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O primeiro “ACES Amigo dos Bebés” certificado pela UNICEF
DATA
18/01/2019 16:13:00
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O primeiro “ACES Amigo dos Bebés” certificado pela UNICEF

Em 2016, o Agrupamento de Centros de Saúde (ACES) Lisboa Ocidental e Oeiras tornou-se no primeiro “ACES Amigos dos Bebés” em Portugal. O certificado, atribuído pela UNICEF, só foi possível graças ao trabalho desenvolvido em torno da promoção, da proteção e de apoio ao Aleitamento Materno. No seguimento desta distinção, a Maternidade Alfredo da Costa (MAC) propôs um protocolo conjunto ao ACES Lisboa Ocidental e Oeiras, com o objetivo de aumentar o número de mães dadoras de leite humano e, posteriormente, ter assim disponível mais leite para os bebés prematuros ou com graves problemas de saúde à nascença.

Na altura, uma das principais limitações para a assinatura do protocolo, que visava a criação de uma consulta para doação de leite humano, encontrava-se relacionada com a carência de materiais necessários para o processo de extração de leite. No entanto, este problema foi resolvido, por sugestão da diretora de Neonatologia da MAC, Teresa Tomé, com a participação no concurso da “Missão Continente”, que, à data, tinha destinado uma das linhas de financiamento ao Aleitamento Materno. Após vencer o prémio no valor de 36 mil euros, o ACES Lisboa Ocidental e Oeiras conseguiu adquirir os materiais necessários e proceder à assinatura do protocolo com o Centro Hospitalar Universitário Lisboa Central à qual a MAC pertence, que foi oficialmente formalizado em julho de 2017.

“Aquando da assinatura do protocolo, tivemos de deslocar-nos ao único Banco de leite Humano que existe na MAC para ter uma formação sobre as funções que iríamos desempenhar neste projeto. Entretanto, logo em julho, tivemos a nossa primeira candidata a dadora”, disse a enfermeira responsável pelo projeto, Ana Torgal.

Requisitos de pré-seleção das dadoras

Segundo a enfermeira, especialista em Saúde Materna e Obstétrica, as dadoras devem cumprir uma série de requisitos, nomeadamente “estar a amamentar o seu bebé em exclusivo e este estar a crescer de acordo com o recomendado”, sendo que o mesmo não pode ter mais do que quatro meses, “caso contrário não podem iniciar a doação de leite”.

De acordo com o médico de família responsável pela consulta, Démeter Díaz, “as dadoras têm, em primeiro lugar, que reunir uma série de requisitos considerados indispensáveis como, por exemplo, não serem fumadoras, nem consumidoras de bebidas alcoólicas e não serem portadoras de doenças crónicas”. Além disso, “são também avaliadas as análises do terceiro trimestre da gravidez para se saber o atual estado de saúde das dadoras, dado que estes resultados podem influenciar a qualidade do leite e, como tal, é extremamente importante fazer esta avaliação”, explica.

“O leite humano é uma mais-valia para os bebés porque reduz o risco de infeção, bem como o risco de enterocolite necrotizante. Além disso, vários estudos têm comprovado que os bebés têm um menor risco de desenvolver pressão arterial diastólica elevada e de desenvolver resistência à insulina na infância”, esclarece o especialista.

Caso sejam aceites, as mães podem começar de imediato o processo de extração de leite. “No entanto, ao fim de três meses, têm de repetir as análises. Tendo em conta que só param a doação quando o bebé completa um ano, algumas dadoras são obrigadas a repetir as análises três vezes”, afirma Ana Torgal.

Por conseguinte, a extração de leite é feita na habitação das próprias dadoras com os materiais disponibilizados na consulta: os extratores e os frascos. Com o objetivo de garantir que o processo é feito corretamente e com a maior higiene possível, a equipa de enfermagem, composta por três enfermeiras, realiza uma visita domiciliária, na qual explica, in loco, como é que funciona a extração e o armazenamento do leite.

“No fundo, vamos a casa das pessoas explicar-lhes como é que elas devem cuidar do material. Embora os frascos sejam entregues esterilizados, cada vez que é utilizado o extrator, as dadoras têm que voltar a esterilizá-lo. Por outro lado, tentamos transmitir que é fundamental que todo o processo seja feito com a maior higiene possível. É muito importante que as dadoras lavem sempre muito bem as mãos e a mama antes da extração”, sublinha a enfermeira.

