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“Se o médico assumisse o controlo da dor como um dos indicadores prioritários, também a dor se tornaria prioritária”
DATA
19/12/2016 16:08:26
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“Se o médico assumisse o controlo da dor como um dos indicadores prioritários, também a dor se tornaria prioritária”

Ana Pedro, Coordenadora da Unidade de Dor do Hospital Prof. Doutor Fernando Fonseca e Presidente da Direção da Associação Portuguesa para o Estudo da Dor (APEC), em entrevista ao Jornal Médico Grande Público: “a cronicidade das doenças degenerativas da coluna ou osteoarticulares fragiliza o doente, isolando-o social e familiarmente, podendo até gerar estados de ansiedade e de depressão pela falta de soluções”.

JORNAL MÉDICO GRANDE PÚBLICO (JMGP) | Na sua opinião, fala-se muito ou pouco de dor crónica em Portugal, tendo em conta o estado de saúde dos portugueses?

Ana Pedro (AP) | Tendo em consideração que a dor é um dos principais motivos de consulta [MGF ou urgência], e considerando que os estudos em Portugal demonstram que três em cada dez doentes sofrem de dor crónica, nomeadamente dor crónica não controlada, efetivamente falamos pouco em relação a esta temática.

JMGP | Considera que existe aceitação em torno de uma pessoa com dor crónica, um sofrimento que é, digamos, “invisível” para os demais? Quais as implicações psicológicas para a vida do doente originadas pela descrença dos outros atores que o rodeiam (cônjuges, filhos, pais, entidade patronal, etc.)?

AP | A maior parte dos quadros de doença relacionam-se com a dor aguda. Depois de ser feito o diagnóstico e o respetivo tratamento é esperada uma resolução definitiva do problema. Generica- mente, é esta a ideia que as pessoas associam à dor. Relativamente à dor crónica, particularmente no que concerne às doenças degenerativas, nem sempre é possível resolver o problema de base, apesar de este estar identificado. Há outros casos em que não é possível esclarecer o quadro de dor ou, mesmo que este esteja identificado, não é possível controlá-lo, apenas contornar o pro- blema. A cronicidade das doenças degenerativas da coluna ou osteoarticulares fragiliza o doente, isolando-o social e familiarmente, podendo até gerar estados de ansiedade e de depressão pela falta de soluções. A partir de certa altura, as pessoas perguntam se o doente está melhor e, não havendo melhorias, é o próprio que opta por não se queixar. É uma situação longa que, apesar de ter um tratamento associado, não tem novidades.

JMGP | Estima-se que 30% da população portuguesa sofra de dor crónica. Quem são estes doentes? Trabalhadores ou aposentados? Mais homens ou mulheres? Conhecemos a origem desta dor em uns e outros?

AP | No geral, está estudado que a dor é mais frequente nas mulheres e que a sua prevalência vai aumentando com o avançar da idade: quanto mais idade, maior a dor sentida. Tudo isto já foi docu- mentado no estudo do Prof. Doutor Castro Lopes, no qual a maior parte dos problemas dizem respeito a doença degenerativa, nomeadamente da coluna, como a osteoarticular. Quando a dor não é tratada e/ou controlada pode haver uma antecipação de situações de aposentação, por exemplo.

JMGP | Vamos a contas. Dados recentes indicam que o impacto socioeconómico deste problema [dor crónica] é de cerca de 2.000 milhões de euros anuais, um custo que atinge os 4,6 mil milhões de euros quando somados os gastos com incapacidades temporárias, baixas médicas e reformas antecipadas. Comparativamente, quanto é gasto em termos de investimento na prevenção?

AP | Penso que não existem estudos que façam esta comparação. No geral, e daquilo que conhecemos, pouco tem sido feito para prevenir quadros degenerativos ou manutenção de vida ativa ou, pelo menos, não tem sido suficiente. Cada vez mais é necessário trabalhar no sentido de manter a atividade física do doente, de forma adequada e que promova o controlo da dor. Não podemos deixar evoluir situações controláveis, como as doenças degenerativas articulares. Precisamos investir na prevenção do aparecimento de complicações, com correção postural e exercício físico, enfim, medidas de higiene de vida.

