Jornal Médico

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DATA
31/10/2016 12:07:00
AUTOR
Dra. Graça Ferreira da Silva - Cardiologista clinica, Membro da Sociedade Europeia de Cardiologia
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Hipertensão arterial: o perigo "silencioso" que espreita

Se quiséssemos caracterizar a essência da hipertensão arterial, muito provavelmente destacaríamos a sua perversidade. Não provoca dor e, dentro do seu silêncio, percorre a vida das suas “vítimas”, cerca de 42% da população em Portugal. Em entrevista à redação do Jornal Médico Grande Público, a Dra. Graça Ferreira da Silva chama a atenção para a importância de combater a obesidade e de promover o exercício físico, num envolvimento das várias estruturas da sociedade civil.

Os muitos anos ao serviço da especialidade não lhe trazem surpresas de maior. Haverá sempre casos de doentes com diagnósticos de hipertensão arterial ligeira que, perante os resultados, se refugiam nas eternas justificações sobre “aquele momento em que a tensão estava um bocadinho alta” ou em que estavam “mais nervosos”. Por outro lado, “quando as hipertensões são de grau 2 ou 3 (mais graves), preocupam-se e querem tratá-la. Nos casos mais ligeiros, há muita gente que não quer assumir, sobretudo os doentes mais novos e de meia-idade. Contudo, penso que as pessoas estão cada vez mais informadas e, como tal, já existe alguma sensibilidade para o  facto de se tratar de um fator de risco muito importante na doença cardiovascular”, afirma a Dra. Graça Ferreira da Silva, cardiologista clínica, representante da Fundação Portuguesa de Cardiologia no Ribatejo, membro da Sociedade Europeia de Cardiologia e coordenadora do Conselho Português para a Prática da especialidade.

Eis o primeiro desafio: o diagnóstico. Estima-se que cerca de 42% da população portuguesa seja hipertensa e apenas metade conheça o seu diagnóstico. “Todos nós temos de ter o cuidado de ir vigiando a tensão arterial e de nos preocuparmos com a nossa saúde”, adverte. Quando falamos desta doença, sa- bemos que há riscos que a exacerbam e a obesidade é disso exemplo. “Existe, entre nós [portugueses] uma grande prevalência de doentes com excesso de peso e apneia do sono. Este é outro índice que tem de  ser despistado: as  roncopatias. As   pessoas que ressonam muito têm de ter noção que este é um problema que vai provocar a doença cardiovascular, uma vez que é um fator de risco  importante.”

A hipertensão arterialem números

Existem cerca de 42% de hipertensos em Portugal;
Apenas 50% conhecem o seu diagnóstico;
Só 25% estão medicados;
Um total de 16% estão a ser acompanhados por um médico;
11% dos portugueses tem os seus níveis de tensão controlados.

Sal: uma herança demasiado pesada?

Com três letras apenas se escreve um futuro ameaçado. O sal, presente na mesa de todos os portugueses sem olhar a classes sociais, é uma ameaça constante que, a juntar ao facto de existir um sedentarismo generalizado da população, pode ser fatal. Na opinião da especialista, “a Fundação Portuguesa de Cardiologia tem tido um trabalho muito importante na luta pela criação de legislação nesta área, como é exemplo a medida tomada relativamente à redução de sal no pão. O sal é, sem dúvida, uma das bases que a nossa população ainda consome em excesso e que é necessário educar e alterar na origem, isto é, não comprar o pão já com excesso de sal, mas corrigir esse aspeto”. As crianças e jovens não estão fora do alcance deste problema. Pelo contrário, inseridas muitas vezes em famílias pouco sensíveis a esta preocupação dos especialistas, são invariavelmente sedentárias e apresentam risco agravado de obesidade. Mais uma vez, precisamos de insistir na origem, na educação, indo às escolas continuar um trabalho de esclarecimento e monitorização do trabalho realizado. “Importa também que haja mais desporto, mais atividade física”, defende.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) preconiza um consumo diário de sal de cinco a seis gramas.

