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Ana Pedro: “A dor é transversal a todas as especialidades médicas”
DATA
27/03/2018 12:07:17
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Jornal Médico
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Ana Pedro: “A dor é transversal a todas as especialidades médicas”

A Associação Portuguesa para o Estudo da Dor (APED) vai promover, ao longo de 2018, várias iniciativas com o objetivo de aprofundar o conhecimento dos profissionais de saúde, dos doentes e da população em geral acerca da dor. Estas ações vão decorrer sob o mote “Excelência da Educação em Dor”, tema proposto para o Ano Global contra a Dor pela Associação Internacional para o Estudo da Dor (IASP), em conjunto com a Federação Europeia de Dor (EFIC). Na perspetiva da presidente da APED, Ana Pedro, “existe um hiato entre o conhecimento e a prática diária”, pelo que o objetivo, através da formação e educação, “é uma aproximação destas duas realidades”.

JORNAL MÉDICO (JM) | Este ano, o tema, no âmbito do Ano Global contra a Dor, é a educação. Ainda há muito caminho a percorrer?

ANA PEDRO (AP) | Este tema foi determinado pela IASP, numa ação concertada com a EFIC, e na qual se inclui a APED. Estas iniciativas tentam perceber em que medida há défices ou lacunas em determinadas áreas e, neste momento, foi considerado que existe um hiato entre o conhecimento e a prática diária, e decidiu-se que era importante ter um ano para a excelência da educação em dor. No entanto, na educação em dor, a lacuna que existe não é exclusivamente dos profissionais, pelo que foram considerados quatro grandes grupos que precisam de ser trabalhados, nos quais se incluem, claro, os profissionais de saúde, na sua formação, quer seja pré, quer seja pós-graduada, e estamos a falar de profissionais que não são só médicos. Falamos de todos os profissionais que devem estar envolvidos no tratamento da dor, como enfermeiros, farmacêuticos, fisioterapeutas, psiquiatras, psicólogos, entre outros. Outro grande grupo, que precisa muito de educação, é o dos pacientes, que precisam de ser educados acerca de como podem contribuir e qual o seu papel, que deve ser ativo, no controlo e no tratamento da sua dor. Outro grupo relevante é o da população em geral, composta por cuidadores e por potenciais doentes no futuro. Por fim, temos os decisores políticos, que também devem desempenhar uma posição de relevo.

 

JM | Portanto, o conhecimento existe, mas ainda não está a ser aplicado na prática?

AP | Têm sido grandes os avanços científicos sobre o que é a dor e os seus tratamentos, mas muito deste conhecimento ainda não está acessível e a ser praticado de forma rotineira no dia-a-dia. Como tal, há um hiato entre o que se sabe e o que se faz, e é uma aproximação destas duas realidades que se pretende, através da educação e formação destes vários grupos.

 

JM | Qual o estado atual do conhecimento da dor por parte da população em geral?

AP | Acho que já há algum alerta mas, no fundo, ainda há bastante desconhecimento. A temática da dor é difícil, apesar de recorrente, e a população está pouco desperta para esta realidade. Ainda há muitos mitos em relação à dor: de que a pessoa que tem um cancro, inevitavelmente, tem dor; de que o envelhecimento tem de ser, obrigatoriamente, acompanhado por dor; de que há muitas situações em que a dor não é tratável. Exemplos que demonstram quanto ainda temos que evoluir. Por outro lado, temos o facto de haver desconhecimento em relação à possibilidade de se tratar a dor em si. Ou seja, as pessoas pensam que, ou há um tratamento para a doença que têm, e com esse tratamento, conseguem tratar também a dor, ou então não há nenhuma solução. Não é verdade. Mesmo nas situações em que a doença responsável não pode ser tratada, ou já está a ser tratada no seu limite, ainda é possível tratar apenas a dor.

 

JM | De que forma pretende a APED, ao longo deste ano, educar a população?

AP | Além das ações que já tem feito, nos últimos anos, e que fazemos com regularidade – campanhas de sensibilização e workshops – temos também alguns prémios voltados para a comunidade, como o prémio de fotografia “Revelar Portugal sem Dor”, ou o concurso para crianças “Vou Desenhar a Minha Dor”. No ano passado desenvolvemos uma exposição com o tema “Desenhos da Minha Dor” repleta de informação sobre a dor na criança, dirigida tanto aos profissionais como aos doentes e público em geral, que será itinerante pelos vários hospitais do país ao longo de 2018.

