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José Castro Lopes: “A Fisiatria não é uma esmola!”
DATA
04/05/2018 17:00:12
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Jornal Médico
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José Castro Lopes: “A Fisiatria não é uma esmola!”

Portugal, que tem o primeiro centro de tratamento de acidente vascular cerebral (AVC) certificado na Europa e profissionais bem preparados, falha, de acordo com o presidente da Sociedade Portuguesa de Acidente Vascular Cerebral (SPAVC), José Castro Lopes, na prevenção e na reabilitação. Por um lado, a população continua a não estar devidamente informada acerca dos fatores de risco e sintomas, e, por outro, o acesso a especialistas de Fisiatria é insuficiente. O Dia Nacional do Doente com AVC assinalou-se a 31 de março, e esta continua a ser a principal causa de morte e de incapacidade permanente em Portugal. A cada hora, três portugueses são vítimas de AVC: destes, um não sobrevive e outro fica com sequelas incapacitantes.

JORNAL MÉDICO (JM) | O Dia Nacional do Doente com AVC é celebrado este mês. De que modo o vai assinalar a SPAVC?

JOSÉ CASTRO LOPES (JCL) | Mando uma carta aos sócios para saber quem quer participar e, do Minho ao Algarve, há sempre gente! Há 20 ou 30 sítios onde a efeméride é assinalada obedecendo ao nosso modelo, ou seja, através da promoção de ações de sensibilização. Estes dias devem ser dedicados ao público. Para nós, que tratamos o AVC, todos os dias são dias do AVC.

 

JM | Quais são os objetivos e que trabalho tem vindo a ser desenvolvido pela SPAVC?

JCL | A nossa ação centra-se nos profissionais de saúde. Temos o congresso anual, que decorre sempre nos primeiros dias de fevereiro; as comemorações do Dia Nacional do Doente com AVC, no dia 31 de março, e que foi por nós criado; e associamo-nos mundialmente às comemorações do Dia Mundial do AVC, assinalado a 29 de outubro.

Quer o congresso nacional, quer as reuniões de outono – que são de formação interna e duram dois dias – destinam-se a profissionais de saúde em geral, e aos que se dedicam ao AVC em particular, nomeadamente a especialistas de Medicina Interna, Medicina Geral e Familiar e Fisiatria. Esta última é particularmente importante e é onde existe a maior falha, a nível nacional. Dedicamos duas sessões do nosso congresso a esta área, por pressão dos fisiatras.

 

Por outro lado, temos uma preocupação para com o público e temos tido sucesso a este nível: a taxa de incidência de AVC tem diminuído significativamente nas últimas duas décadas, bem como a mortalidade associada.

 

JM | O que mais o preocupa no panorama português?

JCL | À cabeça, preocupamo-nos com a prevenção e com os fatores de risco. Alguns são fatores sobre os quais não se pode atuar, como a idade, a raça, e o sexo, mas temos também os cinco fatores de risco a combater, eleitos pelos peritos que se reuniram em Helsingborg: a hipertensão arterial (HTA), a diabetes, o tabagismo, o sedentarismo e a fibrilação auricular (FA) – mais frequente nas mulheres e em indivíduos hipertensos.

 

Na prevenção, Portugal falha porque existe a necessidade da colaboração da população, e este é o nosso grande falhanço: não chegamos à população como queremos!

 

JM | De que forma têm tentado cativar a atenção dos portugueses para a primeira causa de morte e invalidez no nosso país?

JCL | Temos chamado a atenção para pequenos sintomas, de forma a que a pessoa reconheça mais facilmente que está a sofrer um AVC. Assim, definimos “os três F’s”: desvio da Face, falta de Força num braço e dificuldade em Falar. Basta ter um destes sintomas para que a pessoa deva chamar de imediato o 112, sendo depois encaminhado para a Via Verde hospitalar. Este processo permite que o doente seja enviado para o hospital mais próximo, que está pronto para o tratar e onde é ativada a via verde intra-hospitalar: quando o doente chega está já preparada uma equipa multidisciplinar, composta por neurologistas, enfermeiros, internistas e neurorradiologistas.

 

JM | Que capacidade de resposta tem o nosso sistema de saúde?

JCL | Temos 32 unidades para receber os doentes. E temos em Portugal a primeira unidade europeia certificada pela Organização Europeia do AVC (ESO) como Centro de Tratamento de AVC, que é a unidade de Gaia e Espinho. Portanto, a parte médica e científica tem avançado: não só conhece os fatores de risco, como chama a atenção para novos fatores de risco. Hoje em dia, é sublinhada a poluição atmosférica como fator, o que antes não acontecia.

Do ponto de vista da terapêutica, temos, para além da fibrinólise, a trombectomia, habitualmente realizada por via femoral, em que é introduzido um cateter que junto das grandes artérias cerebrais entupidas, retira e desfaz o coágulo, e tem efeitos espetaculares de recuperação. Pretendemos atuar na chamada “penumbra isquémica”. Quando se entope uma artéria cerebral, falta sangue e morrem células, pelo que há uma parte central da zona que é mal irrigada, que morre mesmo. As zonas à volta são a chamada “penumbra isquémica”, onde se encontram células que ainda não morreram e onde a fibrinólise ou a trombectomia vão atuar, permitindo que essas células se mantenham vivas.

 

JM | Quais são, na sua perspetiva, as principais dificuldades que o sobrevivente de AVC enfrenta?

JCL | Depois do AVC, o grande risco é ter outro, mas antes de ter outro, é preciso tratar o primeiro.  O acesso a cuidadosa de Fisiatria é um direito, não é uma esmola! Não se pode dizer “toma lá um mês de fisiatria e agora já chega!”. Não chega, não!

 

A reabilitação é um direito do doente, mas está, a nível nacional, muito deficitária! Há um longo trabalho a desenvolver a este nível: os doentes têm o direito de serem bem tratados e não são, porque nem há pessoal, nem há condições que cheguem!

 

JM | Então os sobreviventes acabam por ficar desamparados…

JCL | No que respeita à Fisiatria, sim! A SPAVC ajudou a criar a primeira associação de apoio a sobreviventes de AVC – a Associação Portugal AVC – composta por sobreviventes e amigos/familiares, que se apresenta como uma força de pressão sobre o Governo. Nós somos “muito alérgicos” à tutela, e muito críticos também! Por vezes, o Governo publica documentos – eventualmente algumas destas análises e relatórios são até pagos a entidades externas – com imprecisões e com números que nem sequer se aplicam a Portugal. Nós achamos que o Governo deve ouvir a ciência primeiro! Só depois é que deve legislar!

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