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“Há um antes e um depois de 17 de junho. Aquilo que vi marcou-me e marcar-me-á para sempre”
DATA
25/09/2017 12:00:05
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Jornal Médico
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“Há um antes e um depois de 17 de junho. Aquilo que vi marcou-me e marcar-me-á para sempre”

Quando em 2011 assumiu a presidência da Administração Regional de Saúde do Centro (ARSC), José Tereso já conhecia bem a casa e os desafios da região. Homem do terreno, não nega a dureza dos incêndios que a 17 de junho deflagraram nos concelhos de Pedrógão Grande, Castanheira de Pera e Figueiró dos Vinhos, confirmando a viva voz que há um antes e um depois dos acontecimentos. Recebe, aos 69 anos, a equipa do Jornal Médico para uma entrevista na reta final do seu mandato.

 

JORNAL MÉDICO | Que tipo de “testemunho” lhe foi passado quando veio substituir João Pedro Pimentel? Quais eram as principais preocupações e/ou prioridades para a região centro?

José Tereso (JT) | Tenho o privilégio de ser funcionário da ARSC como é o Dr. João Pedro Pimentel. Ainda ontem estive aqui a falar com o Dr. Fernando Regateiro, seu antecessor. Na região centro trabalhamos em espírito de equipa com todos os parceiros, designadamente os conselhos de administração dos hospitais, os respetivos diretores clínicos, os diretores executivos dos agrupamentos de centros de saúde (ACES) e os presidentes dos conselhos clínicos e de saúde, sendo certo que preferimos o contato no terreno. É por isso que conhecemos quase palmo a palmo todo o território da região centro. Exerço a função de delegado de saúde desde 1993, altura em que foi publicado o decreto-lei que constituiu as administrações regionais de saúde (ARS) e a saúde pública. Já antes tinha sido presidente de uma administração de saúde distrital em Coimbra. Com as alterações de 1993 passei a ser diretor do Departamento de Saúde Pública e delegado de saúde regional. Desde essa altura que tenho estado ao serviço desta casa, com todos os conselhos de administração e ministérios.

 

JM | O que é que estava identificado como prioritário em 2011?

JT | Herdámos 34 protocolos para edificação de novas unidades de saúde familiar (USF) na região e temos vindo a cumprir todos esses acordos com as autarquias, bem como a aumentar o número de novos protocolos. Alguns dependem de fundos comunitários e de candidaturas. Tivemos algumas dificuldades, as mesmas que todo o país atravessou e continua a atravessar, mas temos vindo a desenvolver todos aqueles que estavam [projetados] e ainda alguns que temos em mente, designadamente o Centro de Saúde Fernão de Magalhães, uma prioridade desde 1992 para a cidade de Coimbra, reconhecidamente degradado e que em breve iniciará o seu processo de construção.

 

JM | Que perfil populacional podemos traçar a partir dos dados da taxa de mortalidade, que apontam como principais causas de morte as doenças cardio e cerebrovasculares? Que tipo de atuação poderá travar estes valores?

JT | Como sabe, esta é uma população envelhecida. E, felizmente, temos vindo a implementar programas prioritários para dar resposta a essas situações. Para além disso, temos a maior rede de unidade de cuidados continuados integrados (UCCI) com cerca de 2.300 camas. Irá entrar em funcionamento uma outra, na área de Saúde Mental. Já tínhamos tido duas propostas de projetos-piloto que não foram possíveis concretizar, mas estamos agora a ser compensados com a abertura de 30 vagas para unidades de sócio ocupacional, oito vagas de equipa de apoio domiciliário e oito vagas de residência de apoio moderado.

 

JM | O problema do alcoolismo é recorrente?

JT | Vamos ter uma reunião sobre dependências, nomeadamente a infodependência – uma realidade com impacto crescente nos dias de hoje –, referente ao vício do jogo e todos os vícios existentes na sociedade atual. É uma realidade que vamos combatendo. Temos desenvolvido projetos inovadores. Com o projeto das “Noites saudáveis” provámos ser possível as pessoas divertirem-se de uma forma mais saudável.

 

JM | Quando olha para o seu mandato vê um antes e um depois de 17 de junho?