JMGP | Qual poderá ser o papel das empresas na defesa da saúde dos seus colaboradores?

AP | Um papel de consciencialização da importância da ergonomia no local de trabalho, adequando-o à correção postural do doente em questões como a altura das cadeiras, computadores e mesas, incentivando à prática de períodos de descanso nos quais o colaborador possa fazer alongamentos ou alternar posições e ritmos (ora de esforço, ora de descanso), conforme trabalha mais tempo sentado ou de pé. Tem de haver uma maior reorientação do tipo de atividades do colaborador em relação às suas necessidades e limitações. Existe, por vezes, pouca plasticidade por parte das entidades empregadoras em adaptar o local de trabalho e as atividades desenvolvidas às necessidades e limitações do funcionário, para que este continue a ser um elemento ativo. As pessoas esforçam-se, apesar das dificuldades, a as empresas acabam por revelar intransigência e falta compromisso. O esforço do colaborador acaba por não ser reconhecido.

JMGP | Qual o estado da arte do tratamento da dor? Comparativamente com o resto da Europa, considera que os profissionais portugueses estão tão bem preparados?

AP | Tem havido, nos últimos anos, uma grande evolução no tratamento da dor e Portugal tem acompanhado esta evolução. Apesar do muito que já foi feito, é preciso fazer mais. Não é muito fácil estabelecer uma comparação direta com outros profissionais porque tudo é diferente: a forma de trabalhar, a formação profissional, a própria fase de evolução e até mesmo organizacionalmente. É mais fácil perceber e comparar o controlo da dor em cada um dos países. Podemos ter profissionais muito diferenciados na sua formação e ter uma camada da população que precisa de ser tratada, mas o mais importante é conhecer a acessibilidade do doente aos tratamentos. Importa que, cada vez mais, seja divulgado o trabalho das unidades de dor em Portugal e que sejam disponibilizados meios que lhes permitam trabalhar de forma diferenciada, pois nem sempre são reconhecidas pelas instituições como um ativo tão importante como deveriam ser. As prioridades das instituições públicas estão, frequentemente, na cirurgia, nos blocos [operatórios], nas unidades de cuidados intensivos, nas urgências, noutro tipo de tratamentos médicos, etc.. Isto dificulta o desenvolvimento do trabalho e a acessibilidade do doente ao tratamento. Se as unidades não tiverem resposta, o doente não acede. O tratamento da dor é feito por todos os profissionais de saúde e, por isso, os médicos precisam de ter uma grande formação, não apenas aqueles que são especialistas no tratamento da dor crónica, mas também todos os médicos de família e até médicos em geral.

JMGP | Portugal está ao nível de outros países em áreas como o controlo da dor e a acessibilidade do doente ao tratamento?

AP | Há estudos epidemiológicos que demonstram a avaliação do controlo da dor em cada um dos países e, há uns anos, uma dessas análises englobou Portugal e fez essa mesma comparação, mas penso que está desatualizada e que precisamos de voltar a fazê-la.

JMGP | O que é que tem sido feito por parte das entidades governamentais para inovar neste setor, nomeadamente nas áreas de esclarecimento e de tratamento? O que é que ainda pode e deve ser feito?

AP | Existe um Programa Nacional de Controlo da Dor da Direção-Geral da Saúde que contempla uma série de ações e do qual a APED faz parte. Este programa prevê: a criação e distribuição de circulares informativas, nomeadamente em relação à comparticipação dos fármacos opioides que são utilizados no tratamento da dor crónica, seja ela oncológica ou não; a elaboração de normas para áreas do tratamento da dor em Pediatria e no Idoso, entre outras. Tudo isto aumenta muito a acessibilidade dos doentes aos tratamentos e o esclarecimento dos médicos.

JMGP | Existem formas claras de combater a crescente incapacidade trazida pela dor crónica?

AP | O primeiro passo é a consciencialização de que a dor existe. Os médicos de família não têm a dor como um dos indicadores das suas consultas: têm o controlo da tensão [arterial] e da diabetes, mas a dor e o seu controlo, sendo a queixa que mais frequentemente “leva” o doente à consulta com o seu médico de família, não é um dos indicadores. Integrá-lo na consulta era uma forma de tornar muito mais visível o problema e fazer com que se pudesse estar mais consciente da necessidade de controlá-lo.