Este ano pretendemos, ainda, lançar uma campanha sobre o movimento – em que medida o movimento pode ajudar a prevenir e controlar a dor, sobretudo dor crónica – com o objetivo de transmitir mais algum conhecimento à população.

 

JM | No que respeita aos profissionais de saúde, em termos de formação e educação, ainda estão muito aquém daquilo que se deseja?

AP | De facto, é preciso haver muito mais formação, porque o tema da dor é transversal, aliás, a dor é transversal a todo o ser humano, e a todas as especialidades médicas. Todos os profissionais vão ter de lidar com a temática da dor, e ter que a tratar, mas em termos curriculares, na formação pré-graduada, não lhe é dada uma evidência sequer individualizada: é um pouco distribuída por todo o curso e falada a propósito de cada doença, mas a dor em si, especialmente a dor crónica, não é tratada como um tema individualizado, pelo menos ainda de uma forma sistematizada. Depois, na formação pós-graduada, depende um pouco da iniciativa de cada profissional, procurar adquirir essa formação que já existe, mas ainda há um caminho grande a percorrer para podermos abranger um número maior de profissionais formados na área da dor.

 

JM | Que impacto tem este desconhecimento na saúde?

AP | Tem um grande impacto porque um doente com a dor controlada consome menos cuidados de saúde, vai menos à urgência, tem uma melhor qualidade de vida, menor interferência na sua vidas profissional e tem um controlo muito maior da sua doença e da sua saúde. O desconhecimento tem muito impacto, não só na vida pessoal e familiar, mas também a nível socioeconómico. O impacto económico é muito grande, não só pelas ausências laborais do doente e dos familiares que o acompanham, mas também pelas reformas antecipadas, pelo elevado consumo de consultas, pela necessidade de medicamentos e tratamentos e, por isso, quantos mais profissionais de saúde estiverem dotados com capacidades para tratar eficazmente os seus pacientes, menos crónica esta situação será.

 

JM | Neste momento, como descreveria a prevenção no nosso país?

AP | Acho que estamos a percorrer um bom caminho. A campanha do movimento está a ser acompanhada por uma campanha levada a cabo pelos órgãos governativos, que dá aos profissionais a possibilidade de “prescreverem” exercício físico no momento da prescrição electrónica, o que representa um grande avanço. E começa-se, cada vez mais, a trabalhar na prevenção da obesidade, na preocupação de manter a atividade física e hábitos de vida saudáveis, e que de alguma forma, vão contribuir para a prevenção da dor, sobretudo da dor crónica.

 

JM | Referiu os decisores políticos como um dos grupos a ser educado… O que é necessário mudar?

AP | Devem tornar-se parceiros, para irmos ao encontro das necessidades dos doentes com dor crónica, na prevenção, no tratamento, na orientação e na facilitação do ponto de vista, por exemplo, laboral. Seria bom termos algumas mudanças legislativas que permitam flexibilidade para doentes que se querem manter ativos, mas que têm algumas limitações. Isto é um exemplo do caminho que os decisores políticos podem adotar.

 

JM | Que ações de sensibilização estão previstas?

AP | Decorreu, no dia 29 de janeiro, a cerimónia comemorativa do início do Ano Global para a Excelência da Educação em Dor, onde lançámos o prémio de fotografia “Revelar Portugal sem Dor”. No ano passado aconteceram as catástrofes dos incêndios, que provocaram muita dor – aguda, crónica, física e emocional – e pretendemos que as pessoas revelem um País a superar essa situação. Em breve, teremos uma formação, que está programada para 8 de junho, no Porto, destinada a médicos, sobretudo especialistas de medicina geral e familiar, sobre opióides – como e em quem se devem utilizar, como instituir essa terapêutica nos doentes, quando alterar, quando descontinuar e precauções a ter. Para outubro está agendado o Congresso Nacional da APED, a decorrer em conjunto com a Reunião Ibero-Americana de Dor, que também é um momento formativo por excelência. Entretanto, vamos levando a cabo outras formações com colegas de outras especialidades, ao longo do ano, nas suas próprias jornadas ou congressos, de modo a abranger o máximo de médicos e outros profissionais que tratam a dor crónica.

Saúde Pública

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