Um estudo realizado há dois anos pela Sociedade Portuguesa de Hipertensão revelou que a população consome o dobro da quantidade de sal aconselhada. “Alguns estudos e análises que têm vindo  a ser publicados indicam que também as crianças, em consequência dos maus hábitos dos pais, começam a consumir grandes quantidades de sal em fases muito precoces da sua vida. Isto leva ao aumento de casos de hipertensão arterial e  há   ocorrência de complicações vasculares, como por exemplo o acidente vascular cerebral em idades mais jovens. Está na origem de 17% da mortalidade prematura em Portugal”, afirmou acrescentado que “é possível reduzir em um quarto a mortalidade devido a estas patologias tratando diretamente a hipertensão”. Não é possível abordar os fatores de risco esquecendo o papel do tabagismo ativo. “Um fator de risco associado tem uma progressão matemática, ou seja, vai-se multiplicando (e não somando). É fundamental que as pessoas tenham noção de que o tabaco representa um fator de risco número um, terrível para as artérias, além de outros riscos. O tabaco, a hipertensão, o colesterol e a diabetes estão muitas vezes associados e aumentam exponencialmente o risco de aparecimento da doença cardiovascular”, esclarece acrescentando que “é importante a existência de legislação que diminua o número de fumadores”, como é exemplo a recente revisão de fumo de tabaco na via pública.

A hipertensão arterial é a principal causa em Portugal dos acidentes vasculares cerebrais, e está também na base importante do aparecimento de situações de enfarte agudo do miocárdio, insuficiência cardíaca e doença renal.

“O doente hipertenso, para além de adotar um estilo de vida saudável, uma boa alimentação com pouco sal, exercício físico regular, e uma vida sem tabaco, deve vigiar regularmente a sua tensão arterial e tomar a medicação indicada pelo seu médico. Es- ta é uma doença crónica que tem tratamento,  temos hoje excelentes medicamentos eficazes na normalização da doença arterial, e na prevenção das suas complicações. Os hipertensos podem e devem manter a sua HTA  em  valores normais (120 mmHg e  80 mmHg)”, explica.

Aprenda a classificar a sua pressão arterial

Normal
até 120 mmHg de máxima;
até 80 mmHg de mínima

Pré-hipertensão
entre 120 e 139 mmHg de máxima;
entre 80 e 89 mmHg de mínima

Hipertensão arterial grau 1
entre 140 e 159 mmHg de máxima;
entre 90 e 99 mmHg de mínima

Hipertensão arterial grau 2
mais de 160 mmHg de máxima;
mais de 100 mmHg de mínima

Hipertensão arterial grau 3
≥ a 180 mmHg de máxima;
≥ a 110 mmHg de mínima

Que soluções procurar?

Voltamos à base de uma vida afastada da hipertensão, que implica a promoção de uma alimentação equilibrada, evitando alimentos ricos em sal e açú- car, acompanhados de uma maior prática de exer- cício físico. Como a Dra. Graça costuma dizer aos doentes que acompanha, “a hipertensão tem como primeiro tratamento a perda de peso, o exercício físico e a redução de sal” e quanto mais cedo alterar-mos estes hábitos, melhor.

O ritmo inegavelmente acelerado afasta muitos portugueses da prática de exercício físico e as limitações orçamentais apartam-nos dos ginásios e outras estruturas criadas para o efeito. As recomendações das sociedades científicas da especialidade defendem que devemos caminhar, pelo menos, uma hora e meia por semana. “Precisamos de promover mais as atividades ao ar livre. As pessoas, no  final do dia, não têm nem tempo nem paciência para esta prática. É saudável aproveitar os fins de semana para boas caminhadas. Sempre que possível devemos optar por ir a pé para o trabalho até porque o exercício físico também é bom para libertar as pessoas. É uma maneira de combater o  stress.”

E porque não é possível alterar o caminho (nem caminhar) isoladamente, a cardiologista alerta ainda para a importância de haver um maior envolvimento da sociedade civil, além de regulamentação concreta para as áreas identificadas. “Tem de haver um envolvimento de todos nós, ao nível das câmaras municipais, das juntas de freguesia e das escolas, isto é, uma responsabilização em que cada um trate e preserve a sua saúde. Isto requer informação e   a participação de todas estas estruturas”, conclui.

Máximas e mínimas: o que significam?

O primeiro valor, conhecido como “máxima” ou pressão arterial sistólica, é indicador da pressão que o sangue exerce nas paredes as artérias ao ser bombeado pelo coração;
O segundo valor, conhecido como “mínima” ou pressão arterial diastólica, demonstra a pressão exercida pelo sangue nas artérias quando o coração relaxa.

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