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John Strang e Rebecca McDonald: “O spray nasal de naloxona 2 mg pode ser alternativa à injeção intramuscular”
DATA
01/03/2018 11:08:54
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Jornal Médico
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John Strang e Rebecca McDonald: “O spray nasal de naloxona 2 mg pode ser alternativa à injeção intramuscular”

Dois investigadores do National Addiction Centre, Institute of Psychiatry, Psychology & Neuroscience do King’s College, em Londres, desenvolveram um spray nasal de naloxona que promete revolucionar a prevenção e abordagem de emergência da overdose por opioides. Em entrevista ao Jornal Médico, John Strang e Rebecca McDonald, apontaram, entre outras mais-valias, a facilidade de utilização – pelos cuidadores, em contexto domiciliário – da naloxona inalada, comparativamente à alternativa injetável, a única até agora disponível na prática clínica.

JORNAL MÉDICO (JM) | Quais os principais avanços alcançados com a investigação do spray nasal à base de naloxona?

JOHN STRANG & REBECCA MCDONALD (JS & RM) | O objetivo principal do nosso estudo foi identificar uma dose nasal de naloxona capaz de providenciar uma exposição precoce à naloxona semelhante à da injeção intramuscular de 0,4 mg, que configura a terapêutica standard à luz da prática clínica atual.

Para tal, comparámos três doses de naloxona inalada concentrada (1, 2 e 4 mg), através da medição dos níveis desta substância nas concentrações plasmáticas de voluntários saudáveis, com o foco na precocidade da exposição à naloxona. Isto porque, em caso de overdose por opioides, é fundamental que a naloxona entre o mais rapidamente na corrente sanguínea, de forma a reverter a sobredosagem e a restaurar a respiração normal do indivíduo.

Descobrimos que uma dose inalada de 2 mg de naloxona é equivalente, em termos de precocidade, à injeção intramuscular de 0,4 mg, nos primeiros 10 minutos após a administração. Este resultado leva-nos a concluir que o spray nasal de naloxona (2 mg) pode vir a tornar-se uma alternativa eficaz à injeção de naloxona na prática clínica, podendo ser particularmente útil no contexto dos programas domiciliários de administração de naloxona.

 

JM | Em que consistem os programas domiciliários de administração de naloxona?

JS & RM | Os programas domiciliários de administração de naloxona consistem na pré-entrega de kits de naloxona a utilizadores de opioides e seus familiares/pessoas próximas para utilização em caso de emergência. O objetivo destes programas é ter a naloxona disponível num contexto comunitário, de forma a que um leigo que testemunhe uma overdose possa administrar este antídoto, enquanto aguarda pela chegada do 112.

A formação é um aspeto incontornável nestes programas: para além de receberem os kits, os participantes recebem formação/treino na prevenção e abordagem de emergência da overdose por opioides.

 

JM | O que nos revela a experiência nos países onde estes programas já estão implementados?

JS & RM | Os programas domiciliários/comunitários de administração de naloxona já estão implementados em pelo menos 10 países europeus, bem como na Austrália, Estados Unidos da América (EUA) e alguns países asiáticos.

Só nos EUA, estes programas registaram mais de 26 mil casos de reversão de overdose entre 1996 e 2014. A par do acesso a tratamento baseado na evidência, estes programas domiciliários constituem uma estratégia-chave de saúde pública na redução da mortalidade devido a overdose por opioides.

 

JM | Que recomendações faz a Organização Mundial de Saúde (OMS) no seu relatório “Community Management of Opioid Overdose”?

JS & RM | A OMS recomenda que qualquer pessoa passível de testemunhar uma overdose por opioides deve ter acesso à naloxona e ser treinada para utilizar este antídoto. O que quer dizer que a naloxona deveria estar disponível para os utilizadores de opioides, mas também para as pessoas em contato frequente com estes indivíduos, como os seus familiares/amigos, profissionais dos serviços de reabilitação e profissionais de primeiros socorros (paramédicos e polícias).

 

JM | Neste contexto, que vantagens apresenta a naloxona em spray nasal?

JS & RM | O spray nasal de naloxona contempla inúmeras vantagens no contexto da administração comunitária/domiciliária. Para quem vai administrar, a formulação em spray é muito menos intimidadora do que a injeção. Para além disso, a utilização do spray nasal não exige formação específica sobre montagem da seringa e da agulha, estando igualmente isenta de riscos associados a lesão por picada de agulha.

A naloxona inalada pode ainda apresentar-se como uma solução para algumas barreiras médico-legais que ainda prevalecem no que concerne à distribuição comunitária desta substância: de acordo com a legislação de alguns países, as injeções de naloxona só podem ser administradas por médicos e outros há em que esta é uma substância de prescrição médica obrigatória.

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