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Fumo dos incêndios tem elevados riscos para saúde pública
DATA
24/09/2013 07:01:47
AUTOR
Jornal Médico
Fumo dos incêndios tem elevados riscos para saúde pública

Um estudo da Universidade de Aveiro, conduzido pela investigadora Célia Alves durante a época de incêndios de 2009 e 2010 nos distritos de Aveiro, Viseu e Guarda mostra que fumo dos incêndios florestais apresenta um elevado nível de perigo para a saúde pública


"Verificámos que 80 a 90 por cento da massa das partículas emitidas pelos incêndios é de natureza carbonosa, englobando centenas de compostos orgânicos distintos", aponta Célia Alves, investigadora do CESAM que conduziu o estudo

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O fumo proveniente dos incêndios florestais é altamente perigoso para a saúde pública. O alerta chega do Centro de Estudos do Ambiente e do Mar (CESAM) da Universidade de Aveiro (UA) e aponta para os malefícios da mistura de gases e partículas emitida pelos incêndios. Estas últimas, de natureza ultrafina, têm grande capacidade de penetração nas vias respiratórias transportando até aos alvéolos compostos cancerígenos como os hidrocarbonetos aromáticos policíclicos. O estudo, conduzido pela investigadora Célia Alves, que trabalhou no meio das equipas de combate aos fogos florestais, garante também que, para além dos prejuízos para a saúde, o fumo contribui, em muito, para alterar o clima.

"Verificámos que 80 a 90 por cento da massa das partículas emitidas pelos incêndios é de natureza carbonosa, englobando centenas de compostos orgânicos distintos", aponta Célia Alves. Entre os compostos detectados nas partículas pelo CESAM encontram-se os hidrocarbonetos aromáticos policíclicos, "de elevado potencial cancerígeno", e vários compostos fenólicos que "têm sido associados a stress oxidativo das células". A investigadora explica que "quando ocorre stress oxidativo, os mecanismos celulares de remoção de oxidantes fica desequilibrado e a desintoxicação através de sistemas biológicos que removem estas substâncias ou reparam os danos por elas causados fica comprometida".

Suspensas na atmosfera e espalhadas pelo vento por vastas áreas, o tamanho das partículas garante-lhes uma entrada fácil nas vias respiratórias. "As partículas emitidas apresentam diâmetros da ordem dos nanómetros ou poucos micrómetros [um nanómetro é mil milhões de vezes inferior a um metro e um micrómetro é um milhão de vezes inferior ao metro]", explica Célia Alves cuja equipa chegou a detectar, nas proximidades dos incêndios, concentrações de 50 mil microgramas de partículas por metro cúbico de ar, quando a legislação para a qualidade do ar estipula um tecto de segurança de 50 microgramas por metro cúbico.

Para além das partículas, também os gases emitidos pelo fumo proveniente dos incêndios florestais constituem um perigo para a saúde, entre os quais, e "em quantidades apreciáveis", o monóxido de carbono "conhecido pela sua elevada toxicidade". É também de referir que os óxidos de azotos e os compostos voláteis, depois de emitidos, reagem entre eles na atmosfera e formam um novo poluente perigoso: o ozono, "um oxidante muito forte que ataca as vias respiratórias e provoca danos nas culturas agrícolas".

Célia Alves adianta ainda que "o principal gás emitido pelos incêndios é o dióxido de carbono, o qual é um dos principais gases com efeito de estufa". As conclusões do estudo da UA apontam que grande parte da massa das partículas é de natureza carbonosa, ou seja, são constituídas por carbono orgânico e por carbono negro. Enquanto o carbono orgânico dispersa a radiação, o carbono negro absorve-a. Portanto, diz Célia Alves, "estas partículas interferem com o balanço radiactivo da atmosfera". Por outro lado, explica, "por serem tão finas, actuam na atmosfera como núcleos de condensação de nuvens, alterando os padrões de precipitação".

 

 

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