JT | Sim. Aquilo que vi marcou-me e marcar-me-á sempre, até do ponto de vista pessoal. Sou um homem do terreno e percorri todas as aldeias e circunstâncias, acompanhado por delegados de saúde (onde se inclui o Dr. João Pedro Pimentel), Dr. Morais (a partir do grupo de crise), todos os clínicos, os presidentes de câmara, de juntas de freguesia, os CTT, o Ministério da Administração Interna (MAI), toda a sociedade... Trabalhámos em conjunto, nas dificuldades decorrentes de uma catástrofe desta natureza, tentando manter uma boa coordenação [das operações] na saúde, através do senhor ministro e do senhor secretário de Estado. Conseguimos monitorizar permanentemente tudo o que está a acontecer no terreno, com a elaboração de relatórios diários para a tutela, a fim de sabermos a evolução dos doentes. Entramos agora numa nova fase. O rescaldo de um incêndio também se traduz no rescaldo do seu impacto nas populações.

 

JM | Qual foi a sua maior preocupação quando se reuniu, a 4 de julho, com as instituições de saúde na sede da Câmara Municipal para redefinir estratégias?

JT | Acompanhar a par e passo aquilo que estava a acontecer no terreno, nomeadamente com as nossas unidades de saúde, em conjunto com a Unidade de Cuidados de Saúde Mental Comunitária de Leiria Norte, que é feita pelo CHUC, na pessoa da Dr.ª Ana Araújo, que percorreu permanentemente o terreno devidamente georreferenciado. Não queremos deixar ninguém sem assistência clínica, psiquiátrica ou psicológica. Também foi de grande importância o trabalho das unidades de cuidados na comunidade (UCC), particularmente de Pera e de Figueiró dos Vinhos que, neste momento, continuam a trabalhar junto da população escolar para não deixar ninguém fora da intervenção dos serviços de saúde, mediante a disponibilidade que os serviços de saúde têm para receber todas as pessoas. Fiz uma recomendação inicial para que os utentes se dirigissem ao seu médico de família, com o intuito de realizar um diagnóstico atual da sua situação clínica e assim poderem ser devidamente encaminhados/referenciados.

 

JM | Das instituições presentes nessa reunião (ARSC, CHUC, DGS, ACSS, SPMS, INSA, Infarmed, IPST, INEM e Reforma dos Cuidados Continuados Integrados) considerou que todos tinham a mesma perspetiva do assunto? As opiniões divergiam muito? Qual era a perspetiva?

JT | Como em qualquer reunião havia opiniões diferentes, procurámos uma conclusão e que ela fosse consensual. Gosto muito de consensos, procuro-os sempre. Não sou extremista e gosto de trabalhar com todos com frontalidade e transparência.

 

JM | E utilizou essa frontalidade para aferir o modo de atuação no terreno, tentando perceber se houve ou não negligência?

JT | Não usaria a palavra negligência. Na minha opinião não houve. Pode é não ter havido a clarificação de alguma situação… Foi por isso que mantivemos, desde o primeiro minuto, reuniões permanentes nos três centros de saúde com as câmaras municipais, juntas de freguesia, médicos, enfermeiros, psicólogos, fisioterapeutas, nutricionistas, com toda a gente no terreno a procurar um caminho que tivesse a participação ativa de todos os intervenientes.

 

JM | Que dificuldades persistem até hoje?

JT | Vamos reunir brevemente com a comissão nacional de acompanhamento desta situação. As conclusões vão, muito provavelmente, ser transmitidas a outras zonas que enfrentem problemas semelhantes. Estamos permanentemente a adaptar-nos conforme a realidade... Neste momento, aquilo que sabemos é que, durante os próximos anos, vamos intervir diretamente junto das populações para lhes emprestar o melhor: a solidariedade das pessoas, a sua disponibilidade para dar assistência. Não tem faltado apoio de toda a sociedade, desde a União das Misericórdias Portuguesas em articulação com o Ministério da Saúde, a Cruz Vermelha Portuguesa, a Fundação Calouste Gulbenkian, os Médicos de Mundo em Castanheira de Pera, e de outras organizações e sugestões pessoais que vão surgindo no dia a dia e que vêm acrescentar alguma coisa.

 

JM | Qual é o rescaldo atual?

JT | De acordo com a informação que foi enviada hoje para o Ministério, há três doentes nos CHUC, dois no serviço de queimados e de cirurgia plástica reconstrutiva, uma doente internada na Ortopedia e ainda apoiamos dois doentes que vieram (do incêndio) de Abrantes e um bombeiro transferido para a Cova da Beira; há um doente que permanece na unidade de queimados do Centro Hospitalar de Lisboa Norte, cuja situação é estável, com uma melhoria lenta, mas consistente. Estão dois doentes no Hospital de Santa Maria provenientes [dos incêndios] de Oleiros e de Castelo Branco, um doente do Hospital de São João que fez a última cirurgia há pouco tempo e cuja situação é estável e um outro que está em Espanha, Valência. Nas unidades de cuidados continuados temos pessoas que estão a ser apoiadas pelas Misericórdias e IPSS, designadamente de Pedrogão Grande e de Figueiró dos Vinhos. Também na Unidade de Cuidados Continuados do Montepio, no Montijo, há um doente que está a fazer a sua terapêutica no local.

