílias, em particular dos mais novos.

"É preciso assegurar que os portugueses comam bem, de forma equilibrada e com menos custos", defende Francisco George, esclarecendo que a DGS já solicitou à Plataforma contra a Obesidade que preparasse "um conjunto de menus saudáveis, equilibrados e de baixo custo, que pudessem ser utilizados pelas famílias com mais dificuldades".

Os menus serão disponibilizados em todas as unidades de saúde pública, nos serviços de aconselhamento e através dos médicos, principalmente os de família.

 

Exemplos internacionais: EUA lançam guia de saúde mental on-line

 

Perceber e limitar o impacto da crise económica na saúde das populações, nomeadamente no plano psicossocial e da Saúde Mental, tem sido uma preocupação do Governo norte-americano. Neste sentido, a Administração dos Serviços de Saúde Mental e Abuso de Substâncias (SAMHSA) publicou um manual on-line (http://www.samhsa.gov/) que visa ajudar a população a identificar sintomas de doenças relacionadas com o stress induzido pela actual crise económica.

A SAMHSA alerta para os riscos de depressão, ansiedade, abuso de drogas e comportamentos compulsivos (como comer e jogar em excesso), trazidos pelas incertezas económicas, tais como a ameaça do desemprego e as perdas financeiras.

Em última análise, a crise pode levar a sentimentos de humilhação e desespero, podendo provocar pensamentos de suicídio, refere a agência governamental norte-americana, citada jornal brasileiro a Folha On-line.

 

Especialistas brasileiros estão alerta

 

"Antes, entendíamos que o adoecimento era resultado apenas de uma tendência do paciente. Mas hoje, a realidade está a adoecer o homem", refere o psiquiatra José Toufic Thomé, coordenador técnico sobre intervenções em situações de crise da Associação Brasileira de Psiquiatria, para quem a insegurança económica promove o medo. "Desenvolvemos então fantasias de ameaças de perda, ligadas à morte e ao luto. Perdemos a nossa capacidade de produção, a nossa economia e até a nossa identidade", aponta o especialista.

Ari Timerman, presidente da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo, relembra que situações de stress, como erupções vulcânicas, terramotos, guerras, finais de campeonatos e crises económicas também aumentam o risco de enfarte.

A produção de adrenalina (desencadeada pelo stress) leva a lesões nos vasos sanguíneos. "As placas de gordura podem romper-se e os seus elementos podem formar um coágulo que obstrui a artéria", explicou Timerman. "Pessoas sob stress tendem a fumar e a beber mais e a alimentar-se inadequadamente, e tudo isso aumenta o risco de doença cardiovascular".

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