JMGP | Visto por esse prisma, qual deveria ser a abordagem do médico de família na consulta?

AP | O especialista tem esta ideia presente, mas depois o doente é avaliado por outros indicadores que não a dor. Ou seja, na mesma consulta o doente fala-lhe da dor e ele [médico] vai ter de dar atenção a essa queixa, fazer a avaliação, pedir exames complementares de diagnóstico e de terapêutica. Vai ter de tomar em consideração outros indicadores como a diabetes, a hipertensão, o controlo do colesterol, etc.. Se o médico assumisse o controlo da dor como um dos indicadores prioritários, também a dor se tornaria prioritária.

JMGP | Mas a escala de dor não é uma das ferramentas das quais o médico de família dispõe?

AP | Faz parte, mas não é um indicador como a diabetes ou a hipertensão. É um fator que se acrescenta à consulta e que não é tão visível quando comparado com os restantes.

JMGP | Quais considera serem os sinais de alerta a que os médicos de família devem estar atentos?

AP | A dor é um sinal de alerta em situações agudas, ou seja, sempre que existe um quadro de dor nós temos que tentar esclarecê-lo. Se é uma situação nova pode levar a um diagnóstico de algo que é urgente. Portanto, a dor em si mesma é um sinal de alerta, sobretudo em contextos agudos. Uma dor crónica, ou seja, que já foi estudada, esclarecida e que permanece ao fim de seis meses ou um ano, já não é um sinal de alerta, torna-se uma doença per se. Não quer dizer que o doente que se queixa de dor há seis meses não tenha de ser avaliado por nunca o ter sido antes. Mas, uma vez esclarecido o quadro, partimos para uma situação em que sabemos que temos de controlar a dor e fazer tudo o que estiver ao nosso alcance.

JMGP | De que forma deve ser feita articulação com especialistas? E que especialistas?

AP |
Depende. Há muitas situações que podem ser controladas pelo médico de família e outras precisam de ser orientadas para especialidades mais específicas. Quando o médico não consegue controlar a dor, temos que tentar com os fármacos e as ferramentas que temos disponíveis (nomeadamente Fisioterapia). Se, mesmo assim, não é possível controlar a dor, então o doente deve ser orientado para uma unidade de dor. O mesmo acontece em situações em que este necessita de tratamentos específicos na área da dor ou de outras especialidades que não estão ao alcance do médico de família.

JMGP | Assumiu recentemente a direção da APED. Quais são as prioridades do seu mandato?

AP | As prioridades deste mandato dizem respeito à organização e participação na formação de outros profissionais em parceria com outras sociedades e com faculdades. Vamos tentar ter um programa de pós-graduação organizado especificamente para a área da dor e fazer formação continuada. No que diz respeito ao público em geral, vamos trabalhar por uma maior consciencialização, informação e proximidade do doente em relação àquilo que é o seu papel no controlo da dor, tornando compreensível aquilo que [o doente] pode fazer para ajudar a controlar a sua dor.

JMGP | No que concerne à constituição da APED, que tipos de especialistas fazem parte?

AP |
A APED é uma associação científica que pretende trabalhar o tema da dor num contexto multidisciplinar. Tal como a dor precisa da atuação de vários especialistas para atingir resultado final satisfatório, também a APED tem de refletir essa visão. Além de ter médicos que trabalham nas unidades de dor, [a APED] dispõe ainda de especialistas de Fisiatria, Neurocirurgia, de Enfermagem, de Medicina Interna, de Oncologia, de Psicologia e investigadores das Ciências Básicas. Tentamos que a associação seja o mais pluralista possível porque a dor tem muitas facetas e por isso precisa da atuação de muitos especialistas. Cada um deles contribui para o papel de recuperação do doente. Não falamos apenas do controlo da dor, mas também da recuperação da funcionalidade e na recuperação do doente, muitas vezes, para a vida ativa, seja ela laboral ou não.

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