Jornal Médico

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DATA
01/05/2016 16:47:51
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Jornal Médico
A maioria das pessoas come à pressa durante o dia e “vinga-se” quando tem tempo livre

Não faltam conceitos de dietas para todos os gostos com promessas de dias melhores (para a alma e para o corpo). A dieta de Atkins. Do carboidrato. Do Paleolítico. Da proteína. E no caso do insuficiente cardíaco? Estará confinado a “adormecer” as suas papilas gustativas exclusivamente com pratos de grelhados e cozidos ou existem outras opções?

Na opinião da Dra. Elsa Feliciano, assessora de Nutrição da Fundação Portuguesa de Cardiologia, “a alimentação é muito influenciada pelo estado de saúde global do doente. Se estivermos a falar de alguém cujo problema é a insuficiência cardíaca, temos de nos preocupar mais com o sal. Se, além disto, o mesmo doente apresentar problemas de obesidade, acresce a preocupação da perda de peso e a busca pelo equilíbrio e pela variedade naquilo que se come, procurando obter uma redução energética, nomeadamente no açúcar e na gordura”.

Num quadro comum de Insuficiência Cardíaca, fatores de risco como os da hipertensão são frequentes e obrigam a um corte drástico nos alimentos com presença efetiva de sal, da charcutaria aos queijos, sem exceções. “Com o avançar da idade vamos perdendo o sabor nas papilas gustativas e a tendência para colocar sal nos alimentos aumenta”, afirma a Dra. Elsa Feliciano.

Também o tema da ingestão de água assume, neste contexto, contornos distintos dos conselhos que habitualmente são difundidos para a população em geral. A retenção de líquidos, fortemente associada a quadros de Insuficiência Cardíaca, pode ser decisiva na quantidade de água a ingerir diariamente. “Tudo depende se os doentes têm edema, se fazem retenção de líquidos ou se, por outro lado, sofrem excreções maiores que o habitual, que podem conduzir a variações dos nutrientes e dos níveis plasmáticos”, explica.

Estilo De Vida Ativo, A Melhor Prevenção

“Temos muita dificuldade em mudar, ou melhor, em decidir mudar. O que habitualmente acontece é que as pessoas, depois de fazerem essa alteração no estilo de vida, percebem que o processo é mais simples e sabe bem. Mas experimentar o desconhecido é difícil, até porque o ato de comer está intimamente ligado ao prazer. Passamos muito tempo à mesa. A maioria das pes- soas gosta muito de comer, come à pressa durante o dia e ‘vinga-se’ quando tem tempo livre. Existe também muita monotonia na alimentação”, descreve acrescentando que “as pessoas pensam, muitas vezes, em comer algo, mesmo que não lhes faça bem, pelo prazer que lhes dá e porque “se defendem com o pensamento de que ‘já se privam de muitas outras coisas’”. Muitas vezes, todas estas questões têm a ver com desmotivação e não com um aparente desinteresse. Não é prioritário, dizem. Têm consciência, sabem que deviam fazer desporto, mas “aquele momento” não surge, ainda não o conseguiram encaixar na agenda.

 

É possível ter qualidade de vida?

Apesar das dificuldades trazidas pela doença, o paciente com Insuficiência Cardíaca pode, na opinião da especialista, conseguir viver com qualidade, dependendo muito da sua atitude cooperante. Contudo, o trabalho mais exigente é ao longo da vida: “Devemos tentar, durante a nossa vida, procurar viver de forma mais ativa, segundo um estilo de vida saudável, evitando o tabaco, a obesidade, etc..”

 

Aliado a isto surge a falsa questão de que “comer bem é caro”. Não raras vezes, a Dra. Elsa Feliciano escu- ta este testemunho de que “essa conversa da alimentação saudável não é para mim” ou mesmo “nunca pode- rei comer assim porque tenho poucos recursos financeiros”. “Muitas vezes, as pessoas com menor capacidade financeira gerem pior os seus recursos, acabando por optar por produtos alimentares menos adequados, como refrigerantes, alimentos com muito açúcar e sal, por exemplo. Comer bem pode não ser tão caro como se imagina”, sublinha. Fazer várias refeições por dia é de extrema importância no caso destes doentes, evitando que fiquem demasiado cheios: pressionar o diafragma e a zona abdominal pode condicioná-los ainda mais.

Como ajudar um doente com insuficiência cardíaca?

Uma das formas mais benéficas de ajudar o doente com Insuficiência Cardíaca, no caso de ser um familiar, é a adesão de toda a família ao mesmo tipo de alimentação saudável, até porque a redução e a desabituação gradual do uso sal é uma prática transversal à vida de todos. “Um doente pode sentir-se limitado e não aguentar ver outros à sua volta a comer alimentos de que gosta e que não pode consumir”, exemplifica.

E quando a pessoa prevarica na sua dieta? Como é que o familiar deve atuar? A assessora de Nutrição aconselha, nestes casos, “a fazer o doente compreender que aquela atitude pode ter custos do ponto de vista da saúde, podendo até pôr em causa o próprio tratamento”. Para cozinhar para este tipo de doentes é preciso manter presente a ideia de que, salvo raras exceções, estas são pessoas que gostam de comer: é importante preservar o(s) sabor(es), trabalhar a variedade e não cair no binómio repetitivo dos cozidos-grelhados. “O mais importante é controlar a quantidade de gordura utilizada, nomeadamente o azeite, e colocar pouco ou nenhum sal. Utilize ervas aromáticas e especiarias, opte por es- tufados e assados no forno. Enfim, prepare uma comi- da que seja agradável, que misture sabores e que possa dar prazer ao doente. É essencial ter em conta as recomendações de base do médico ou profissional que está a acompanhar o doente”, finaliza.

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