 

JM | Falava nos projetos inovadores a pensar no futuro destas populações afetadas. Que resposta está pensada no plano e futuro? Quais são os objetivos?

JT | Com os recentes episódios dos incêndios ocorridos na região tornou-se necessária uma atuação concertada que se desenvolve em três eixos principais: ambiental, morbilidade e de melhoria contínua. No primeiro, haverá o estabelecimento de uma parceria com o Instituto Nacional Doutor Ricardo Jorge (INSA), na qual vai ser analisado o impacto dos recentes acontecimentos nas populações afetadas no que diz respeito ao ar, água, alimentos e solo. Vão ser abrangidos os três centros de saúde: Pedrógão Grande, Figueiró dos Vinhos e Castanheira de Pera. Se se considerar pertinente, o projeto será alargado a outras unidades. O segundo eixo é o da morbilidade, no âmbito do qual haverá inquéritos às populações, um estudo respiratório e estudos comparativos através do sistema clínico e de todos os sistemas de informação comparados semanalmente. Estará disponível um técnico, pelo período de dois anos, para a realização de espirometrias e numa fase final para compreender alterações, se existem ou não mais patologias respiratórias devido aos fumos e poeiras decorrentes dos incêndios. Posteriormente, o INSA vai levar a cabo, numa amostra mais reduzida, um estudo sobretudo de sangue e saliva, dirigido especificamente a tóxicos que poderão ter resultado de combustões graves. Por fim, o eixo da morbilidade e de melhoria contínua da coesão social: através de um painel de Delphi constituído por peritos e informadores-chave, para aferir se a nossa atuação foi a mais correta, gestão de expectativas das populações, etc. O painel será desenvolvido por etapas, com respostas a inquéritos consecutivos, que irão incluir 72 pessoas, do poder local às forças vivas da sociedade (bombeiros, segurança social, farmácias, vítimas, entre outros).

 

JM | Para quando está pensada a publicação dos resultados?

JT | Vai depender da articulação da monitorização dos nossos resultados nos nossos laboratórios com a monitorização dos resultados do INSA. Vai durar dois anos e o relatório final deverá ser elaborado em outubro de 2019.

 

JM | Perante o cenário de abertura de vagas em diversos locais de todo o país identificados como sendo carenciados, qual é a perspetiva para a região centro no que diz respeito à fixação de médicos? É um problema que está devidamente identificado?

JT | Temos vindo a colocar, a nível superior, as nossas necessidades que são definidas pela Administração Central do Sistema de Saúde (ACSS) juntamente com o Ministério da Saúde. Foram-nos atribuídas, neste concurso que está a decorrer, 16 vagas de Medicina Geral e Familiar (MGF) o que, na nossa perspetiva, fica aquém das necessidades. Esta é uma região muito vasta sob o ponto de vista geográfico; só num concelho tenho 25 extensões de saúde. É difícil dar apoio em termos de MGF de proximidade. Estamos a falar de uma população com 1 milhão e 750 mil habitantes, não esquecendo o facto de termos “recebido” da região Norte, o concelho de Vila Nova de Foz Côa, que foi integrado na ULS da Guarda, e que veio trazer para a região mais um serviço de urgência básico e uma unidade de cuidados continuados. Por outro lado, o doente já pode escolher onde quer ser atendido.

 

JM | Sente reciprocidade por parte do Ministério da Saúde nas indicações que vai transmitindo? Há abertura e diálogo?

JT | Completamente! Estamos sintonizados. Há diálogo e temos transmitindo a quem de direito que são necessários mais especialistas de MGF. Quem define a política nacional é o Ministério da Saúde, mas nós também cumprimos a nossa obrigação que é defender a região Centro.

 

JM | Quantos mais especialistas seriam necessários?

JT | Não sei quantificar porque o nosso objetivo principal é multiplicar o número de USF e de UCC na região. Temos 56 UCC e 66 USF. Só este ano já abriram três USF na região Centro.

 

JM | Crê que esta é uma forma de dar continuidade à reforma dos cuidados de saúde primários que aparentemente tem sofrido algum abrandamento? Ou não nota esse abrandamento na região centro?

