Jornal Médico

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DATA
31/10/2016 14:34:00
AUTOR
Dr. Pedro Marques da Silva - Consultor de Medicina Interna do Hospital de Santa Marta
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Colesterol: ordem para reduzir

O colesterol pode ser "bom"? Mas será que também pode ser "mau"? Dados, mitos e problemas explicados pelo Dr. Pedro Marques da Silva que, perante o aumento crescente do número de casos de colesterol, é perentório: "Enquanto sociedade, não temos de fazer nada especificamente para o colesterol, a hipertensão, a diabetes, o Alzheimer ou o cancro: todas as medidas de estilos de vida saudável que podem ser implementadas são comuns às doenças crónicas e, naturalmente, também às doenças cardiovasculares."

Foi na década de 1960 que nasceram os conceitos de “bom” e “mau” colesterol. Os estudos epidemiológicos demonstravam que quanto mais elevado era o valor do colesterol LDL (“mau colesterol”), maior seria o risco de eventos cardiovasculares. Por outro lado, quanto mais alto fosse o valor do HDL (“bom colesterol”), menor o risco de ocorrência de eventos cardiovasculares. Estima-se que cerca de 40% da população em Portugal tenha valores de LDL superiores ao desejável. Existe um número elevado de pessoas com hipercolesterolemia familiar não diagnosticada com muito alto risco de vir a sofrer um enfarte agudo do miocárdio por volta dos 40 anos e é ainda recorrente que os doentes com colesterol “acumulem” outras comorbilidades, tais como o tabagismo ativo e a hipertensão arterial, que contribuem para o aumento do risco cardiovascular.

Os números do Infarmed estimam, ainda, que cerca de 1,5 milhões de pessoas têm estatinas prescritas, não existindo quaisquer dados sobre a toma propriamente dita. À semelhança daquilo que acontece noutras doen- ças crónicas, quando se completa um ano de tratamento, cerca de 30 a 40% dos doentes suspende o tratamento, “uma situação prejudicial em termos de saúde pública e até dos custos económico-sociais”.

Afinal o "bom" colesterol pode ser mau?

Mas será que todo o colesterol é bom? O primeiro esclarecimento que o consultor de Medicina Interna do Hospital de Santa Marta e vogal médico da direção da Fundação Portuguesa de Cardiologia nos faz é de que é preciso compreender as razões dos baixos valores de bom colesterol, inúmeras vezes relacionado com o facto de coexistirem valores elevados de triglicéridos. “Os níveis baixos do bom colesterol são a contrapartida aos triglicéridos elevados. Pelo que quando alguém apre- senta triglicéridos elevados, é preciso olhar imediatamente para os níveis de HDL e vice-versa”, distingue. A questão essencial é perceber se o valor baixo de HDL significa risco per se ou se funciona como um marcador que existe além daquele valor e que se expressa na redução do HDL, o que lança alguns desafios. Por exem- plo, de que forma é que, pela sua capacidade de ação biológica, pode contribuir para a redução e proteção do indivíduo? “Um dos aspetos mais positivos da vacinação [contra o vírus] da gripe é evitar que, durante os períodos da fase aguda da infeção viral, haja uma alteração da funcionalidade das HDL. Sabemos que uma pessoa que tem um processo infecioso agudo deste tipo, nas 24 horas que se seguem essa ocorrência, as HDL, por muito boas que sejam em número, não são realmente funcionais. Isto determina uma visão muito mais abrangente do simples pensamento do bom e do mau.”

Qual é a herança das suas artérias?

A hereditariedade expressa-se, quase sempre, em interação entre os genes e o ambiente. “Uma mãe que gera uma criança e que, nessa altura, apresenta valores  de colesterol elevados está a promover, in utero, várias modificações de expressão genética que, a longo prazo, favorecem que essa criança venha a sofrer de dislipidemia ou de maior risco cardiovascular. Isto é-nos útil para entender que a maioria das doenças degenerativas são um contínuo de expressão que se vai modelando”, até culminar em manifestações clínicas concretas. “Enquanto sociedade, não temos de fazer nada especificamente para o colesterol, a hipertensão, a diabetes,  o Alzheimer ou o cancro: todas as medidas de estilos de vida saudável que podem ser implementadas são comuns às doenças crónicas, para além das doenças cardiovasculares”, contrapõe.

O que é a doença aterosclerótica?

Trata-se de uma patologia provocada pela retenção de gorduras na parede vascular e que determina nos vasos uma resposta “estranha” e inflamatória progressiva, razão do aparecimento dos seus sintomas clínicos. Por outras palavras, com a acumulação de colesterol nas artérias, todas as partículas em circulação são suscetíveis de ficar reti- das na parede dos vasos e de determinar a doença aterosclerótica.

Aprenda a enfrentar os mitos da doença

Primeiro mito: o colesterol não é significativo na doença vascular. Segundo o Dr. Pedro Marques da Silva, isto resulta de uma cultura de desinformação “que tenta explicar mecanismos que estão altamente relacionados, separando-os e tentando dizer que o colesterol não tem significado, mas sim a inflamação vascular”. A verdade é que ninguém tem doença aterosclerótica se não tiver num ambiente aterogénico das suas lipoproteínas. Este é o mito da conceção de que o colesterol não é significativo para a doença vascular.

