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Academia CUF organiza 1.º Simpósio Português de Investigação e Inovação em Urologia
DATA
09/10/2018 09:44:35
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Jornal Médico
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Academia CUF organiza 1.º Simpósio Português de Investigação e Inovação em Urologia

O Jornal Médico falou com o diretor da Escola Portuguesa de Oncologia do Porto, Rui Henrique, a propósito do 1.º Simpósio Português de Investigação e Inovação em Urologia, que decorre no dia 8 de dezembro, na Reitoria da Universidade Nova de Lisboa. O anatomopatologista será um dos oradores do evento e irá abordar a temática “Perspectives in epigenetic modulation in cancer”.

JORNAL MÉDICO (JM)| O que podem esperar os participantes do 1.º Simpósio Português de Investigação e Inovação em Urologia?

RUI HENRIQUES (RH)| Os participantes poderão ter, pela primeira vez, uma perceção global da atividade de investigação desenvolvida em Portugal no campo da Urologia, a qual abrange vários domínios. Tenho esperança que este encontro possa estimular e promover o apoio e participação da comunidade médica em geral e da Urologia, em particular, nestas atividades, construindo ou reforçando colaborações. Sinto que têm sido feitos progressos notáveis no sentido de atrair médicos para a investigação neste domínio, mas é preciso fazer mais e fazê-lo de forma consistente, duradoura e sustentável. Iniciativas como esta são fundamentais para que esse desígnio se cumpra.

 

JM| Atualmente, quais são os principais desafios da Urologia?

RH| Não sendo Urologista tenho uma visão, certamente, enviesada e incompleta desses desafios. Assim, colocando-me no meu campo de trabalho, que é a Urologia Oncológica, citaria como desafios: o desenvolvimento e validação de biomarcadores de carcinoma da próstata clinicamente relevante, de biomarcadores de monitorização de carcinoma da bexiga e de cancro do testículo, assim como o aperfeiçoamento dos biomarcadores preditivos de resposta à imunoterapia no cancro urológico, particularmente nos carcinomas da bexiga e do rim.

 

JM| Qual é a importância dos biomarcadores epigenéticos no tratamento do cancro?

RH| Na atualidade, a utilização na prática clínica de biomarcadores epigenéticos está restrita a duas situações, ambas não-urológicas: como biomarcador preditivo de resposta a quimioterapia em tumores cerebrais (metilação do promotor do gene MGMT, em tecido neoplásico) e como biomarcador para rastreio de cancro colo-rectal (metilação do gene Septina 9, no sangue). Na área da Urologia Oncológica têm sido propostos diversos biomarcadores epigenéticos, considerados muito promissores, designadamente para a deteção precoce de cancro da próstata, confirmação de ausência de carcinoma em biopsia de próstata histomorfologicamente negativa, bem como para a deteção precoce e monitorização de carcinoma urotelial da bexiga e do trato urinário superior. Falta o passo essencial da validação clínica para que estes testes possam ser utilizados na rotina, o que requer um esforço colaborativo muito grande.

 

JM| De que forma as alterações epigenéticas influenciam o processo de tumorigénese?

RH| É hoje amplamente reconhecido que as alterações epigenéticas são eventos precoces no processo de tumorigénese, estando relacionadas, em alguns casos, com o processo de envelhecimento. A sua acumulação progressiva conduz, por um lado, à disfunção de vários genes, manifestada pela alteração dos seus níveis de expressão, e, por outro lado, à promoção de instabilidade genómica, propiciadora de mutações e de outros eventos genéticos, que estimulam a transformação neoplásica. É precisamente esta ubiquidade e precocidade na tumorigénese que torna as alterações epigenéticas excelentes candidatos a biomarcadores. Queria, ainda, mencionar o facto de, ao contrário das alterações genéticas, as alterações epigenéticas serem, frequentemente, reversíveis, algo que é possível atingir mediante a utilização de fármacos, alguns dos quais estão aprovados há vários anos para tratamento de tumores específicos. Curiosamente, alguns fármacos utilizados habitualmente para tratar doenças não-oncológicas possuem propriedades de reversão das alterações epigenéticas, constituindo potenciais agentes anti-neoplásicos. Esta é uma linha de investigação muito promissora e que poderá trazer grandes benefícios no futuro.

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