Jornal Médico Grande Público

Jesús Ponce: “Processos de aprovação mais céleres garantem mais inovação a Portugal”
DATA
27/12/2016 13:12:36
AUTOR
Cláudia Brito Marques
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Jesús Ponce: “Processos de aprovação mais céleres garantem mais inovação a Portugal”

Assume-se como um gestor de pessoas, porque acredita que o sucesso de uma empresa depende do sucesso dos seus colaboradores. Há um ano como country president da AstraZeneca Portugal, Jesús Ponce faz um balanço “muito positivo” do “intenso” trabalho até aqui realizado aos comandos da companhia. Em entrevista exclusiva ao nosso jornal, o responsável admite que “a resistência à mudança” é um dos grandes desafios quando se trabalha em Portugal e reforça a necessidade de processos de aprovação de produtos mais céleres para garantir “a implementação da tão desejada inovação” a nível nacional.

 

JORNAL MÉDICO | Está há cerca de um ano como country president da AstraZeneca (AZ) Portugal, após ter dirigido unidades de negócio em Espanha e liderado a marca global para a área cardiovascular da companhia. Como está a ser a adaptação ao mercado português e qual o impacto da sua experiência prévia no enfoque e visão estratégicos para o nosso país?
JESÚS PONCE | Certamente que o meu background tem contribuído para a forma como me tenho vindo a adaptar a Portugal. Por já ter tido a oportunidade de trabalhar em Portugal em 2009/2010, a minha adaptação foi relativamente rápida em termos de língua, cultura, ambiente e conhecimento do sistema de saúde. A mais-valia que trago na bagagem de experiências anteriores é, essencialmente, o conhecimento de realidades distintas, nomeadamente Espanha, que tem uma dimensão completamente diferente. Por outro lado, trago para a AZ Portugal a visão global da companhia. Ter trabalhado na área global da AZ permite-me ter uma visão alargada da companhia, em todas as suas áreas de atuação, não só na área comercial, mas também em Investigação e Desenvolvimento (I&D), nas áreas regulamentares, de fabrico, entre outras. Esta visão estratégica da companhia alargada é essencial para um alinhamento com as estratégias locais a desenvolver em Portugal.

JM | Que fatores socioeconómicos e culturais condicionam, em Portugal, a tomada de decisão na hora de implementar determinadas estratégias?
JP | Há vários. Mas, o principal é a carga de doenças-alvo das nossas terapêuticas. Doenças como a diabetes, que são uma pandemia, e que em Portugal tem uma prevalência das mais altas da Europa. Ou como a doença pulmonar obstrutiva crónica (DPOC) que tem, em Portugal, níveis elevados de subdiagnóstico.
Outro fator socioeconómico diz respeito aos constrangimentos orçamentais no âmbito de uma cultura de rigor europeia que todos estamos a viver. Há, ainda, um fator cultural que tenho mais facilidade em identificar por vir de fora e que é a resistência à mudança. Há que dizer que a mudança não é algo muito popular na sociedade portuguesa.
Conjugar a grande necessidade com recursos escassos, assim como com uma enorme necessidade de mudança é o eixo da nossa abordagem estratégica e atuação.

Relativamente ao SNS, penso que tem inúmeros pontos fortes, desde logo a cobertura universal, o ótimo desenvolvimento ao nível dos CSP e a excelente formação dos profissionais de saúde

JM | Essa é uma tarefa complicada...
JP | É uma tarefa apaixonante! Desafiante... Mas, possível! O que nos inspira no trabalho do dia a dia, enquanto companhia, é a necessidade real de fazer uma abordagem a esta carga de doença e aos portugueses que sofrem destas doenças, de uma forma eficiente, impactante e com ganhos tanto a curto como a longo prazo.

JM | Em que pilares assenta a estratégia da AZ Portugal?
JP | Somos uma companhia global, biofarmacêutica, orientada pela ciência para desafiar os limites e desenvolver medicamentos como meta. É por isso que acreditamos que com a nossa presença em Portugal podemos trazer mais-valias nas áreas terapêuticas em que trabalhamos.
Os três eixos/pilares da nossa estratégia são: a paixão pela ciência, o foco em três áreas terapêuticas fundamentais – cardiovascular/metabólica, respiratória e oncologia – e o foco nas pessoas.

JM | Ser um líder de pessoas é também uma forma de ter sucesso como gestor neste mercado?
JP | Acredito que o sucesso de uma empresa só é possível através do sucesso das pessoas que a compõem. Portanto, uma liderança com o foco nas pessoas é a forma para atingir o sucesso.