JT | Não, porque nós temos contacto com a Comissão Nacional para a Reforma dos Cuidados de Saúde Primários, estamos sintonizados relativamente àquilo que são as necessidades sentidas e reais e aquelas que ultrapassam esta questão. Todos nós reivindicamos sempre mais.

 

JM | Considera que o projeto “Conhecer Saúde”, do Departamento de Saúde Pública e Planeamento da ARSC, iniciado em 2004, vem ao encontro da evolução natural do papel do doente e do apoio – e não dependência – do seu médico de família? Na sua opinião, o projeto está a gerar os resultados esperados na população da região do centro?

JT | Fico feliz por relembrar o projeto “Conhecer Saúde” de 2004. Éramos três profissionais a trabalhar nesse projeto… Acho que foi inovador e que hoje está a atualizar-se a partir do Programa de Literacia em Saúde e do percurso do doente, com o professor Constantino Sakellarides – da Escola Nacional de Saúde Pública – sempre em atividade, com quem trabalhámos nessa altura.

 

JM | Faz sentido mantê-lo à luz da evolução natural da relação médico-doente?

JT | Faz todo o sentido. Quanto mais esclarecidos estiverem os doentes, melhor poderá ser a nossa prestação enquanto profissionais de saúde.

 

JM | Como é que a região se prepara para o inverno, com todos os episódios de maior afluência às urgências numa população fragilizada por estes recentes e trágicos episódios?

JT | Temos essa preocupação. Na próxima semana teremos uma reunião com os agrupamentos de centros de saúde. Também já temos data para com os hospitais para, mais uma vez, prepararmos os nossos serviços de acordo com o plano de inverno. Vamos fazer uma reavaliação para que nada falhe, evitando que voltem a acontecer situações por incapacidade e/ou alguma falta de esclarecimento completo da população.

 

JM | Em termos de crescimento, o que está pensado para o futuro a breve prazo?

JT | A abertura de mais USF e UCC. O nosso objetivo é de que as UCSP continuem num processo evolutivo de organização e se encaminhem para futuras USF. Isto tudo, com a vinda de mais gente nova, com a colocação de jovens que aspiram a ter um futuro numa USF, apesar de reconhecermos que as UCSP têm tido uma prestação fantástica em termos de disponibilidade para atendimento das pessoas que procuram os serviços. Temos reunido com os hospitais e diretores clínicos para estabelecer parcerias. Hoje, felizmente, já temos uma melhor articulação entre os serviços, ainda que subsistam algumas dificuldades entre determinadas especialidades hospitalares. Se houver complementaridade entre hospitais é mais fácil e essa já é uma prática corrente. Pese embora seja difícil cativar jovens para iniciar uma vida nova na periferia das grandes cidades, temos vindo a conseguir fazer essa sensibilização.

 

JM | Qual o número de internos para este ano?

JT | Este ano iniciaram funções 106 em MGF e outros 13 em Saúde Pública. São números muito significativos e os hospitais estão a dar resposta a esta questão.

 

JM | Falávamos há pouco de futuro e eu recordava uma entrevista que concedeu à Agência Lusa em abril passado a propósito do investimento na região centro em áreas como as Teleconsultas e a Teleassistência. Como é que alia este investimento ao envelhecimento populacional?

JT | É, efetivamente, essencial ir ao encontro das necessidades de quem está na periferia e apostar na teleconsulta, em articulação entre o médico de família e os médicos hospitalares.

 

JM | Mas tecnicamente é um desafio…

JT | Atualmente, praticamente todos os ACES dispõem dos equipamentos necessários.

 

JM | Que projetos tinha para a região que não viu cumprir? E porquê? Há sempre sonhos que ficam de lado…

JT | Já concretizei muitos sonhos e o último chama-se Centro de Saúde Fernão de Magalhães.

 

JM | É o seu grande sonho para a região?

JT | É o meu sonho porque parte da necessidade que sinto e pela qual luto desde 1992, praticamente desde que abriu, num edifício sem condições.

 

JM | Mas esse é o sonho concretizado. E aqueles que não se concretizaram e que podem, eventualmente, ser “aproveitados” no próximo mandato?

JT | Aquilo que qualquer pessoa que estivesse neste lugar ansiaria era que todas as unidades de saúde tivessem aquilo que são as necessidades dos profissionais em todas as medidas supridas: instalações, equipamentos, etc. A alta tecnologia é uma realidade e o Ministério da Saúde tem vindo a investir nesse sentido.

