Jornal Médico Grande Público

USF Tílias: Projeto de melhoria da qualidade promove redução de iatrogenia relacionada com IBP
DATA
07/01/2019 15:43:36
AUTOR
Jornal Médico
ETIQUETAS




USF Tílias: Projeto de melhoria da qualidade promove redução de iatrogenia relacionada com IBP

Três internos de Medicina Geral e Familiar (MGF) da Unidade de Saúde Familiar (USF) Tílias – Teresa Araújo, Leonor Jorge e Bruno Silva – decidiram desenvolver um ciclo de melhoria da qualidade na área dos inibidores da bomba de protões (IBP), com o objetivo de reduzir o número de utentes a fazer esta medicação de forma crónica e sem indicação para tal. Seis meses após a intervenção, verificou-se uma redução de 39,2% na prescrição destes fármacos, o que comprova a pertinência e mais-valia deste trabalho.

Segundo o interno do 1.º Ano de MGF, Bruno Silva, a ideia de criar um projeto sobre a “melhoria da qualidade na utilização a longo prazo dos IBP” foi iniciada por duas internas que, neste momento, já não exercem funções na USF Tílias. Contudo, devido ao potencial desta investigação, Bruno Silva, Teresa Araújo [interna do 3.º Ano de MGF e principal responsável pelo projeto] e Leonor Jorge [interna do 1.º Ano de MGF] resolveram continuar o trabalho iniciado pelas colegas.

“Desde há uns anos que têm surgido várias notícias sobre os IBP, nomeadamente sobre os seus efeitos a longo prazo na saúde dos doentes. Desta forma, as nossas colegas decidiram realizar um ciclo de qualidade sobre este tema, com o objetivo de perceber os verdadeiros efeitos na qualidade de vida dos doentes e de analisar a realidade da nossa USF a este nível”, explicou Bruno Silva.

Quando surgiu, esta classe terapêutica mostrou-se bastante útil para o tratamento de doentes com patologias do foro gastrointestinal, nomeadamente a chamada “azia”, uma perturbação digestiva que ocorre, por exemplo, no refluxo gastroesofágico. O alívio sintomático bastante eficaz levou à adesão “excessiva” a este tipo de medicamentos, quer pelo paciente, quer pelo médico. Contudo, “não existiam estudos suficientes sobre os malefícios que esta medicação poderia ter a longo prazo”, esclareceu Leonor Jorge.

Por outro lado, na altura, “a ideia de criarmos este ciclo de qualidade partiu também pela necessidade de feedback de muitos dos nossos utentes. Após o surgimento de várias notícias sobre esta classe terapêutica, os próprios utentes mostraram vontade de suspender a medicação”, acrescentou Bruno Silva.

Foi, assim, que o grupo de internos decidiu dar continuidade ao trabalho desenvolvido pelas colegas de MGF, no sentido de aferir qual era o grupo de doentes que de facto precisava desta medicação de forma crónica.

Após analisarem a população de utentes da USF Tílias, o grupo de trabalho identificou que 735 utentes não tinham indicação para tomar estes fármacos. Nesses casos, foi aplicado um processo para ajudar o doente a reduzir e suspender o IBP, com o apoio do respetivo médico de família (MF).

“Aquilo que fizemos foi implementar um esquema de desmame nestes doentes. No entanto, caso o doente mantivesse a doença de refluxo gastroesofágica, isto é, mantivesse as queixas durante a tentativa de desmame, deveria continuar a medicação. Através deste processo, conseguimos reduzir a dose de IBP em muitos doentes, o que já tem algum efeito em termos de redução da iatrogenia”, referiu a autora responsável pelo projeto, Teresa Araújo.

Em termos concretos, “conseguimos reduzir em 39% o número de utentes que estavam a fazer o medicamento de forma crónica sem indicação. Inicialmente, o objetivo era reduzir apenas 25%, portanto, penso que conseguimos superar as expetativas, o que demonstra a mais-valia desta intervenção”, sublinhou Leonor Jorge.