JM | Decerto que já teve oportunidade de fazer uma radiografia ao sistema de saúde português. Quais pensa serem os seus pontos mais críticos e as suas forças?
JP | Relativamente ao Serviço Nacional de Saúde (SNS), penso que tem inúmeros pontos fortes, desde logo a cobertura universal, o ótimo desenvolvimento ao nível dos cuidados de saúde primários (CSP) e a excelente formação dos profissionais de saúde.
É verdade que também existem muitos desafios e muitas áreas a necessitar de desenvolvimento, o que vai ser feito em sede de Orçamento de Estado, já publicado pelo Governo, o que mostra que as entidades governamentais já estão a trabalhar para responder a esses desafios.

JM | Como é a relação com as entidades governamentais e com a autoridade nacional do medicamento?
JP | A nossa relação é sempre num espírito de parceria. O nosso objetivo de trazer mais-valias para a população e para os doentes portugueses só é atingível num espírito de parceria, abertura, diálogo e colaboração. Essa é a nossa abordagem como empresa, que espalhamos como indústria – através da APIFARMA – e que está sempre presente em todas as nossas interações com as autoridades regulamentares.

JM | E a porta para essa parceria tem-se encontrado aberta?
JP | Temos tido muito boa recetividade. É certo que os condicionalismos socioeconómicos e orçamentais não ajudam e forçam-nos a todos a sermos criativos e eficientes na procura de soluções.

JM | Considera que a crise financeira tem sido uma ameaça ou uma oportunidade para a companhia em Portugal?
JP | Realmente, a crise forçou a tomada de decisões difíceis. Porém, no cômputo final, acredito que foi uma oportunidade para todos nós, na medida em que enquanto companhia procurámos ser mais eficientes e mais focados nas áreas em que estamos a trazer mais valor e garantir que estas áreas se mantêm eficientes, realinhando os recursos dentro das mesmas.

JM | Diz que os portugueses têm a “resistência à mudança” no seu ADN. E no que diz respeito à inovação?
JP | No plano da intenção, estamos todos alinhados na importância estratégica da inovação. Porém, na concretização dessa vontade, estamos a sofrer de atrasos na aprovação de produtos, situação que está a condicionar a implementação da tão desejada inovação em Portugal. No entanto, importa salientar que a autoridade nacional do medicamento (Infarmed) está à procura de soluções e que esta é uma prioridade de todos. Portanto, de intenção sim, mas na realidade ainda não chegámos lá...

JM | Em termos globais, no que tem a AZ vindo a trabalhar no âmbito de I&D?
JP | Em termos globais, nos últimos dois anos, a companhia tem vindo a reposicionar o seu foco terapêutico em três áreas terapêuticas-chave: cardiovascular/metabólica, respiratória e oncologia. A aposta tem sido não só nos produtos comercializados, mas também em termos do investimento em I&D que é feito nessas áreas para garantir que o pipeline futuro é um pipeline de sucesso.
No âmbito da cardiovascular/metabólica, já estamos presentes na trombose, aterosclerose, dislipidemia, hipertensão arterial (HTA), mas é para nós uma prioridade futura estarmos presentes na insuficiência cardíaca (IC). Na área metabólica, é para nós já uma realidade, mas também uma forte aposta futura estarmos muito presentes na diabetes – em todas as classes e abordagens terapêuticas –, mas também na doença renal crónica.
Na área respiratória, temos como prioridade absoluta a nível global manter a nossa liderança na asma, tanto com as terapêuticas atuais, como com o desenvolvimento de medicamentos biológicos, procurando manter a nossa posição de liderança na DPOC.
Na oncologia estamos já presentes em áreas como a mama e o pulmão, mas queremos garantir que a nossa presença futura é ainda mais forte nestas duas áreas, mas também no ovário e nas doenças hematológicas.

Acredito que o sucesso de uma empresa só é possível através do sucesso das pessoas que a compõem. Portanto, uma liderança com o foco nas pessoas é a forma para atingir o sucesso

JM | E a que corresponde essa aposta em termos de produtos em pipeline?
JP | No pipeline cardiovascular, queremos garantir o desenvolvimento do Brilique (ticagrelor) para novas indicações terapêuticas. Para já, este produto está indicado no tratamento da síndrome coronária aguda, mas estamos a avaliar possíveis novas indicações no âmbito do acidente vascular cerebral (AVC) e a desenvolver estudos com esta substância para os doentes diabéticos.
Na diabetes, temos um patamar de produtos vasto e estamos representados ao nível dos inibidores da DPP4 [Onglyza e Kombonglyze (saxagliptina e saxagliptina+metformina)], inibidores da SGLT2 [Forxiga e Xigduo (dapagliflozina e dapagliflozina+metformina)] e dos agonistas do recetor da GLP1 [Bydureon (exenatido)]. É nossa prioridade desenvolver todo o tipo de combinações entre estas substâncias, que possam trazer mais-valias.
Na área respiratória temos dois produtos fortes: o Symbicort (budesunida+formoterol) e a combinação fixa de LABA/LAMA DuaKlir (aclidínio+formoterol). Estamos a tentar impulsionar as terapêuticas biológicas, domínio em que teremos o benralizumab para a asma severa, através do tratamento dos eosinófilos.
No âmbito da oncologia, já estamos presentes na área do pulmão com o Iressa (gefitinib) e temos o Tagrisso (osimertinib) que é um TKI de 2ª geração para doentes com cancro do pulmão de não pequenas células metastático com mutação positiva de EGFR e T790M. São terapêuticas-alvo muito focadas em mutações específicas, para doentes específicos. Ainda no plano das terapêuticas-alvo, já estamos a tratar doentes com cancro do ovário com mutação BRCA 1 e BRCA 2, o que está a abrir o portfólio dos nossos produtos de reparação do ADN, como é o exemplo do Lynparza (olaparib).
Ainda na oncologia, estamos a desenvolver terapêuticas de imuno-oncologia, com produtos nossos, com o foco na combinação entre eles, para conseguirmos ganhos acrescidos.