 

JM | Que planos tem após o término do seu mandato à frente da ARS Centro?

JT | Ainda não pensei nisso, mas continuarei a dedicar-me aos projetos sociais de âmbito alargado que sempre me acompanharam.

 

JM | Então não é um início, mas antes uma continuidade…

JT | É uma continuidade dessa vertente social, seja ou não nesta região. Sempre mantive a filosofia de vida de que, se tirarmos dois minutos do nosso dia, ao final do ano temos muito tempo. Por isso fiz muitas coisas ao mesmo tempo. Cumpri o serviço médico à periferia no Alto Douro: em 1979/80, em Tabuaço e São João da Pesqueira, percorríamos 200 km em quatro horas por estradas e caminhos onde aprendi a ser médico. Hoje em dia, aquilo que é necessário é que o jovem médico tenha conhecimento da realidade fora da sua faculdade e do seu âmbito de formação.

 

JM | Acha que existe essa oportunidade?

JT | Existe, no estrangeiro e até dentro do próprio país desde que as pessoas queiram ir.

 

JM | Considera que a deslocalização poderá ser a grande oportunidade de que fala?

JT | Essa é a grande oportunidade. Em termos de Medicina fiz de tudo, incluindo Medicina Desportiva. Criei um grupo médico de acompanhamento das seleções nacionais de andebol, fui médico de Saúde Pública em automobilismo, ciclismo, atletismo, futebol, o que evidencia o papel alargado deste profissional. Chegámos a constituir uma bolsa de médicos de Coimbra gratuitamente para apoiar as seleções nacionais de andebol. É algo que ficará marcado para sempre na minha história.

 

JM | Considera que a Saúde Pública tem o reconhecimento que lhe é devido?

JT | Cada vez mais temos de trabalhar em equipa. O médico de Saúde Pública (SP) é o congregador que vê a floresta. Dispõe de um vasto leque de intervenções, quer ao nível dos cuidados de saúde primários em colaboração com as restantes equipas de CSP, quer com os hospitais. Sempre que fui visitar as urgências dos hospitais era acompanhado pelo delegado de saúde regional e tivemos intervenções muito positivas porque aí se detetou algumas áreas que não eram vistas pelo hospital como uma realidade. Tenho de fazer justiça à SP: esta região Centro tem trabalhado exemplarmente, indo a todos os lares, identificando-os, verificando o cumprimento do Plano Nacional de Vacinação nos próprios lares de idoso.

 

JM | Sente necessidade de transmitir mais reforços positivos?

JT | Há sempre falta de positivismo. É certo que não podemos viver no idealismo. Nas UCSP e nas UCC o grande objetivo é transmitir os comportamentos saudáveis a nível comunitário. Temos um protocolo com a FMH para incluir o exercício físico dentro desta prática. Temos de ser realistas e no realismo precisamos de campanhas. O meu sonho era poder ter cidades e vilas com jovens e adultos a praticarem exercício físico nos jardim e com música.

 

JM | Que conselho gostaria de deixar ao seu sucessor neste cargo?

JT | Não é preciso dar conselhos, mas estar disponível para ajudar quem passa por estas “máquinas”.

 

Projetos inovadores combatem doenças cerebrovasculares

Atendendo aos números elevados no que diz respeito às doenças cardio e cerebrovasculares, a ARSC tem levado a cabo alguns projetos de Saúde Pública com impacto na comunidade. Com o projeto pão.come foi possível envolver 1,6 milhões de pessoas e cerca de 1000 das padarias da região com vista à redução do sal no pão, “ultrapassando [até] aquilo que está legalmente instituído em termos de conteúdo de cloreto de sódio”, alertando para as alterações que este provoca no organismo quando consumido em quantidades exageradas. Tem como parceiros a Associação do Comércio e da Indústria da panificação, Pastelaria e Similares, a Fundação Portuguesa de Cardiologia e o grupo AUCHAN.

Também esta necessidade de redução do sal se projetou na iniciativa sopa.come, que envolveu cantinas escolares e restaurantes da região centro, cumprindo o desiderato de “promoção da sopa como um alimento rico, aumentando o consumo de leguminosas e reduzindo a quantidade de hidratos de carbono”. Ambas as iniciativas estão integrados no projeto minorsal.saúde.

Já está em curso o “Tão doce não” em ligação com as padarias e pastelarias dos diferentes concelhos, fruto da necessidade de diminuir o consumo do açúcar, “projetos ousados e de reforço positivo”.

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