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Cirurgia minimamente invasiva: tratar, sem “o coração nas mãos”
DATA
24/05/2017 12:23:55
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Cirurgia minimamente invasiva: tratar, sem “o coração nas mãos”

Atualmente é possível operar ao coração para tratar todos os tipos de doença valvular cardíaca, sem necessidade de recorrer à esternotomia total, isto é, evitando a operação de “peito aberto”.

Quem o diz é a Dr.ª Fátima Neves, cirurgiã cardiotorácica do Centro Hospitalar de Vila Nova de Gaia/Espinho (CHVNG/E), que reconhece que nos últimos anos se verificou “uma evolução significativa no tamanho da incisão cirúrgica e na agressividade do acesso ao coração”, sendo hoje possível realizar cirurgias cardíacas com incisões inferiores a oito centímetros. Para além disso, “foram desenvolvidos instrumentos cirúrgicos especiais para alguns destes procedimentos e câmaras de vídeo 3D de toracoscopia para permitir operar por pequenos orifícios”, refere a médica.

De acordo com a especialista, Portugal tem acompanhado esta escalada de complexidade e os doentes portugueses têm atualmente acesso a toda esta inovação no que concerne aos procedimentos cardíacos minimamente invasivos. “À exceção da cirurgia cardíaca robótica assistida, que não está totalmente validada e ainda não é realizada em Portugal”. É certo que a maioria destes procedimentos está disponível apenas em alguns Centros de Cirurgia Cardíaca, na medida em que comportam uma complexidade técnica que requer treino e formação em centros de referência fora de Portugal, esclarece a Dr.ª Fátima Neves, reforçando que “os procedimentos minimamente invasivos são tecnicamente exigentes e é necessário algum tempo e dedicação para formar vários elementos e equipas para uma resposta adequada às necessidades das listas de espera”. Exemplo disso é “o Dr. Nelson Paulo, especialista de Cirurgia Cardiotorácica do CHVNG/E, que fez uma formação intensiva e específica durante meses num centro de referência na Alemanha para iniciar autonomamente em 2016 o programa de cirurgia da plastia ou substituição das válvulas Mitral e Tricúspide por toracoscopia”, aponta.

De acordo com a especialista, Portugal tem acompanhado esta escalada de complexidade e os doentes portugueses têm atualmente acesso a toda esta inovação no que concerne aos procedimentos cardíacos minimamente invasivos.

De certa forma, “a evolução dos procedimentos por cateterismo ou intervenção estrutural com dispositivos implantáveis permitiu, até um determinado limite, tratar alguns doentes com doença cardíaca inoperáveis ou de alto risco cirúrgico, criando uma sobreposição de técnicas para tratar a mesma patologia”, sublinha a médica, explicando que “muito embora as indicações para cada uma das técnicas estejam bem estabelecidas, a rápida evolução dos procedimentos por cateterismo cada vez mais complexos impulsionou a cirurgia cardíaca clássica para a menor invasibilidade, no sentido de melhorar os resultados e o processo de recuperação.

Questionada sobre que mais-valias para os doentes reconhece na cirurgia cardíaca minimamente invasiva, a Dr.ª Fátima Neves destaca, “a vantagem estética no paciente mais jovem” e “a vantagem relacionada com a recuperação mais rápida e fácil no paciente idoso ou com várias patologias associadas”. Segundo a médica, “as complicações pós-operatórias relacionadas com a manipulação agressiva do esterno –como a deiscência (reabertura de sutura) e a infeção estão minimizadas nas abordagens minimamente invasivas”. Para maximizar as vantagens, advoga, “estas técnicas não podem subtrair qualidade ou segurança em relação às abordagens clássicas ‘de peito aberto’ pelo que só devem ser realizadas em centros com experiência”.

A menor agressividade cirúrgica implica, habitualmente, uma recuperação mais rápida, com menos dor e internamento mais curto, “o que no contexto da cirurgia cardíaca com internamento habitualmente de vários dias tem um impacto clínico para o paciente e financeiro para a instituição muito significativo”, conclui. 

 

Cirurgias da válvula aórtica e da aorta ascendente

Já podem ser realizadas por mini-esternotomia ou esternotomia parcial com incisões inferiores a 8 cm. As válvulas mitral e tricúspide, assim como as comunicações interauriculares, já podem ser tratadas cirurgicamente por toracoscopia com uma pequena incisão lateral na parede torácica inferior a 6 cm e sem necessidade de esternotomia. Em casos selecionados, a válvula aórtica também pode ser tratada por minitoracotomia anterior direita.

 

Cirurgia coronária

A evolução das abordagens menos invasivas é limitada pela complexidade da técnica e a necessidade de acesso a todo o coração. A esternotomia total ainda é a abordagem habitual na cirurgia coronária para maior segurança e qualidade das anastomoses aorto-coronárias. A grande evolução em termos de agressividade na cirurgia coronária foi a possibilidade de ser realizada sem a necessidade da circulação extra-corporal, ou seja, com o coração a bater, o que demonstrou vantagem na recuperação pós-operatória e tempo de internamento.

 

 

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