Vamos ao segundo mito: “Se tiver os valores do colesterol controlados não preciso de tomar a medicação”. Mesmo sem fazer um grande esforço, certamente que já ouviu um amigo ou familiar dizer algo semelhante, cheio de confiança e sentindo-se curado. Na opinião do especialista, trata-se de “uma alteração metabólica que se vai desenvolver no tempo, com a sucessiva expressão de diferentes genes e da sua relação com o ambiente. Aquilo que conseguimos controlar é a situação clínica, levar à tendência de “normalização” dessa situação e não curar”. Alguns estudos epidemiológicos demonstram que um doente a fazer uma medicação para o colesterol tendo a diminuir a sua atividade física, ingerindo mais calorias e aumentando o seu peso. “Fazer a medicação, não significa desvalorizar as medidas de estilo de vida”, adverte.

Terceira e última ideia preconcebida: “Os medicamentos para baixar os valores dos LDL tendem a provocar intolerâncias”. “Naturalmente que qualquer medi- camento tem sempre a possibilidade de surtir um efeito adverso num ou noutro indivíduo, mas a maioria dos efeitos adversos que são atribuídos, como dores musculares, que os doentes já poderiam ter anteriormente. As informações seguem de forma descoordenada e são o reflexo de informações a circular na Internet, sem qualquer critério de avaliação. Temos de fazer o doente compreender que isto pode acontecer, torná-lo participativo no processo de tratamento que lhe é proposto, que passa por prolongar-lhe a vida, diminuir a morbilidade e as comorbilidades cardiovasculares, sem afetar a qualidade de vida”, descreve.

Como travar este problema?

Sendo o colesterol elevado o responsável por cerca de 56% de enfartes do miocárdio e um terço dos aciden- tes vasculares cerebrais, pedimos ao nosso entrevistado que nos ajudasse a definir alguns meios para combater esta patologia.

“Em primeiro lugar”, defende, “existe um projeto e prevenção primordial no qual é necessário que a tutela, o médico, o sistema de saúde e o cidadão percebam que a saúde é um bem demasiado importante para ficar na mão dos médicos. É uma responsabilidade compartilhada, num processo que deriva de um estilo de vida saudável”. Nestas circunstâncias, “uma escola não pode abrir sem ter um ginásio. É preciso dedicar algum tempo a ensinar a importância de correr, de jogar, de gastar calorias. Tudo isto é, hoje em dia, subvalorizado”. Seguidamente, defende o especialista, existe a prevenção primária, abrangendo pessoas já em idade adulta que integram um conjunto de comportamentos e escolhas dietéticas que diminuem o risco significativo a longo prazo. Existe uma redução significativa da taxa de mortalidade, ao longo dos últimos anos, em termos de doença cardiovascular, apenas possível através da toma de terapêuticas comprovadamente eficazes na redução dos eventos cardiovasculares. “Atualmente, dispomos de evidência acerca das terapêuticas que são cardioprotetoras e essas têm de ser feitas. O atingimento desses objetivos terapêuticos é a melhor forma de expor evidência científica e de consolidar os ganhos em saúde que queremos obter”, destaca.

Por fim, o Dr. Pedro Marques da Silva lança um apelo: que deixemos de ir ao médico quando estamos doentes, mas sim com o objetivo de procurar ter mais saúde. “Não é possível que só se ‘passe’ pelos especialistas hospitalares, havendo um papel fundamental dos especialistas de Medicina Geral e Familiar no acompanhamento do doente e da sua família. É preciso tratar o doente e os seus cuidadores porque aquilo que uma pes- soa come é o que comem todos os outros membros da família. É toda uma linguagem que tem de ser transmitida ao doente, objeto da nossa atenção, e à família com quem vive”, termina.

“Tenho 40 anos. Quais são os valores aceitáveis de colesterol?”

Se vai saber, pela primeira vez, como se encontra o seu perfil lipídico, este é o momento de conhecer os valores do colesterol total, do LDL, do HDL e dos triglicéridos. É expectável, para alguém com um estilo de vida saudável que o valor de HDL seja elevado, mais de 40 mg/dl nos homens e mais de 50 mg/dl nas mulheres, e níveis de LDL de acordo com o risco individual, correspondendo a 115 mg/dl na maioria das pessoas. De acordo com o consultor de Medicina Interna, “não negando a dicotomia do bom e do mau, e como em quase tudo em Biologia, raramente é tudo ‘preto ou branco’. É preciso haver uma personalização da doença e uma valorização do indivíduo. Existem valores ideais, de conformidade biológica, mas importa tomar em consideração condições biopsicossociais, económicas, integradas na sua comunidade, nas suas idiossincrasias, da pessoa que está à minha frente. Só assim é possível definir quais são os objetivos terapêuticos e aquilo que me proponho fazer para os obter”.

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