JM | Que desafios coloca esta aposta clara na inovação terapêutica?
JP | O desafio principal é manter o nível de investimento em I&D, que é muito elevado e assim desejamos que se mantenha. Porque todos estes desenvolvimentos estão sustentados em grandes programas clínicos de fase III que precisam do investimento adequado.
Estamos orgulhosos de termos, na indústria farmacêutica, o maior ratio entre investimento e vendas. Em 2015, chegámos a ter um investimento global em I&D de seis mil milhões de dólares, em proporção face a vendas é de quase de 25% por ano. Manter este ratio de investimento é um enorme desafio.

JM | A responsabilidade social é uma prioridade da companhia?
JP | A nossa responsabilidade social engloba o compromisso com os doentes, mas também com a comunidade. Gostaria de destacar dois projetos específicos neste âmbito. O primeiro é o Young Health Program, o maior programa de responsabilidade social da AZ global, feito em parceria com a John Hopkins Bloomberg School of Public Health e que está a decorrer atualmente em 20 países. É um compromisso da AZ contribuir para que a população dos adolescentes (entre os 10 e os 12 anos) adote ou reforce hábitos saudáveis nesta etapa das suas vidas e para o futuro.
Na primeira parte do programa – desenvolvida entre 2013 e 2015 – fizemos uma primeira abordagem no sentido de reforçar o autoconhecimento e a autoestima desta população-alvo, sobretudo numa franja de adolescentes deprimidos e sem recursos. O objetivo é que estes adolescentes voltassem a ter ou criassem hábitos saudáveis para prevenir possíveis futuras doenças. A importância deste programa foi reconhecida internacionalmente com a UNICEF a selecionar, em 2014, o Young Health Program para participação no capítulo da prevenção das doenças não transmissíveis. Tendo em conta o sucesso que o programa tem vindo a ter, estamos a avaliar, em parceria com os Médicos do Mundo em Portugal, avançar para uma segunda fase do mesmo, desta feita com foco nas doenças não-comunicáveis.
A outra iniciativa de responsabilidade social corporativa que gostaria de salientar insere-se nos nossos projetos com a comunidade. Destaco o projeto Oeiras Solidariedade, em parceria com a Câmara Municipal de Oeiras, que consiste em colaborarmos com angariação de fundos, trocas de papel por comida, ações do Banco Alimentar, entre outras iniciativas solidárias.

JM | A AZ Portugal tem dado um impulso importante à Medicina Geral e Familiar (MGF) e aos jovens investigadores portugueses, através da Fundação AstraZeneca. Este é um caminho a prosseguir e porquê?
JP | Essa é, sem dúvida, uma área que é prioritária para nós, mas que estamos a avaliar e a redimensionar, perante as novas circunstâncias. No âmbito deste processo de reformulação, posso desde já avançar que a Fundação permanece, com foco em três áreas prioritárias: Investigação, em que pretendemos ser um parceiro independente e garante de investigação desenvolvida em Portugal; Formação; Apoio a programas na sociedade. Estas três áreas mantêm-se, mas num formato mais focado e eficiente.

JM | Que balanço faz deste ano à frente dos destinos da AZ Portugal?
JP | Faço um balanço muito positivo, na medida em que tem sido um ano muito produtivo. Cheio de aprendizagens, de progressos... Tem sido muito intenso. Temos procurado lançar as bases para alicerçar o futuro próximo, com lançamento de novos produtos, com as pessoas focadas em áreas prioritárias-chave e os recursos realinhados para essas áreas, de forma a garantir que o sucesso seja uma realidade no futuro.

JM | E como perspetiva esse futuro, numa perspetiva mais global, em termos de mercado do medicamento?
JP | O futuro de sucesso a que aspiramos está ligado a uma população e a doentes melhor tratados, com terapêuticas inovadoras que já estamos a comercializar e outras que já temos prontas para entrar no mercado. Estamos convictos de que se tratarmos os doentes melhor e mais cedo vamos adiar a progressão das doenças, o que quer dizer que também estamos a contribuir para o sucesso do sistema nacional de saúde e para a sua sustentabilidade.

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