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“Não faz sentido pensar em cuidados de saúde e bem-estar sem falar na saúde sexual e reprodutiva e planeamento familiar”
DATA
04/10/2017 12:19:35
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“Não faz sentido pensar em cuidados de saúde e bem-estar sem falar na saúde sexual e reprodutiva e planeamento familiar”

Fundada em 1967, a Associação para o Planeamento  da Família (APF) tem como missão “ajudar as pessoas a fazerem escolhas informadas, livres e conscientes na sua vida sexual e reprodutiva e promover a parentalidade positiva”. 

Desenvolve atividades de advocacy, lutando por novas conquistas na área dos direitos sexuais e reprodutivos e pela implementação daqueles que já foram conquistados. Entre outros objetivos, a APF trabalha por uma melhor acessibilidade aos serviços de saúde, presta serviços à população, ministra formações a profissionais de saúde, educação, etc. Conversámos com o seu presidente, Dr. António Filhó, perentório na importância de cada indivíduo e família fazerem o seu próprio planeamento familiar.

 

António Filhó 01JORNAL MÉDICO GRANDE PÚBLICO | Quais são as principais áreas de intervenção principais e em que consiste cada uma delas? 

António Filhó (AF) | Na área da contraceção e da prevenção da gravidez não desejada continuamos a dinamizar o website www.contracecao.pt, bem como a página de Facebook “Conversas de Almofada”, ambas em parceria com a Sociedade Portuguesa de Contraceção (SPDC). Demos seguimento à parceria com o IPDJ para a “Sexualidade em Linha”, cujo principal motivo de procura continua a ser a contraceção. Desenvolvemos atividades na área da formação e disseminamos os materiais da APF nos serviços de saúde. Na área da sexualidade e da educação sexual, apoiamos as escolas através nos seus projetos, com formações e disseminando os seus materiais pedagógicos em educação sexual, nomeadamente aqueles que foram produzidos no projeto “On_Sex” apoiado pela Fundação Gulbenkian. Na prevenção das infeções sexualmente transmissíveis (IST) são realizados diversos projetos centrados no rastreio e na prevenção do VIH/sida em grupos mais vulneráveis, nomeadamente os trabalhadores/as sexuais. Na contraceção e parentalidade a APF dinamiza um Centro de Apoio Familiar e Aconselhamento Parental (CAFAP) em Lisboa e escolas de pais em Évora e em Faro. Sobre a violência sexual e de género estão em curso diversos projetos sobre mutilação genital feminina e outras práticas tradicionais nefastas, todos eles financiados pela União Europeia UE), baseadas em parcerias internacionais. A nossa participação no GT Interministerial sobre Medicina Geral e Familiar (MGF) continua a ser fundamental. Atuamos com equipas multidisciplinares na área do tráfico de seres humanos a nível nacional e no âmbito dos casamentos forçados através do projeto Create Youth Network. Intervimos sempre que necessário.

 

JMGP | Qual o impacto do trabalho desenvolvido pela APF na comunidade? 

AF | A APF tem sido a principal organização no país a promover de forma regular a educação para a saúde sexual e reprodutiva e tem abrangido anualmente, nas suas atividades face a face, dezenas de milhares de pessoas. Nas redes sociais chegamos todos os anos a mais de 200 mil pessoas.

 

JMGP | Uma vez que estão ligados à formação de profissionais de saúde, educação e de intervenção comunitária, quais considera ser as principais dificuldades apresentadas pelos mesmos no cumprimento do seu trabalho diário? De que forma é que a APF as apoia? 

AF | As dificuldades surgem quando as instituições de onde provêm os profissionais de saúde e de educação que formamos não se envolvem ativamente em programas de educação sexual e de saúde sexual e reprodutiva, criando obstáculos. Dificilmente a formação de professores tem impacto se as escolas não estiverem interessadas na educação sexual ou não derem condições aos profissionais, quer no acesso a essas formações, quer na aplicação dos conteúdos. Antigamente “remávamos contra a maré”, mas o cenário tem vindo a melhorar.

 

JMGP | A APF tem como missão “ajudar as pessoas a fazerem escolhas livres e conscientes na sua vida sexual e reprodutiva e promover a parentalidade positiva”. Na sua opinião, os pais portugueses estão a cumprir devidamente este papel presente na vida dos seus filhos jovens e adolescentes? 

AF | Os estudos existentes mostram que cada vez mais, as mães e os pais se envolvem no crescimento dos filhos. Mas há muitos casos em que as famílias ainda têm dificuldades nesta área.

 

JMGP | Como avalia o patamar que Portugal ocupa no que diz respeito aos Direitos Humanos e do Combate à Violência Sexual e de Género? Faz sentido voltar a falar da Carta dos Direitos Sexuais e Reprodutivos nas escolas, centros de saúde e palestras? 

AF | Portugal é dos países com legislação e políticas mais abertas em matéria de direitos sexuais e reprodutivos a nível europeu e mundial, mas é necessário um esforço constante para que todos os cidadãos e cidadãs conheçam e exerçam, de facto, estes direitos. Faz, por isso, todo o sentido, falar sempre dos direitos que alcançámos e faz sentido continuar a lutar pelos direitos que possam ainda não estar alcançados, na lei e na vida real das pessoas e instituições.

 

JMGP | A partir de que idade é que é importante falar de contraceção? Porquê? 