Durante a visita domiciliária, as dadoras ficam ainda a saber que o leite deve ser, preferencialmente, guardado na vertical nos seus congeladores. “Por norma, são dados dez frascos de 150 ml ou 250 ml às dadoras em cada visita, elas vão enchendo os frascos e quando estão todos cheios voltamos a recolhê-los, normalmente, a visita decorre de dez em dez dias ou de quinze em quinze dias”, acrescenta Ana Torgal.

Atualmente, o ACES Lisboa Ocidental e Oeiras tem seis dadoras ativas, mas, até agora, já foram contabilizadas 21 consultas, ou seja, um total de 21 dadoras, tendo sido doado à MAC até à data cerca de 120 litros de leite. De salientar que só a primeira dadora doou cerca de 38 litros de leite, o que comprova o impacto positivo deste projeto, ainda que a quantidade de leite doado não seja igual em todas as mulheres.

As mais-valias para o Serviço Nacional de Saúde

 

Para Démeter Díaz, este projeto, desenvolvido em parceria com a MAC, representa um grande ganho para o Serviço Nacional de Saúde (SNS) em termos económicos, uma vez que está comprovado cientificamente que, entre outros benefícios, o leite humano reduz o risco de enterocolite necrotizante. “De acordo com os estudos, os bebés que desenvolvem esta doença, muitas vezes, são submetidos a cirurgias e a um longo internamento hospitalar, o que representa gastos avultados”, frisa.

Note-se que o tratamento cirúrgico desta doença custa, em média, 125 mil euros. Através do leite humano, a MAC conseguiu reduzir dois casos por ano, uma poupança anual estimada em 250 mil euros.

Ana Torgal salienta, ainda, que “para além do impacto económico, este leite ajuda no desenvolvimento dos bebés, eles crescem mais rápido e têm um menor risco de desenvolver infeções hospitalares”.

Por outro lado, os dois profissionais de saúde consideram que o facto de a recolha do leite ser feita ao nível dos cuidados de saúde primários (CSP) é outra das mais-valias deste projeto. “Percebemos que é muito mais fácil recrutar as mulheres no centro saúde, porque é aqui que elas circulam habitualmente. A filosofia dos CSP é mesmo essa: estar mais próximo das pessoas. É um serviço de saúde de proximidade”, realça Ana Torgal.

Démeter Díaz lembra que, antes da celebração do protocolo de colaboração com a MAC, o recrutamento das dadoras era muito mais difícil. “Os médicos de família estão em contacto permanente com os seus utentes, como tal, fazer parcerias ao nível dos CSP é uma grande vantagem para todos”, afirma.

“Graças ao nosso projeto, a maternidade [MAC] conseguiu mais do que duplicar o número de dadoras, bem como os litros de leite disponíveis”, frisou a enfermeira responsável pelo projeto.

Contudo, continua a ser imperativo apostar na criação de novos bancos de leite humano no nosso país. Atualmente, só existe um banco de leite humano em Portugal – na MAC – um número que continua a não ser suficiente para suportar as necessidades da maior parte dos hospitais.

A importância do papel das dadoras no crescimento do projeto

Na opinião de Ana Torgal, as dadoras assumem, tal como os restantes profissionais de saúde, um papel fundamental no desenvolvimento e crescimento deste projeto. “Sem estas mulheres nada seria possível. São elas que contribuem diretamente para a saúde de muitos bebés”, enfatiza.

Com o intuito de assinalar o Dia Mundial da Doação de Leite Humano, efeméride que se assinala a 19 de maio, a MAC e o ACES Lisboa Ocidental e Oeiras resolveram enviar um postal com uma mensagem de agradecimento para todas as dadoras: “Querida dadora, não sei a cor dos teus olhos, como é a tua voz, nem o teu sorriso… Não sei onde moras, o que fazes, do que gostas… Não sei se o teu bebé é um menino ou menina, mas sei que é o teu leite que me alimenta, me dá vida e dá esperança aos meus pais no futuro… Por isso, hoje quero dizer-te: Obrigado!”

Saúde Pública

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