Jornal Médico Grande Público

Sob o signo da exigência
DATA
23/10/2009 06:02:36
AUTOR
Jornal Médico
Sob o signo da exigência

Conhecida, entre muitas outras coisas, pela sua preciosa ajuda no desenvolvimento do Sistema de Apoio ao Médico, a USF Fânzeres...

Conhecida, entre muitas outras coisas, pela sua preciosa ajuda no desenvolvimento do Sistema de Apoio ao Médico, a Unidade de Saúde Familiar Fânzeres habituou os utentes a exigirem, sempre, cuidados da mais elevada qualidade. Esta foi a tendência desde a criação do Regime Remuneratório Experimental, que tenderá a acentuar-se no modelo B, aprovado em 2008. Para alcançar a estabilidade total, a unidade necessita agora de contar com mais um médico a tempo inteiro e de ver reconhecido o seu esforço adicional no atendimento aos utilizadores esporádicos

 

Reunidos em Regime Remuneratório Experimental desde 1999, os profissionais da Unidade de Saúde Familiar (USF) Fânzeres nem por isso deixaram de se sentir entusiasmados quando chegou o momento de entrar em força no modelo B. Para mais, quando aguardavam ansiosamente por este acontecimento. Miguel Melo, coordenador da unidade, considera que "no caso dos RRE já no terreno há muito tempo, deveria ter sido dada a oportunidade de, após auditoria, avançarem rapidamente para modelo B".

Na óptica deste coordenador, a equipa sentiu algo de diferente logo nos primeiros dias em que funcionou como modelo B, "nomeadamente em termos de responsabilidades contratualizadas, para além do desejo de melhoria, uma maior motivação dos profissionais resultante da discriminação remuneratória para todos" (no RRE abrangia somente os médicos) e da passagem de um modelo "mais definitivo, enquadrado na reforma da saúde".

O grupo, agora a actuar em modelo B, convocou reforços para suprir a saída de três médicos que trabalhavam no RRE original e que entretanto se aposentaram.

A saída do médico de família Carlos Nunes para a equipa nacional da Missão para os Cuidados de Saúde Primários (MCSP) e, posteriormente, para a direcção executiva do Agrupamento de Centros de Saúde - ACES - Grande Porto II (Gondomar), acabou também lesar a USF, indirectamente, já que se tem revelado complicado substituir este activo. Agrava a situação o facto de a mobilidade de outro médico continuar por concretizar o que, de acordo com o coordenador da USF Fânzeres, obriga a uma solução de improviso: "estamos a assegurar os cuidados médicos através do recurso a horas extraordinárias".

A estes problemas juntou-se ainda o encargo de preparar a transição para o modelo B, missão nada fácil, segundo Miguel Melo: "a elaboração de documentos formais, extensos, num grupo que está, todo ele, em prestação de cuidados assistenciais é complexa. Isto implica reuniões pós-laborais, com todo o desgaste inerente à discussão de documentos e sobrecarga de trabalho. No entanto, a USF Fânzeres já possuía alguns dos documentos pedidos (ex: regulamento interno, plano de acção), tornando assim esta tarefa mais facilitada".

 

Utentes habituados a tratamento VIP

 

A população servida pela USF Fânzeres é tendencialmente suburbana, e apresenta elevadas expectativas relativamente aos serviços prestados pela sua unidade. Resultado de oito anos de convivência num RRE que soube demonstrar, na prática, uma performance de alta qualidade. "De facto, enquanto RRE já funcionávamos como uma USF, daí que os utentes não tenham sentido grande diferença. Aliás, enquanto RRE recebemos visitas de várias equipas de diversos pontos do país, que se queriam constituir em USF", recorda Miguel Melo. O coordenador salienta também que o grupo tem sido capaz de manter uma dinâmica positiva porque conserva, mesmo nos piores momentos, a sua coesão: "temos conseguido tomar decisões consensuais e sem grandes atritos. Este espírito de equipa é um dos pontos fortes da nossa USF".

