Jornal Médico

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DATA
31/10/2016 10:42:00
AUTOR
Dr. Nuno Lousada - Cardiologista e membro do Conselho de Administração da Fundação Portuguesa de Cardiologia
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Fibrilhação auricular: a perda do ritmo sinusal

O coração pode não parar de bater, mas se a fibrilhação auricular bater à sua porta vai reconhecer-lhe o ritmo. Responsável pelo aumento em cinco vezes do aparecimento do risco de acidente vascular cerebral e em três vezes o risco de insuficiência cardíaca, é também a arritmia crónica mais frequente.

A atividade elétrica das aurículas do coração desorganiza-se. Uns doentes o coração começam a senti-lo a bater muito depressa, outros estranhamente devagar. Irregular em ambos. Também a resposta excessiva da frequência ventricular, a falta de ar e intolerância ao esforço, e o aumento da mortalidade são sintomas deste problema. De acordo com a explicação do Dr. Nuno Lousada, cardiologista e membro do Conselho de Administração da Fundação Portuguesa de Cardiologia, trata-se de “a manifestação da doença depende muito de pessoa para pessoa. Há doentes com fibrilação auricular que nem sequer sentem alterações e para outros bastam pequenos episódios da doença para se sentirem extremamente incomodados”. A fibrilação silenciosa deve ser uma preocupação, principalmente dos doentes de risco, como os que são hipertensos, obesos, diabéticos ou tem doença valvular cardíaca.

Esta dilatação das cavidades auriculares é mais comum em pessoas com hipertensão arterial, podendo associar-se outros fatores de risco cardiovascular como a diabetes, a hipercolesterolemia, a insuficiência cardíaca, o stress e comportamentos de adição. No caso português, o mais comum é a adição de álcool e menos, mais ainda assim presente, a da droga. Também a ingestão de café ou chás pode desencadear a forma rápida desta arritmia.

A prevalência está maioritariamente concentrada nos mais idosos com igual prevalência de sexos. Nos casos ocorridos entre doentes mais jovens é mais comum nos homens, diferença que se perde com o avançar da idade. É através de um eletrocardiograma que o diagnóstico chega, tornando evidente a referida alteração do ritmo cardíaco. A fibrilação auricular propriamente dita. “Após estabelecer o diagnóstico é preciso fazer uma avaliação clinica geral e cardiológica em particular da pessoa com fibrilação auricular e segue-se o tratamento”, afirma o cardiologista.

Uma das linhas de tratamento mais importantes está relacionada com a complicação mais grave da fibrilação auricular e ligada ao cérebro: a alteração do ritmo cardíaco conduz à formação de coágulos nas aurículas, os quais, ao atingir o cérebro, podem causar os acidentes vasculares cerebrais, que na opinião do Dr. Nuno Lousada “são consideradas as situações mais perigosas e que mais complicam a vida das pessoas que têm fibrilhação auricular, obrigando os doentes a fazer uma anticoagulação profiláctica”.

Tratamento: um motivo de esperança?

Existem, segundo o nosso entrevistado, dois tipos de abordagem no tratamento deste tipo de arritmia cardía- ca, a primeira das quais consiste em reverter a arritmia, devolvendo ao doente o seu ritmo sinusal prévio. Este objetivo pode ser conseguido através de medicamentos, com ou sem cardioversão elétrica associada, ou através do processo de ablação da fibrilhação auricular. “Considera-se que há determinadas zonas do coração que são fundamentais para desenvolver e ou manter esta arritmia e tenta-se fazer a ablação dessas zonas e modo a evitar o reaparecimento da mesma”, explicita.

O segundo tipo de abordagem consiste na toma de medicamentos que controlem a frequência cardíaca, mantendo-se o doente em fibrilação auricular. O tratamento anticoagulante é fundamental para a prevenção do acidente vascular cerebral (AVC).

Em conclusão, a fibrilação auricular é uma arritmia com prevalência crescente, mais frequente nos idosos, e o eletrocardiograma é o método necessário para a identificação. O tratamento deve ser efetuado de acordo com as características próprias de cada doente, pretendendo-se que o doente mantenha um ritmo sinusal permanente.

No que diz respeito à hipocoagulação, no contexto da fibrilhação auricular, enquanto forma de prevenir um episódio de AVC, existem algumas novidades tera- pêuticas que poderão surgir como motivo de esperan- ça para os doentes. Na opinião do Dr. Nuno Lousada, “existem novas soluções terapêuticas (os anticoagulan- tes não-vitamina k), que por comparação à terapêutica clássica (varfarina) se tornam vantajosas por não neces- sitarem de monotorização regular da anticoagulação e por serem fármacos mais previsíveis e menos influen- ciados pelos alimentos ou outros medicamentos, redu- zindo os casos de hemorragia cerebral”.

E porque o risco hemorrágico é, neste contexto, uma possibilidade, o Dr. Nuno Lousada considerou que “de- vem ser minimizados através da identificação e corre- ção dos fatores de risco hemorrágicos modificáveis co- mo a hipertensão arterial, a anemia, o uso de álcool, a terapêutica antiplaquetária e a terapêutica com anti-in- flamatórios não esteroides. Os novos fármacos anticoa- gulantes não-vitamina k apresentam um risco hemor- rágico menor, com redução muito significativa dos ca- sos de hemorragia cerebral, que é a complicação mais temida destas terapêuticas; por último, a aparição de antídotos destes fármacos reduz o risco de complica- ções  hemorrágicas em situações de urgência”.

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