Jornal Médico

Exercício físico no doente cardíaco: um caminho ou um impedimento?

O exercício físico é importante mas, e o doente cardíaco? Pode fazer? Em que condições? Leia a entrevista com o personal trainer Miguel Seixas e bons treinos!

 

Jornal Médico Grande Público | De que forma é que o exercício físico pode ajudar a prevenir doenças cardiovasculares?
Miguel Seixas (MS) | O exercício físico melhora a saúde cardiovascular de diversas formas e até na própria prevenção: reduz a pressão arterial, previne o crescimento da placa aterosclerótica nas artérias, protege-as, melhora a qualidade de vida, diminui o risco de formação de coágulos no sangue e promove a formação de vasos sanguíneos. Estas doenças continuam a ser a principal causa de mortalidade na população portuguesa, à semelhança do que acontece em outros países europeus. Mesmo em doentes com complicações cardiovasculares, a atividade física regular continua a ter um papel essencial, entre outras como a cessação tabágica, redução dos níveis de colesterol, a manutenção do peso e o controlo da tensão arterial.

JMGP | É possível fazer exercício sendo doente cardíaco? Como?
MS | Segundo a American College of Sports Medicine, os doentes cardiovasculares que praticam exercício físico regularmente referem, muitas vezes, sentirem mais autoconfiança e bem-estar e, em contrapartida, menos ansiedade, depressão, stress e isolamento social. Hoje em dia, doentes com patologias cardíacas variadas, como insuficiência cardíaca, arritmias, doença das artérias coronárias (enfarte agudo do miocárdio, angioplastia coronária) ou submetidos a bypass cardíaco, já não estão inibidos de o praticar, sendo que a decisão de iniciar, retomar ou manter essa atividade deve ser feita em conjunto com o médico assistente. Será ele, caso seja necessário, a recomendar a realização de exames como o eletrocardiograma, a prova de esforço e exame de holter. Estes resultados irão ajudar o médico e o preparador físico a prescrever o treino, com a frequência e intensidade dos exercícios praticados de uma forma mais segura, usando como base de controlo da frequência cardíaca, o cardiofrequencímetro.

JMGP | O que fazer se surgirem complicações durante a prática desportiva?
MS | Se surgirem sintomas como dor torácica, palpitações, tonturas, vertigem, sudorese excessiva, palidez ou falta de ar deve interromper-se de imediato a atividade física e procurar ajuda profissional. Tal como o tempo inicial implica um aquecimento, no final do treino é essencial o ‘retorno à calma’, para que a frequência cardíaca estabilize para os valores normais para a pessoa. O coração precisa de um tempo de descanso ate que seja submetido a um novo esforço.

JMGP | Pode mencionar alguns exemplos de práticas desportivas relevantes para a prevenção?
MS | Quer estejamos a falar de uma pessoa saudável, com risco cardiovascular ou com diagnóstico da mesma, o tipo de exercício que se pode praticar (preventivamente ou como forma de melhoria de sintomas) é diverso, como simples caminhadas de 30 minutos por dia. A natação, por exemplo, melhora a saúde cardiovascular, a força e a tonicidade muscular. Correr aperfeiçoa a forma física, eleva os níveis de bom colesterol e diminui os valores da tensão arterial, mas implica alguma resistência física. O treino de força pode ser praticado em ginásios onde se incluem cargas (halteres) e, quando combinado com exercício aeróbico, ajuda na redução da tensão arterial e controlo dos níveis de colesterol e de açúcar no sangue. Vai ajudar a obter um peso adequado, aumentando a massa muscular e diminuição a massa gorda. O ciclismo, por sua vez, ajuda a regular os níveis de pressão arterial e diminui os níveis de mau colesterol. Outra boa opção são os jogos coletivos como basquetebol ou futebol onde, além dos benefícios já mencionados, existe uma componente social muito importante.

JMGP | E no caso dos doentes cardíacos?
MS | Antes de iniciar é preciso um consentimento médico, podendo existir necessidade de ajuste da medicação ao tipo de treino. Deve haver acompanhamento físico na periodicidade, duração e tipo de atividade física e noção da frequência cardíaca antes e depois do treino. As atividades físicas mais benéficas para os doentes cardíacos são o exercício aeróbico e o treino de força: correr, andar de bicicleta, remar, nadar ou andar a passo rápido. O treino de força vai ajudar a fortalecer os músculos e os ossos e ajuda imenso na gestão do peso, com cargas externas como halteres ou máquinas de musculação.

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