Jornal Médico

“A Medicina, os cuidados médicos e os recursos económicos não vão ser suficientes para travar este ritmo de aumento das doenças do coração”
DATA
23/05/2017 16:31:25
AUTOR
Dr.ª Teresa Gomes Mota - Cardiologista. Membro do Conselho de Administração da FCP
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“A Medicina, os cuidados médicos e os recursos económicos não vão ser suficientes para travar este ritmo de aumento das doenças do coração”

Se o rastreio dos fatores de risco nas doenças cardiovasculares fosse igual ao conhecimento deste problema, Portugal não seria certamente um dos piores classificados a nível europeu.

“É preciso rastrear os fatores de risco: medir a tensão arterial, o colesterol, fazer o despiste da diabetes que vai sendo cada vez mais comum em Portugal, verificar se não há excesso de peso desde logo nas crianças, etc. É muito habitual ver crianças e jovens nos supermercados a comprarem refrigerantes, fritos, croissants, etc. Têm de ser educadas e vigiadas pelas escolas e pelos pais/famílias. Nos adultos o problema também acontece: as pessoas trabalham cada vez mais em horários mais alargados e também acabam por escolher opções mais rápidas, piores”, explica.

Existem, porém, sintomas que “apontam” para o coração, como a dor no peito. Na opinião da cardiologista, este é “o sinal mais importante que podemos ter no que diz respeito ao enfarte agudo do miocárdio. Se a dor na zona central for forte e persistir mesmo em repouso, podendo irradiar para o braço esquerdo, pescoço ou costas, estes devem ser motivos de alerta”, sublinha acrescentando que, no caso de se tratar de “um adulto que apresente fatores de risco, deve ser chamado de imediato o INEM porque este organismo tem capacidade de verificar, no próprio momento, se é uma dor do coração e se pode ou não haver um enfarte. É preciso atuar rapidamente”.

Se, ao invés, a dor aparece com o esforço, o indivíduo descansa e o mal-estar se esvanece, o caso pode ser outro, habitualmente conhecido como “angina de peito”. Nessa situação, “sendo um sinal de alerta, já não é uma questão de emergência, mas de tentar identificar um problema localizado no coração que precisa de ser observado pelo médico”. As palpitações ou batimentos cardíacos irregulares são outra preocupação dos especialistas, os quais podem significar arritmias. Também as tonturas, os desmaios e as perdas de sentidos podem, por vezes, ser causados por problemas cardíacos. Não ignore as pernas inchadas, pois se não houver outras patologias associadas que as justifiquem, poderá ser um alerta de insuficiência cardíaca.

Um outro sintoma que poderá indicar que a sua saúde cardiovascular se encontra ameaçada é o cansaço. “As pessoas não devem subvalorizar os sintomas. É claro que pode haver outros motivos para a pessoa estar cansada, tal como uma anemia ou um problema respiratório. Nessas situações devem dirigir-se ao médico para estabelecer o diagnóstico”, recorda a Dr.ª Teresa Gomes Mota.

 

Por quê procurar um especialista?

Na maior parte das patologias do coração, quanto mais depressa forem identificadas, mais facilitado estará o seu controlo e respetivo tratamento, logo “maior é a probabilidade de a pessoa viver mais tempo e com mais qualidade de vida”. Apesar da evolução na Medicina, a especialista não deixa de notar que “as pessoas agarraram-se a esta ideia e pensam que, se tiverem um problema, vão curar-se e voltar ao mesmo, e não voltam”.

Para a Dr.ª Teresa Gomes Mota, o estilo de vida “cada vez menos saudável” é evidente e, perante a existência de fatores de risco como a obesidade, a hipertensão arterial, o colesterol elevado e o tabagismo tem de haver um esforço conjunto (escolas, famílias, autarquias, centros de saúde e locais de trabalho) para que “todos e cada um” possam tomar uma atitude em prol da saúde. “Todos temos de fazer algo porque a situação é insustentável. Vejamos o caso da diabetes em que a principal causa de morte são as doenças do coração. O aumento do número de pessoas com diabetes vai diminuir a esperança média de vida das gerações futuras”, e nessa altura, “a Medicina, os cuidados médicos e os recursos económicos não vão ser suficientes para travar este ritmo de aumento das doenças do coração devido aos fatores de risco e ao estilo de vida que temos”.

 

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