Jornal Médico

Apneia do sono e doenças cardiovasculares: que relação existe?

Um estudo realizado na consulta de Patologia do Sono do Centro Hospitalar Lisboa Norte permitiu concluir que, do conjunto de 305 doentes com síndrome de apneia do sono, um total de 60% apresentavam hipertensão arterial, 12% sofriam de enfarte e 11% de arritmias. Leia a entrevista com a pneumologista do CHLN e docente da Faculdade de Medicina de Lisboa, Prof.ª Doutora Paula Pinto, e descubra a ligação entre os transtornos do sono e as doenças cardíacas.

 

 

Jornal Médico Grande Público | O que é a apneia do sono?
Prof.ª Doutora Paula Pinto (PP)
| A síndrome de apneia do sono é uma situação caracterizada por paragens respiratórias que se repetem várias vezes ao longo da noite e que originam diminuição dos níveis de oxigénio no sangue e despertares. Estes levam a uma má qualidade do sono, que se pode traduzir em hipersonolência durante o dia, podendo o doente adormecer com facilidade mesmo a conduzir ou no local de trabalho.

 

JMGP | Quais os principais sintomas associados a esta doença?
PP
| Os doentes com síndrome de apneia do sono são frequentemente obesos, com um ressonar muito intenso, com pausas respiratórias visualizadas durante o sono, sensação de sono não reparador (referem que “acordam mais cansados do que quando se deitaram”) e hipersonolência durante as atividades diárias e muito frequentemente apresentam também doenças cardíacas associadas.

 

JMGP | O que é que podemos fazer para evitar o aparecimento deste tipo de doenças?
PP | A síndrome de apneia do sono afeta preferencialmente indivíduos do sexo masculino de meia-idade, sendo a maioria obesos. Nas mulheres, ocorre mais frequentemente na pós-menopausa. Têm sido ainda referidos outros fatores de risco para o aparecimento da doença, nomeadamente o consumo de álcool e de sedativos e distúrbios hormonais, como o hipotiroidismo. Assim, a adoção de estilos de vida saudáveis que incluem a perda de peso nos doentes obesos, a prática de exercício físico, a evicção de álcool, de tabaco e de sedativos, bem como o tratamento dos distúrbios hormonais reduz o risco de desenvolvimento de apneia do sono.

 

JMGP | Na sua opinião, a maioria dos portugueses está bem informado/esclarecido sobre estas doença?
PP | Ainda existe algum desconhecimento relativamente a esta patologia, embora a importância que esta doença tem vindo a adquirir entre a população tem aumentado significativamente nos últimos anos. É habitual termos alguém conhecido com apneia do sono no nosso círculo de familiares ou amigos.


 
JMGP | Como é que esse conhecimento se relaciona com o subdiagnóstico existente?
PP | A maior consciencialização sobre a doença e dos seus riscos por parte da população tem levado a uma maior procura de consultas médicas em centros de medicina do sono. Desta forma, é necessário que as autoridades de saúde aumentem os recursos necessários (humanos e técnicos) para diagnosticar e tratar atempadamente esta doença, porque a apneia do sono é tratável. O tratamento é muito eficaz e consiste na utilização de um ventilador, designado por CPAP e que funciona através de uma máscara que se aplica no nariz durante a noite e que fornece ar a uma pressão contínua, impedindo que as vias respiratórias fechem, não ocorrendo assim as paragens da respiração. Desta forma, com o CPAP a pessoa respira normalmente durante a noite, permitindo um sono reparador levando ao desaparecimento da hipersonolência diurna e diminuindo grandemente o risco de doenças cardiovasculares.

 

JMGP | De que forma é que a apneia do sono e as doenças cardíacas se podem associar?
PP | A redução dos níveis noturnos de oxigénio no sangue pode levar a um aumento do risco de doenças cardiovasculares, como hipertensão arterial, enfarte e arritmias, tendo estas sido apontadas como responsáveis pelo aumento da mortalidade observada nestes doentes. Existe um padrão circadiário de morte súbita na síndrome de apneia do sono, tendo os doentes com esta patologia um pico de morte de causa cardíaca durante as horas de sono, entre a meia-noite e as seis da manhã, contrariamente aos indivíduos sem síndrome de apneia do sono, em que o pico de morte de causa cardíaca ocorre entre as seis da manhã e o meio-dia.
Num estudo realizado na consulta de Patologia do Sono do Centro Hospitalar Lisboa Norte (CHLN), verificou-se que em 305 doentes com síndrome de apneia do sono, 60% dos mesmos apresentavam hipertensão arterial, 12% sofriam de enfarte e 11% de arritmias.

 

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