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Neste novo ciclo, a USF parece continuar a dar conta do recado, já que nas metas que é possível medir com rigor, o cumprimento tem sido quase total (a excepção prende-se com o indicador relativo à vigilância de HTA, que na visão da equipa está colocado numa patamar exagerado).

Para estes resultados favoráveis contribui, com toda a certeza, o plano de formação interno (avaliado e revisto anualmente), assim como as responsabilidades que a USF mantém no campo dos internatos médicos (favorecem a actualização dos seus membros). Actualmente, são dois os orientadores de formação em Fânzeres (Rui Rocha e Margarida Brandão), cada um dos quais com dois internos de Medicina Geral e Familiar sob a sua tutoria.

No grupo da Enfermagem a formação também é valorizada, como explica a enfermeira Helena Dias: "a equipa sempre esteve receptiva a colaborar na formação pré-graduada e graduada de novos enfermeiros e actualmente recebemos alunos em formação pré-graduada. Temos a capacidade para proporcionar experiências singulares, no âmbito da metodologia de trabalho, dinâmica de equipa, investigação, entre outras. Não existe compensação para os orientadores pela carga de trabalho, embora a equipa de Enfermagem considere que seria motivador a existência desta mesma compensação".

Para Helena Dias, os processos de organização adoptados pela equipa de Enfermagem da USF Fânzeres (baseados no perfil de enfermeiro de família) são os que fazem mais sentido aos olhos do conhecimento actual: "este modelo permite que cada enfermeiro seja um gestor de cuidados para os seus utentes e famílias. Pensamos, aliás, que faz todo o sentido criar a especialização de enfermeiro de família".

 

Versados em sistemas de informação

 

Em Fânzeres, o espaço entregue à USF é moderno e responde às principais solicitações. Necessita, porém, de obras de manutenção - o edifício tem cerca de 14 anos - e de um sistema de climatização adequado.

Existem, contudo, problemas mais difíceis de contornar. Desde logo, a carência de transportes públicos com horários adequados, questão já abordada junto da junta de freguesia.

No que respeita às aplicações informáticas, a USF Fânzeres é uma referência a nível nacional. A unidade é, desde 2001, centro piloto para o desenvolvimento do SAM, colaborando nomeadamente na melhoria dos módulos dos MCDT, CIT, no processo clínico (SOAP; RMOP; ICPC) e no aperfeiçoamento da interface entre o SAM e o Alert P1.

Todos os profissionais têm acesso ao SINUS com logins próprias e perfis próprios. Foram também gerados acessos de super utilizador e de enfermeira gestora (este último permite, entre outras coisas, gerir o stock de vacinas, retirar os mapas estatísticos, etc.). A Internet encontra-se acessível em todos os postos de trabalhos dos três grupos profissionais e cada elemento da USF possui uma caixa de correio electrónico, devidamente personalizada.

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Miguel Melo garante que o SAM/SAPE tem respondido às necessidades da equipa, embora admita que não lhe foi dada a hipótese de optar por outras aplicações informáticas: " pensamos que quer o SAM quer o SAPE têm ainda muito a evoluir e a melhorar".

Os aperfeiçoamentos do SAM realizados na USF de Fânzeres acabaram por capacitar os seus membros ao nível das ferramentas electrónicas e do uso diário de um sistema de informação. Agora, a equipa aguarda que entre em cena o módulo estatístico do SAM, uma vez que sem ele se torna inviável uma verdadeira avaliação de desempenho.

Para o coordenador, a grande pecha actual do sistema é o seu carácter fechado: "a impossibilidade de retirar os dados inseridos no SAM é o grande problema. Não nos é permitido monitorizar indicadores (de execução, de pilotagem, contratualizados) dificultando a gestão, uma vez que não sabemos que medidas correctivas implementar". Os problemas identificados no SAM também se registam no SAPE; "incapacidade de monitorizar indicadores", acrescenta Miguel Melo.