Para chegarem a estes dados, os internos utilizaram o MedicineOne, um software utilizado pelos profissionais de saúde dos cuidados de saúde primários, que permite, entre outras funções, fazer o cruzamento de dados das listas de utentes através do seu módulo estatístico. “Enquanto com outro sistema operativo tem de ser feito um pedido formal para obter determinada lista, nós, muitas vezes, conseguimos ter essa lista logo automaticamente no módulo estatístico deste programa”, exemplificou Bruno Silva.

De acordo com os internos, foram surgindo novos estudos sobre os efeitos dos IBP a longo prazo, que comprovaram que a toma desadequada destes medicamentos pode provocar, entre outras complicações de saúde, infeções por clostridium difficille, deficiência de vitamina B12, nefrite intersticial aguda, risco de hipomagnesémia e risco de fraturas ósseas, sobretudo, ao nível da anca, punho e coluna.

Assim sendo, esta terapêutica pode estar associada a fatores indiretos que representam um grande custo económico e humano para o Serviço Nacional de Saúde. “Um doente que esteja a fazer esta medicação de forma crónica e que venha, no futuro, a desenvolver fraturas no colo do fémur requer, muitas vezes, de uma cirurgia ortopédica, internamento e fisioterapia”, exemplificou Leonor Jorge. Deste modo, esta intervenção é no sentido de promover a prevenção quarternária: identificar e diminuir doentes sobremedicados.

Os principais custos financeiros associados à toma de IBP também foram avaliados, com os internos a analisarem o número de embalagens prescritas pelos MF da USF Tílias antes e depois da sensibilização levada a cabo junto destes profissionais, tendo observado uma redução de 21%. “Em termos de custos reais, fizemos uma estimativa assumindo que a embalagem prescrita era relativa ao medicamento mais barato do mercado, indicado para a patologia mais comum e para a dosagem mais comum, tendo sido observada uma redução de 1778 euros [21%] em seis meses”, indicaram os promotores do projeto.

Como alternativa aos IBP, os autores deste projeto defendem que, primeiramente, devem ser utilizadas medidas que fomentem um estilo de vida mais saudável, nomeadamente alterações dietéticas. Muitas vezes, os sintomas dos doentes estão relacionados com a ingestão de determinados alimentos como, por exemplo, o café, as comidas ácidas e o vinho tinto. “A verdade é que há uma série de medidas que podem ser implementadas e trazer uma grande melhoria na qualidade de vida dos doentes, bem como reduzir os sintomas antes de ser iniciada a toma deste tipo de medicação”, sublinham.

Relativamente à participação na 12.ª edição do Prémio Boas Práticas em Saúde (PBPS), organizado pela APDH, em parceria com a Direção-Geral da Saúde, a Administração Central do Sistema de Saúde e as Administrações Regionais de Saúde, os médicos de MGF sublinharam a importância das críticas construtivas que surgiram por parte do júri.

Atualmente, os três internos encontram-se a desenvolver um novo projeto, desta vez, mais direcionado para a prevenção secundária e relacionado com fatores de risco na área da doença renal crónica e dislipidemia.  “A doença renal crónica é um fator de risco cardiovascular só por si e, como tal, os doentes têm de ter um determinado controlo ao nível da dislipidemia, algo que nem sempre acontece”, afirmou Bruno Silva.

Quanto ao futuro, os jovens médicos não descuram a possibilidade de voltar a realizar um ciclo de qualidade na área dos IBP, com o intuito de avaliar, uma vez mais, o impacto que este projeto teve na qualidade de vida dos utentes da USF Tílias. “A nossa ideia é voltar aos IBP, a fim de avaliar o impacto deste primeiro ciclo de qualidade, observando de que forma o mesmo está a evoluir”, concluíram.

Saúde Pública

news events box

Mais lidas