AF | Não há uma idade definida. Deve surgir no contexto de uma informação mais abrangente sobre educação sexual, atendendo às necessidades de cada jovem. Contudo, com a entrada na adolescência e início da puberdade, o crescente interesse e motivação pelas questões relacionadas com a sexualidade deverão ser indicadores para que, de forma natural, se disponibilize e/ou facilite o acesso a esta informação. Um/a jovem com conhecimentos adequados sobre contraceção estará certamente melhor preparado/a para a vivência de uma sexualidade saudável e segura. O conhecimento dos vários métodos contracetivos existentes, do seu funcionamento e dos prós e contras permitir-lhes-ão fazer escolhas informadas quando chegar o momento de se envolver num relacionamento sexual. A colocação do preservativo, por exemplo, requer alguns cuidados e prática na sua utilização para que seja eficaz. No entanto, muitos jovens esperam pela sua primeira relação sexual para o utilizar pela primeira vez, o que nem sempre é bom, podendo até ser um desincentivo ao seu uso regular.  

 

JMGP | Em 2017 ainda faz sentido fazer planeamento familiar? Porquê? 

AF | Não faz sentido pensar em cuidados de saúde e bem-estar sem falar na saúde sexual, reprodutiva e no planeamento familiar (PF). É uma componente fundamental na prestação de cuidados em Saúde Sexual e Reprodutiva (SSR) que possibilita às pessoas individualmente e em casal planear e alcançar o número de filhos desejados e o espaçamento entre os nascimentos. Este serviço inclui a prestação de cuidados de saúde, aconselhamento, informação e educação relacionados com a SSR. A decisão de ter ou não filhos, assim como a escolha desse momento, é um direito que assiste a todos os indivíduos e famílias.

 

JMGP | Onde é possível aceder a estas consultas? 

AF | A consultas de PF são gratuitas no Serviço Nacional de Saúde (SNS) e estão disponíveis nos hospitais e centros da saúde para todos/as os/as jovens e homens e mulheres em idade fértil. Estas disponibilizam informação e aconselhamento sobre saúde sexual e reprodutiva, nomeadamente aconselhamento contracetivo e obtenção gratuita de métodos contracetivos. Existem ainda consultas de PF gratuitas e especificas para os jovens nos Gabinetes de Saúde Juvenil do Instituto Português do Desporto e Juventude. 

 

JMGP | Quais as principais dúvidas que os mais jovens apresentam? 

AF | Habitualmente dizem respeito à eficácia do método contracetivo utilizado pelo receio de uma gravidez, nomeadamente esquecimentos na toma da pílula, o que fazer em caso de vómito ou diarreia, de que modo a utilização de um método hormonal interfere com o seu ciclo menstrual (Ex: se as alterações na hemorragia de pausa podem estar associadas à possibilidade de uma gravidez), o que fazer quando o preservativo rompe, informação sobre contraceção de emergência, a sua eficácia e potenciais efeitos secundários (Ex: se provoca infertilidade).

 

JMGP | Em que critérios se deve basear a escolha de um ou mais métodos contracetivos? 

AF | A escolha de um método contracetivo depende de fatores como a idade, o estilo de vida, o historial clinico médico e familiar, os efeitos secundários. Além das questões médicas, importa avaliar aspetos que podem ser decisivos na adesão e no uso correto de um método contracetivo, nomeadamente se se adequa uma contraceção diária ou um método que não exija uma rotina diária, mas sim semanal ou mensal, se a mulher se sente confortável com o uso de métodos contracetivos de introdução vaginal, a gestão de irregularidades no ciclo menstrual. É essencial informar que o único método que protege das IST é o uso correto e regular do preservativo (feminino ou masculino), pelo que este deverá ser mais um fator a ter em conta.  

 

JMGP | O que é que a contraceção de longa duração pode trazer à vida dos mais jovens, tendo em conta os desafios que enfrentam diariamente com todas as alterações físicas e psicológicas? 

AF | Assumindo a importância de os jovens estarem informados sobre as várias possibilidades para se protegerem de forma efetiva relativamente de uma gravidez e das IST, é fundamental que cada um/a perceba apreenda as várias hipóteses de escolha de que dispõe. Não tem de haver um método “para a vida toda”, mas um que se ajuste às necessidades no presente e que pode ser sempre alterado. Alguns métodos de longa duração (como o anel vaginal ou o implante) são adequados para os jovens por não exigirem uma rotina diária no seu uso, podendo garantir, em certos casos, maior eficácia na sua utilização, uma vez que o risco de esquecimento é bastante reduzido. Por exemplo, para jovens que vivem com grande ansiedade a possibilidade de ocorrer uma falha no método que utilizam (por esquecimento e/ou uso inconsistente), a opção por uma contraceção de longa duração, poderá sem dúvida permitir a vivência de uma sexualidade mais tranquila e sem sobressaltos. 

 

JMGP | Quais são os objetivos da Associação para os próximos cinco anos? 

AF | Há sempre novas áreas de intervenção na sexualidade humana, em algumas das quais a APF já trabalha, nomeadamente na área dos direitos e legislação associada à procriação medicamente assistida, sexualidade na doença crónica e degenerativa, nos idosos ou novos rumos da sexualidade com que o futuro nos possa surpreender. Por outro lado, sabemos que Portugal é um país progressista na área dos direitos e da legislação, mas pouco eficaz na sua real implementação. A APF continuará a lutar para colocar na agenda a necessidade de monitorizar a real implementação desses mesmos direitos e garantir o acesso de todos aos cuidados em saúde sexual e reprodutiva ao longo da vida, respeitando as especificidades de cada grupo etário e de cada situação social. Pretendemos também capacitar os profissionais envolvidos que atuam na área educação sexual e saúde sexual e reprodutiva, lutar pelo reforço de meios humanos, infraestruturas e organizações ao serviço da saúde sexual e reprodutiva e melhorar a literacia em saúde de todos os segmentos da sociedade civil, com relevo para a educação sexual e reprodutiva em meio escolar.

 

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