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Alexandre Lourenço: APAH arranca com agenda de promoção do novo modelo de hospital
DATA
25/09/2018 11:21:14
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Jornal Médico
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Alexandre Lourenço: APAH arranca com agenda de promoção do novo modelo de hospital

A propósito do 27.º Congresso da European Association of Hospital Managers (EAHM) – organizado pela Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares (APAH), que decorre a partir de amanhã, no Centro de Congressos do Estoril – o Jornal Médico conversou com o presidente da APAH, Alexandre Lourenço, sobre o evento subordinado ao tema “Redefining the role of the hospital – innovating in population health”.

De acordo com o responsável, pretende-se que o congresso funcione como “um ponto de partida para uma agenda de promoção do novo modelo de hospital”. Isto porque, sublinha, “o atual modelo de prestação de cuidados a nível hospitalar encontra-se obsoleto”. Pretende-se que esta seja uma agenda europeia, para a qual a APAH conta com o apoio da Organização Mundial de Saúde (OMS), da Comissão Europeia (CE) e da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE).

No entender de Alexandre Lourenço, é urgente desenvolver um modelo de prestação de cuidados que responda às atuais caraterísticas sociodemográficas da população (envelhecimento e multimorbilidade), centrado nas pessoas, que envolva todos os prestadores e com enfoque nos doentes com necessidades complexas fora do ambiente hospitalar. Daí que, entre os tópicos a debate nos trabalhos, esteja em destaque o desenvolvimento de um sistema centrado nas necessidades e satisfação do cidadão e a identificação e implementação de modelos, soluções, metodologias e processos de integração vertical e horizontal dos cuidados de saúde.

O encontro, que reúne mais de 500 gestores e diretores hospitalares de mais de 25 países da Europa, destina-se ao debate e partilha de experiências sobre administração hospitalar. Será, ainda, dado ênfase ao papel das instituições hospitalares enquanto agentes de inovação em saúde populacional.

 

Redesenhar o hospital e adaptar o modelo de prestação aos doentes de hoje

O novo modelo de organização e prestação de cuidados em contexto hospitalar preconizado pela APAH rejeita a ideia de hospital como entidade passiva e espaço físico tão rígido, salientando a necessidade de este passar a desempenhar um papel mais interventivo na saúde da comunidade, em proximidade.

De acordo com Alexandre Lourenço, “os doentes de hoje não são os mesmos de quando os hospitais foram criados. O atual modelo de organização hospitalar diz respeito a doentes essencialmente agudos que, na prática, iam ao hospital, eram internados, tratavam-se, tinham alta e voltavam para a comunidade. Hoje em dia temos doentes de continuidade que se mantêm no hospital durante vários anos e o hospital não está desenhado para estes doentes”.

O presidente da APAH considera que os hospitais estão atualmente “muito focados nos processos internos de prestação de cuidados”, mas “desfocados da experiência e do interesse do doente”. Esta é “a grande mudança cultural que tem de existir no sistema”, advoga.

O atual modelo de organização dos hospitais conta com mais de 50 anos e, garante Alexandre Lourenço, “tem vindo a descurar as alterações sentidas a nível de inovação tecnológica, digital, bem como dos perfis demográficos da população, sendo que, em muitos aspetos, ainda se continua a seguir a atividade pela tradição ou pelo costume, em detrimento do conhecimento”.

Assim, adianta o responsável, “o nosso modelo organizacional é cada vez mais visto como não confiável, inseguro e propenso ao erro e não é esse o rumo que queremos seguir”.

 

Profissionalização de gestor de serviços de saúde é imperativo

Na ótica da APAH, “os gestores de serviços de saúde necessitam de ser dotados de maiores conhecimentos e competências, passando necessariamente pela profissionalização e avaliação transparente., de forma a “promoverem a mudança necessária”.

Uma “avaliação permanente de todos os atores interessados no sistema de saúde” contribuirá para que haja gestores “preparados e qualificados”, explica Alexandre Lourenço, acrescentando: “a gestão [dos hospitais] é altamente complexa. São organizações com profissionais elevadamente diferenciados e estas pessoas também têm de estar envolvidas na gestão e na decisão da sua organização, principalmente na decisão estratégica do caminho a percorrer. [Os profissionais] têm de ser trazidos para a gestão de topo, não necessariamente na gestão operacional diária, mas na gestão estratégica”.

A APAH tem defendido que os gestores dos hospitais sejam avaliados e responsabilizados pela sua gestão, promovendo os melhores e afastando os que tenham pior desempenho, numa verdadeira cultura de qualidade e transparência.

O presidente da associação insiste na necessidade de ser dada autonomia aos hospitais, mas com “orçamentos próximos dos custos reais”, responsabilizando depois a gestão. Ao nosso jornal, Alexandre Lourenço elencou os vários obstáculos à transformação que a APAH considera imperativa, entre os quais se destacam “a falta de autonomia e os orçamentos muito desfasados da realidade”.

Na semana passada, o ministro da Saúde, Adalberto Campos Fernandes, anunciou a intenção de dar autonomia a um quarto dos hospitais portugueses, um processo que deverá arrancar no próximo ano. Segundo a presidente da APAH, “parece existir muita abertura por parte do ministério da Saúde, mas nem tanta por parte das Finanças”.

 

 

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