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“A contraceção de média/longa duração é uma opção segura, eficaz  e com benefícios ao nível da fisiologia da mulher”
DATA
04/10/2017 11:36:33
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“A contraceção de média/longa duração é uma opção segura, eficaz e com benefícios ao nível da fisiologia da mulher”

Quando falamos de saúde sabemos bem a importância que um enfermeiro pode ter na vida de um doente. 

Da conversa com Maria João Silva, enfermeira especialista em Saúde Materna, Obstétrica e Ginecológica, ficam alguns conselhos para “que não tomem atitudes/condutas que coloquem em perigo a sua saúde e esclareçam as questões mais íntimas, as quais podem gerar problemas de autoconfiança e autoimagem. Os enfermeiros são a figura de referência no contato com as comunidades e os elos de ligação com os elementos da equipa multiprofissional”.

 

Maria João Silva 01JORNAL MÉDICO GRANDE PÚBLICO | Quais são as dúvidas mais frequentes que uma jovem apresenta quando se dirige aos cuidados de saúde primários (centros de saúde) no momento de iniciar a sua vida sexual? Que preocupações recaem no momento de escolher um método de contracetivo?

Maria João Silva (MJS) As jovens dirigem-se aos cuidados de saúde primários (CSP) antes e após o início da vida sexual. Ainda não valorizam a vigilância em saúde prévia ao início da vida sexual e continuam a trocar impressões com as amigas perpetuando alguns mitos bastante antigos, mas ainda impregnados na população portuguesa. Apesar de estarem despertas para as infeções sexualmente transmissíveis, a principal preocupação na opção pelo método contracetivo continua a ser a prevenção de uma gravidez.

 

JMGP | Porque é que é tão importante falar com um profissional de saúde para esclarecer estes tipos de questões?

MJS | Os profissionais de saúde estão alerta para o contexto sociofamiliar das jovens e tentam sempre adequar a linguagem, as necessidades e as expetativas iniciais que despoletam o comportamento de procura de saúde. A disponibilidade demonstrada é fundamental para que os ganhos em saúde, tal como a prevenção de comportamentos de risco, sejam aumentados.

 

JMGP | Que diferenças encontra nas pessoas que procuram informação sobre este tema comparativamente há 20 anos?

MJS | Atualmente, com a disponibilização de alguma informação fidedigna através da internet e de profissionais de saúde especializados na área da contraceção, as questões colocadas são mais precisas e orientadas no sentido de desmistificar as ideias pré-concebidas de há alguns anos. No entanto, a maioria das questões que eram colocadas antigamente devem também ser abordadas para que a opção por determinado método contracetivo seja informada e consciente.

 

JMGP | Ainda há muitas jovens a recorrer às farmácias comunitárias com o objetivo de adquirir métodos contracetivos sem prescrição médica, fruto de conselhos de amigos ou outras pessoas próximas? Quais os riscos deste tipo de comportamentos?

MJS | Ainda se verifica que muitas jovens iniciam o método contracetivo adquirindo contraceção oral na farmácia (pílula) por similaridade à que a amiga ou a mãe já tomam. Apesar de a vigilância em CSP privilegiar temas relativos à reprodução, ao papel sexual, ao uso de contracetivos ou à maturação sexual, as jovens ainda sentem que, maioritariamente, a pílula pode ser igual, independentemente do seu contexto de saúde. As infeções sexualmente transmissíveis, os comportamentos de risco e a toma inadequada da contraceção oral constituem alguns dos principais riscos associados a estes comportamentos.

 

JMGP | Sei que participou no livro do ginecologista Joaquim Neves a propósito deste tema. Que barreiras pretendia derrubar junto dos próprios profissionais para quem foi escrita esta obra?

MJS | Com a participação no livro “Contraceção” pretendia-se que os enfermeiros especialistas em Saúde Materna, Obstétrica e Ginecológica sentissem o reforço da relevância do seu papel na equipa multidisciplinar e que a mesma ficasse também esclarecida sobre as competências destes profissionais, bem como o impacto junto da população da sua atuação. Ao nível dos enfermeiros sem esta especialidade, o objetivo foi o de esclarecer sobre as competências dos seus colegas, sensibilizar para esta temática e para as particularidades que o atendimento de enfermagem implica na área da saúde reprodutiva e do planeamento familiar.

 

JMGP | Considera que a liberdade de escolha de alguns métodos contracetivos influenciou a postura da própria mulher perante a sua vida sexual?

MJS | A possibilidade de recorrer aos CSP para a vigilância da sua saúde sexual e reprodutiva, aliada à disponibilização gratuita dos principais métodos contracetivos, permite às mulheres terem uma hipótese válida de planear a sua vida reprodutiva e de realizar a vigilância da sua saúde com maior segurança e eficácia.

 

JMGP | O que é que as jovens mulheres portuguesas ainda não sabem sobre contraceção?

MJS | Existem muitos mitos sobre a contraceção de longa duração, tais como os efeitos secundários, a forma de colocação e extração e o impacto no organismo. Estes métodos estão ainda associados a gravidezes indesejadas, a hemorragias vaginais descontroladas ou a dor/desconforto durante as relações sexuais, bem como a outros mitos como é o caso do aumento de peso.

 

JMGP | Falar de contraceção de longa duração é um desafio? Porquê?

MJS | A contraceção de média/longa duração já é uma realidade para muitas mulheres que optam por delinear a sua vida reprodutiva. Embora seja fundamental adotar uma linguagem científica, mas adequada ao contexto da mulher e às suas expetativas, é cada vez mais uma realidade que optem por estes métodos. O desafio continua a ser o de desmistificar ideias pré-concebidas e esclarecer sobre a sua colocação e sobre os efeitos secundários associados, bem como fazer perceber a importância de planearem a sua vida reprodutiva.

 

JMGP | Quais as principais vantagens desta opção?

MJS | A contraceção de média/longa duração é uma opção segura, eficaz e com benefícios ao nível da fisiologia da mulher. Aliada a um método barreira, constitui uma excelente forma de prevenir uma gravidez indesejada e controlar possíveis patologias, como é o caso da menstruação abundante e/ou dolorosa, assegurando que existe adesão ao método contracetivo.

 

JMGP | Que cuidados devem ser tomados?

MJS | Os cuidados a tomar com a contraceção de média/longa duração são semelhantes àqueles que as mulheres devem ter quando optam por outros métodos. Mantém-se a frequência das consultas de planeamento familiar e, caso seja necessário, um exame complementar de diagnóstico de controlo (como é o caso do DIU) deve ser explicada a sua importância. Também deve ser incentivada a utilização de métodos de barreira, como forma de prevenir as infeções sexualmente transmissíveis.

 

JMGP | Que conselhos gostaria de deixar às nossas (jovens) leitoras?

MJS | Como enfermeira especializada desenvolvo funções na área da saúde mulher desde que iniciei a minha profissional, tenho como referências na minha prática diária abordar o tema da saúde sexual e reprodutiva junto das mais jovens (sempre que há curiosidade/abertura), tentando que estabeleçam uma relação de confiança e proximidade para que se sintam confortáveis para expor as suas dúvidas e os seus receios. O meu conselho é  que procurem os seus enfermeiros de referência para que não tomem atitudes/condutas que coloquem em perigo a sua saúde e que esclareçam as questões mais íntimas, as quais podem gerar problemas de autoconfiança e autoimagem. Os enfermeiros são a figura de referência no contato com as comunidades e os elos de ligação com os elementos da equipa multiprofissional.

 

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