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Eutanásia: Oncologista recusa debate religioso e estigma sobre médicos
DATA
21/05/2018 10:12:31
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Eutanásia: Oncologista recusa debate religioso e estigma sobre médicos

Os médicos favoráveis à despenalização da eutanásia não devem ser estigmatizados e o debate em torno da morte medicamente assistida não pode ser transformado numa questão religiosa, alerta o oncologista Jorge Espírito Santo.

“O pior que pode acontecer é quem entende que o doente tem direito a escolher, e se disponibiliza para o apoiar nessa escolha, ser transformado numa espécie de assassino sem escrúpulos e sem emoção”, afirma o oncologista.

O clínico “rejeita em absoluto” esses rótulos, sublinhando que são ainda piores quando são veiculados por médicos.

Hoje Jorge Espírito Santo irá participar num debate sobre “Decisões sobre o fim de vida”, promovido pela Ordem dos Médicos, no Porto. Note-se que o oncologista tem assumido, publicamente, a sua posição a favor da despenalização da eutanásia.

“O nosso juramento não é uma tabela de lei, é um modelo de comportamento. Um modelo que tem espinhas dorsais e um ADN que não muda: pôr o interesse do doente em primeiro lugar. O interesse do meu doente é a minha primeira preocupação”, refere.

Em entrevista à agência Lusa, o clínico recorda que foi abandonado o “modelo paternalista da prática médica”, insistindo que ao colocar o interesse do doente em primeiro lugar nunca se estará a infringir o juramento médico.

“Percebo que haja médicos com interpretação diferente da minha. Ninguém pode é ser estigmatizado pela sua interpretação do código de comportamento. No essencial, no que é a determinante e a espinha dorsal da profissão, estamos todos de acordo: o médico tem de pôr o interesse do seu doente como primeiríssima das suas preocupações”, afirma.

Jorge Espírito Santo quis ainda esclarecer que o debate sobre a morte medicamente assistida não deve ser visto como uma questão religiosa, mas sim “de cidadania e de liberdade de escolha”.

“Quem acha que a sua doutrina o inibe de fazer essa escolha, não a fará. Não tem é a de impor. Vivemos num estado laico e de direito. Este é o nosso contexto e a questão não é e não pode ser religiosa”, argumenta.

Para o médico oncologista a defesa da eutanásia existe precisamente porque as pessoas têm direito de escolha. “Não é justo condenar alguém apenas pelas nossas convicções, a tolerar uma situação que a própria pessoa não é tolerável. O que defendo é que haja direito de escolha”.

Além disso, o clínico sublinha que a eutanásia não está prevista apenas para o doente oncológico terminal, sendo abrangidas outras situações em que exista “sofrimento intolerável e irreversibilidade da situação clínica”.

Quanto ao debate imposto “eutanásia versus cuidados paliativos”, Jorge Espírito Santo considera que são questões distintas, logo não devem ser confundidas.

“Todas as situações devem ter acesso a cuidados paliativos que, por definição, são os que aliviam sintomas e melhoram o bem-estar. Mas os cuidados paliativos têm o seu âmbito de ação e nem todas as situações podem ser manejadas a contento dos doentes com os cuidados paliativos”, defende.

O clínico recorda que “dos 10 países em que a qualidade da morte é melhor, com efetivo acesso a cuidados paliativos, em cinco foi despenalizada a morte medicamente assistida”.

Embora reconheça que a eutanásia em si não é um ato médico, o especialista refere que “tudo o que está à sua volta é um ato médico”, todo o trabalho de avaliação do pedido, de acompanhamento, de preparação e até da escolha do método a utilizar para abreviar a morte.

Jorge Espírito Santo reconhece que “os médicos estão treinados para curar” e que muitas vezes encaram a morte “como uma derrota”, mas rejeita que só uma “pequena minoria” de clínicos seja favorável à despenalização da morte assistida, relembrando que 40% dos oncologistas “manifestaram abertura” em relação a esta prática, num inquérito realizado em Portugal.

“O que se pretende é exatamente isso. É que, na sua escolha final, cada pessoa tenha o direito de partir o mais tranquila e confortavelmente que seja possível”, concluiu.

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