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“A implementação de medidas por parte dos vários governos tem ocorrido de forma tardia e limitada”
DATA
24/05/2017 12:49:56
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“A implementação de medidas por parte dos vários governos tem ocorrido de forma tardia e limitada”

Em entrevista ano nosso jornal, o Prof. Doutor Victor Gil, coordenador da Unidade Cardiovascular do Hospital Lusíadas Lisboa, faz uma "radiografia" à especialidade de Cardiologia em Portugal.

 

Jornal Médico Grande Público | Portugal é um país que desafia os caminhos da especialidade de Cardiologia? Em que medida?
Prof. Victor M. Gil (VG) | Penso que a Cardiologia Portuguesa é permanentemente desafiada pelos novos caminhos e rapidamente entra neles e os percorre, procurando estar ao lado daqueles que estão em primeiro lugar. O nosso desempenho é semelhante aos melhores, estamos muito abertos à inovação e à melhoria constantes e a preocupação em aprender, questionar, investigar e publicar incorporou os genes dos cardiologistas portugueses, sempre com destaque para os mais jovens. A organização científica dos cardiologistas portugueses, através da Sociedade Portuguesa de Cardiologia, é espelho de tudo isto, pela intensa atividade formativa, promotora do protagonismo e da novidade de forma absolutamente exemplar.

 

JMGP | Considera que o trabalho de prevenção realizado é suficiente? Porquê?
VG | O trabalho de prevenção é muito insuficiente pois não tem apenas a ver com a divulgação de conceitos, mas muito mais que isso: diz respeito à sua aplicação prática, à monitorização e avaliação dos resultados obtidos. Diversas entidades têm vindo, de forma sistemática e persistente a vulgarizar as grandes ideias-força da prevenção cardiovascular. No entanto, a implementação de medidas por parte dos vários governos tem ocorrido, na generalidade, de forma tardia e limitada. Um exemplo disto é o da chamada lei antitabaco que poderia ter ido muito mais longe na defesa dos direitos dos não fumadores em não serem agredidos pelo fumo dos outros. Outro exemplo é a tolerância das empresas para com os fumadores a quem são autorizados tempos para fumar, que nos não fumadores podia ser convertido em tempos correspondentes para exercício físico. A grande aposta tem que ser feita nos programas educacionais, desde os níveis escolares mais básicos, que no caso da educação em saúde cardiovascular devia evidentemente envolver como parceiro continuado a Sociedade Portuguesa de Cardiologia.

 

JMGP | Na ausência de diagnóstico de doença cardiovascular congénita, a partir de que idades devemos estar atentos à saúde do nosso coração?
VG | A presença de história familiar de doença cardiovascular precoce deve motivar especial atenção sobre os descendentes. A presença de doenças associadas com destaque para a diabetes, a obesidade e o consumo de tabaco, também deve ser um aspeto de cuidado desde cedo. Para quem não apresente um perfil de risco cardiovascular muito elevado, essa preocupação deve ocorrer a partir dos 40 anos (um pouco mais tarde no caso das mulheres) e de tal modo é assim que as tabelas de risco cardiovascular são construídas com amostras de população a partir dessa idade.

 

JMGP | Que tipo de técnicas/métodos de diagnóstico se utilizam em Imagiologia? Quais as vantagens e os objetivos de cada uma?
VG | A avaliação anatómica do coração é realizada sobretudo através de ecocardiografia. Neste exame é possível avaliar morfologicamente as válvulas, o músculo cardíaco e a sua função. Uma definição morfológica e funcional mais rigorosa pode ser feita através da ressonância magnética. A angio-TAC (angiografia por tomografia computorizada) permite visualizar de forma não invasiva as grandes artérias e as coronárias e, em casos particulares, as técnicas de Medicina Nuclear (cintigrafia) podem dar um contributo na avaliação funcional dos doentes.

 

JMGP | Na sua opinião, as preocupações com o estilo de vida têm vindo a aumentar? Em que faixas etárias?
VG | De uma forma geral, as preocupações do estilo de vida têm aumentado em praticamente todas as idades. No que respeita ao exercício, no meu tempo de faculdade começaram a surgir as primeiras pessoas que ousavam correr em público, em plena rua, fora dos estádios ou em lugares específicos. Hoje, essa prática atinge milhares, em todas as idades e as zonas privilegiadas, como a zona ribeirinha de Lisboa, testemunham bem essa realidade. Por outro lado, os ginásios proliferaram e têm hoje milhares de inscritos e, genericamente, os participantes em modalidades desportivas têm vindo a crescer.

 

JMGP | A falta de médicos de família vivida por muitos portugueses pode ter influenciado o hábito de realizar rastreios ou esta é uma prática ainda pouco corrente?
VG | A utilidade real dos rastreios está por determinar em muitas áreas, o que não significa que não deva haver especial atenção aos principais indicadores de saúde, como ponto de partida para mais investigações, quando necessárias. Qualquer teste de diagnóstico deve ser interpretado no contexto específico da pessoa a que se aplica. Por exemplo, a realização de prova de esforço em jovens de 30 anos, exigida por muitas seguradoras como condição para a concessão de crédito bancário, é de uma inutilidade atroz pois se surgirem testes positivos nessa população de muito baixo risco, serão com alta probabilidade falsos-positivos. Em contrapartida, a presença de doença das coronárias só se revelará em prova de esforço se as lesões forem obstrutivas, o que não sucede durante um longo período de evolução, no qual há placas que se podem tornar instáveis e provocar situações agudas. Neste caso, por exemplo, a TAC das coronárias pode identificar doença das artérias em fase anterior, propiciando intervenção medicamentosa mais precoce. Como noutras situações, as atitudes devem sempre ser individualizadas.

 

JMGP | No futuro, quais serão os principais desafios na área do diagnóstico das doenças cardíacas?
VG | No que respeita à avaliação morfofuncional, já se chegou muito longe, sendo, todavia, de prever melhorias constantes das técnicas já existentes. Diria que, no caso da doença das coronárias, os principais desafios colocam-se na identificação do doente vulnerável, ou seja, saber quem e quando vai ter risco real de desenvolver uma síndroma coronária aguda. Um segundo desafio é de avaliar a previsibilidade de boa resposta a tratamentos. Por fim, a identificação dos doentes em risco de morte súbita. Nas ultimas décadas fizeram-se muitos progressos, mas há ainda um longo caminho a percorrer.

 

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