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José Fragata: “O bom 'outcome' para um doente coronário tratado é o seu regresso à vida familiar e laboral”
DATA
03/02/2017 09:44:49
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Jornal Médico
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José Fragata: “O bom 'outcome' para um doente coronário tratado é o seu regresso à vida familiar e laboral”

Desde 2000 que a gestão do Serviço de Cirurgia Cardiotorácica do Hospital de Santa Marta – Centro Hospitalar de Lisboa Central – tem por base os outcomes obtidos, centrando-se no valor em saúde, conceito central para compreender a proposta da Conferência ICHOM (International Consortium for Health Outcomes Measurement), que irá realizar-se em Portugal nos próximos dias 10 e 11 de fevereiro. O Prof. Doutor José Fragata, diretor deste serviço, e hoje também responsável pela Área do Coração Vasos e Torax, esteve à conversa com o Jornal Médico e garantiu: “A Conferência ICHOM em Portugal pode marcar a agenda da Saúde e mudar a orientação das decisões dos políticos, priorizando a relação custo-benefício.”

Jornal Médico | O que é o que o levou a aderir a esta iniciativa?

José Fragata |No serviço que dirijo no Hospital de Santa Marta, desde há muito tempo que existe uma grande preocupação em fazer um registo cuidadoso dos outcomes em cirurgia, tanto na vertente das cardiopatias congénitas, como nas cardiopatias adquiridas. Estamos ligados a bases de dados internacionais e avaliamos a performance dos resultados, quer individualmente, quer globalmente. É esta a nossa prática desde o ano de 2000: gerimos o serviço clinicamente tendo em conta esses resultados. O conceito do ICHOM está centrado no conceito de valor em saúde. Isso traduzirá a “quantidade de saúde” que podemos comprar com cada euro que despendemos, baseado numa relação de custo-benefício. Em Saúde, a métrica tradicionalmente utilizada baseia-se nos indicadores hospitalares (número de consultas, dias de internamento ou número de operações realizadas, por exemplo), o que difere daquilo que é defendido pelo ICHOM. O objetivo é que não olhemos para atos médicos isolados, tais como consultas, operações ou cateterismos, mas olhemos para o resultado final de um doente tratado e cujo percurso não culmina com a “alta hospitalar”, mas sim com a inserção na sociedade. Acreditamos que o resultado final de um doente coronário tratado é, verdadeiramente, o seu próprio regresso à vida familiar e laboral. No Hospital de Santa Marta, mantemos cerca de 6 mil doentes operados em follow up, o que nos permite saber como se encontram no final de cada ano: a sua qualidade de vida, quantos faleceram ou quantos foram novamente submetidos a intervenções médicas ou cirúrgicas. Com base nesta atitude e na forma de trabalho tornou-se natural o nosso envolvimento na Conferência ICHOM em Portugal. Trata-se de um evento muito importante, sobretudo pelo seu conceito inovador.

JM | E qual poderá ser a principal diferença entre o atual e o sistema de gestão proposto pelo ICHOM?

JF | Hoje em dia, estamos muito focados em especialidades, tais como Cardiologia e a Cirurgia Cardíaca, bem como nos atos que realizamos em cada uma destas especialidades. Esta visão do Value in Health Care trazida pelo ICHOM é mais holística, demonstrando aquilo que é gasto e o respetivo benefício global adquirido. Tomando como exemplo o tratamento da doença coronária, e tendo em conta que existem três formas de resolver o problema (medicação, submissão dos doentes a cateterismo ou a intervenção cirúrgica), sabemos que, enquanto decisores de saúde, cuja função é gerir dinheiros públicos, será “indiferente” que o doente seja operado ou faça cateterismos de intervenção... Contudo, e ao fim de cinco anos, aquilo que se pretenderá saber é o número de doentes que tiveram de repetir estes mesmos procedimentos e quais os que regressaram à vida laboral, sem necessidade de mais intervenções.

JM | Considera que esta forma de gestão pode conduzir a poupanças? Acredita que é interessante para outros centros hospitalares?

JF | Sem dúvida. Mas se nem todos os serviços hospitalares registam ainda sistematicamente a   mortalidade e as complicações, à saída do serviço, é difícil de imaginar que sigam os doentes no seu regresso a casa. É por isso que afirmo que esta é uma metodologia será difícil de aplicar imediatamente. Vemos e ouvimos os decisores políticos a afirmar recorrentemente que “foram realizadas mais consultas, mais cateterismos, mais intervenções”, mas isso será tudo? Enquanto responsável em Saúde, aquilo que quero saber é quantos doentes foram tratados, quantos regressaram à vida ativa e voltaram a estar integrados na sociedade e na família a que pertencem.

JM | É possível que os hospitais aproximem a sua forma de gestão do conceito proposto pelo ICHOM, uma vez que vão estar reunidos os principais stakeholders da saúde a nível nacional e internacional?

JF | Seria importante que isso acontecesse, não em relação a todas as áreas da Saúde, mas em relação a algumas patologias com grande expressão, tais como a intervenção coronária, a substituição da articulação da anca, a substituição da articulação coxo femoral ou a diabetes. O conceito do ICHOM auxilia-nos na escolha dos procedimentos tendo em conta o seu impacto real.

JM | Estamos a falar de poupanças do erário público?

JF | Sim, mas a nível macroeconómico e não local. Para o Serviço Nacional de Saúde (SNS), que tem que gerir um orçamento pré-definido, esse valor tem de ser gasto em tratamentos que tenham impacto. Mas realizar mais e mais procedimentos não consiste, necessariamente, em fazer bem aos doentes.

JM | Numa altura em que quase diariamente se aborda o tema do financiamento do SNS, considera que esta conferência pode marcar a agenda da Saúde?

JF | Pode marcá-la e até mudar a orientação das decisões dos políticos, priorizando a relação custo-benefício.

JM | O Prof. vai estar presente na conferência sobre “Dados e gestão quotidiana dos hospitais em Portugal”. O que é que nos pode adiantar acerca desta apresentação?

JF | Na minha apresentação irei relatar a experiência do serviço. O Professor Pita Barros e eu próprio estamos presentemente a orientar uma tese de doutoramento sobre “relações de benefício-custo na cirurgia cardíaca no idoso”. O objetivo é apresentar os primeiros resultados de avaliação dessas relações de benefício-custo no nosso serviço cirúrgico. Posso assegurar-lhe que vale a pena operar doentes com mais de 65 anos, sendo a relação de custo benefício, de facto, boa. É claro que esta é uma análise simples. Precisamos de ver quais os grupos de doentes que terão maior benefício. Não se trata apenas de mais uma opinião, mas antes da apresentação de dados concretos da experiência do serviço.

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