 

Elementos administrativos apreciariam mais formação

 

Ao contrário do que é visível em outras USF, em Fânzeres os elementos administrativos desenvencilham-se muito bem quando se trata de gerir informação. A administrativa Paula Figuinha assegura que, em conjunto com os seus colegas, tem conseguido fazer o melhor uso possível das ferramentas informáticas: "fruto da nossa longa experiência em sistemas de informação - e da formação facultada pela ARS do Norte - não sentimos dificuldades".

Já fora do contexto das novas tecnologias, o grupo administrativo julga que poderia ter recebido um acompanhamento mais equilibrado, com vista a conquistar novas aptidões. "As formações prometidas inicialmente pela MCSP nunca nos foram concedidas. As únicas a que tivemos acesso foram as acções "A Excelência do Atendimento a Clientes" (da Academia Novartis), o "Programa de Rastreio de Cancro do Colo do Útero" e "Absentismo" - ambas da responsabilidade da ARS do Norte, relembra Paula Figuinha.

Os administrativos têm-se revelado uma componente vital para a dinamização da USF Fânzeres, com as suas sugestões para a elaboração dos diversos documentos/planos e uma contribuição franca para optimizar relações interpessoais. Outro dos seus cavalos de batalha é o desenvolvimento constante de mecanismos que visam simplificar as tarefas repetidas no dia-a-dia.

 

Reforma vai bem encaminhada e entra em fase crucial

 

O coordenador da USF Fânzeres apoia, de um modo geral, o rumo traçado para a reforma dos cuidados de saúde primários (CSP), ao afirmar que esta investe "na qualidade organizacional da prestação dos cuidados, na melhoria da acessibilidade, na diminuição da população sem Médico de Família e na satisfação dos profissionais, ao possibilitar um verdadeiro trabalho em equipa e uma discriminação remuneratória positiva". Já acerca das futuras USF dos sectores privado, social e cooperativo, Miguel Melo tem uma opinião mais reservada: "é necessário conhecer com maior detalhe estes modelos de USF, para se ter uma opinião fundamentada".

Este responsável ficaria agradado se as estruturas que orientam a requalificação dos CSP colocassem mais energia "na implementação dos ACES e na monitorização apertada de todos estes processos", porque está convencido que "esta fase vai condicionar o sucesso da reforma".

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Sobre o contacto directo com a MCSP, Miguel Melo faz a melhor das apreciações: "tem tido uma postura de total abertura, receptividade e proximidade com os profissionais no terreno, o que é de louvar. É relativamente fácil fazer chegar a nossa opinião e até participar na discussão de alguns documentos".

 

Atendimento a esporádicos, não incluído em carteira adicional

 

A USF Fânzeres não se candidatou ainda a nenhuma carteira adicional. Até porque, devido à reconfiguração do ACES, se viu a braços com o atendimento de esporádicos. "Cada profissional da USF esgota o seu horário no atendimento ou em inter-substituição no atendimento dos utentes da sua USF. Por este motivo, qualquer actividade que ultrapasse o âmbito da carteira básica, como o atendimento dos esporádicos, terá de ser remunerado como carteira adicional de Serviços (que deveria estar já definida pela ARS)", explica Miguel Melo. Actualmente, os utentes da Fânzeres contam sobretudo com as designadas consultas de saúde do adulto, para além de serviços orientados para os grupos vulneráveis e de risco, seguindo os programas definidos para a vigilância de saúde materna, planeamento familiar, saúde infantil e juvenil, rastreio oncológico (cancro da mama, colo do útero e cólon), HTA, diabetes e cuidado a doentes dependentes crónicos.

Em termos futuros, a prestação de cuidados poderá ser aperfeiçoada com um leque de oferta mais vasto, em consonância com os pedidos da comunidade local. "As opiniões de melhoria de prestação de cuidados são sempre bem acolhidas pela USF Fânzeres", garante Miguel Melo. 

O coordenador acredita, também, que no âmbito das parcerias e relações com os serviços hospitalares da região "existe um longo caminho a percorrer".

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