Jornal Médico

“Não importa se não nasceste para o desporto, desde que o pratiques com o coração”
DATA
24/05/2017 15:10:00
AUTOR
Prof. Doutor Manuel Oliveira Carrageta - Presidente da Fundação Portuguesa de Cardiologia
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“Não importa se não nasceste para o desporto, desde que o pratiques com o coração”

A importância das doenças cardiovasculares é, em pleno ano de 2017, indubitável e os mais recentes dados comprovam o seu peso na população portuguesa: de um total de 105 mil mortes ocorridas durante o ano passado, cerca de 35 mil foram consequência de patologia do foro cardiovascular.

A tendência dominante dos últimos anos demonstra uma ligeira redução da taxa de mortalidade devido a acidentes vasculares cerebrais e a enfartes agudos do miocárdio. Houve, por outro lado, um aumento dos casos de insuficiência cardíaca e de fibrilhação auricular.

Na edição deste ano, a iniciativa “Maio, mês do coração” tem como tema central “O coração no desporto”. Os estudos indicam que Portugal é o país da União Europeia com níveis mais baixos de prática desportiva, possivelmente por ainda não ter assumido a forte relação existente entre o exercício, a saúde e o bem-estar,

É certo que no tempo dos nossos avós poucos frequentavam ginásios ou faziam marchas diárias nos tempos livres, mas a sua vida ativa era preenchida por maior esforço físico, numa realidade mais agrícola.

Sabemos que o progresso tecnológico, que trouxe o advento da automação, do computador e dos transportes alterou para sempre o estilo de vida das populações, que se tornaram sedentárias. Também os tempos livres das crianças e jovens se prendem mais à tecnologia, através do computador e da televisão, do que a brincadeiras próprias da sua idade, mais ligadas ao desporto e ao ar livre, o que justifica a inevitável epidemia de obesidade infantil que grassa no nosso país.

A atividade física regular ajuda a controlar o peso e a aumentar os níveis de saúde do aparelho cardiovascular, dos pulmões e do aparelho músculo-esquelético. Costuma mesmo dizer-se que se os benefícios do exercício pudessem ser adquiridos sob a forma de comprimidos seria certamente o medicamento mais consumido de todos os tempos.

A atividade física regular reduz o risco de ataques cardíacos em mais de 30%, um benefício que pode ser comparável, por exemplo, àquele que é obtido com a terapêutica redutora do colesterol. Por outro lado, a inatividade física confere um risco semelhante ao da obesidade e do tabagismo.

Praticar exercício é uma das medidas que aumenta o colesterol HDL: tendo em conta a relação inversa entre os níveis de colesterol HDL e o risco de doença cardiovascular, isto é, quanto maior for o nível de colesterol HDL menor será o risco de ataque cardíaco. É também um dos métodos mais eficazes para promover a descida da pressão arterial, particularmente em indivíduos com valores pouco elevados. Estima-se que a prática regular de atividade física aeróbia reduza a pressão arterial sistólica, em média, cerca de 10 mmHg e a diastólica em 5 mmHg, o que é suficiente para normalizar os valores da tensão arterial em grande parte dos casos.

Em muitos indivíduos, o excesso de peso e obesidade devem-se mais à inatividade física do que aos excessos alimentares. Ações simples como andar a pé cerca de um quilómetro e meio ‘queimam’ cerca de 100 calorias. O aumento de peso é causado pelo depósito de gordura, resultante do excesso de calorias ingeridas. O ganho ou perda de um quilograma de peso corporal equivale a aproximadamente 7.000 calorias. Isto significa que basta um ligeiro défice alimentar de 100 calorias por dia ou um gasto extra também diário de 100 calorias para que, ao fim de pouco mais de dois meses, se perder um quilograma de peso corporal.

A atividade física aumenta a sensibilidade dos tecidos periféricos à insulina, o que melhora todo o metabolismo da glicose que está profundamente perturbado na diabetes. Vários estudos demonstram que a atividade física diminui a ansiedade e a depressão, promovendo a sensação de bem-estar. Está ainda estimado que, em média, a uma hora de atividade física corresponde um ganho de duas horas de aumento da esperança de vida. Existe, atualmente, evidência clara de que a sua prática retarda o processo de envelhecimento, sendo uma das poucas medidas eficazes, a par de uma alimentação moderada (restrição calórica), a propiciar um aumento não só da longevidade como da qualidade de vida.

À luz dos conhecimentos científicos atuais deve ser cada vez mais fácil persuadir o Governo e a comunidade em geral para a importância da prevenção cardiovascular. Gastar dinheiro em prevenção deve ser cada vez mais percebido não como uma despesa mas antes como um investimento altamente rentável.

Sem dúvida que a prevenção é um dos caminhos pelo qual o Serviço Nacional de Saúde (SNS) deverá enveredar, não só para evitar o sofrimento humano causado pela doença, como para reduzir os custos crescentes das novas tecnologias que desequilibram o orçamento da saúde.

No momento, em que o nosso SNS enfrenta grandes dificuldades de financiamento, não podemos deixar de lembrar que é indispensável dar toda a ênfase aos cuidados preventivos, baseados nomeadamente na área da Medicina Geral e Familiar, que deverá constituir a parte nuclear do nosso sistema de saúde. De outro modo, o sistema inclinar-se-á cada vez mais para os cuidados secundários, com o uso e até o risco de abuso das novas e dispendiosas, embora indispensáveis tecnologias, que podem, numa época de profunda crise económica, conduzir a uma política indesejável de contenção e até racionamento de custos.

De acordo com a Organização Mundial de Saúde, cada indivíduo deve participar nas decisões que lhe dizem respeito, tornando-se deste modo responsável pela sua própria saúde. Face à situação atual, a Fundação Portuguesa de Cardiologia apela a que todos coloquem a sua saúde, nas prioridades da sua vida pessoal, adotando estilos de vida saudáveis. Só deste modo será possível alcançar o importante objetivo de melhorar a saúde e qualidade de vida dos nossos concidadãos.

Neste mês de maio, a Fundação Portuguesa de Cardiologia recomenda a todos os cidadãos a prática de atividade física de intensidade moderada meia hora por dia, pelo menos cinco dias por semana, para reduzir o risco de doença cardíaca. Basta para isso, por exemplo, andar meia hora a pé por dia. Em alternativa, “não importa se não nasceste para o desporto, desde que o pratiques com o coração”.

 

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