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Pedro Moura: “Acredito que o cancro se vai tornar numa doença crónica, no máximo a 20 anos”
DATA
04/05/2018 17:14:03
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Jornal Médico
Pedro Moura: “Acredito que o cancro se vai tornar numa doença crónica, no máximo a 20 anos”

Pedro Moura é o primeiro português a ocupar o cargo de managing director da Merck Portugal o que, de acordo com o próprio, “é sinónimo de uma aposta em recursos internos e da importância crescente de Portugal no contexto da Merck Global”. Na empresa desde 2013, abraçou o novo desafio há seis meses, deixando o cargo de responsável pela área de Oncologia da companhia para os cinco maiores países da Europa. Em entrevista ao Jornal Médico, o responsável salientou que “com o lançamento de novos medicamentos – o avelumab e a cladribina, ainda em 2018 – os próximos anos serão repletos de oportunidades e toda a empresa está empenhada no sentido de conseguir continuar a responder às necessidades dos doentes em Portugal”.

JORNAL MÉDICO (JM) | Que expetativas tinha quando assumiu o cargo de diretor-geral da Merck Portugal e em que medida a bagagem acumulada nas suas funções anteriores – nomeadamente dentro da Merck – tem sido útil neste novo papel?

PEDRO MOURA (PM) | As minhas expetativas desde que assumi esta nova função, no passado dia 1 de setembro, são continuar a nível local, em Portugal, aquilo que era uma responsabilidade que já assumia a nível global, sendo que a nível global essa responsabilidade era estritamente na área da Oncologia e como diretor-geral da Merck Portugal passa a ser mais abrangente.

Na Merck temos uma missão que se divide em três pontos-chave. O primeiro consiste em ajudar a criar vidas e, no que concerne a este ponto, somos líderes no tratamento da infertilidade em Portugal. Importa salientar que, no que concerne ao tratamento da infertilidade, a Merck é a única empresa farmacêutica com uma oferta global, que vai desde os medicamentos aos dispositivos, passando também pelos meios de cultura. O segundo ponto-chave da nossa missão é o aumento da qualidade de vida dos doentes em Portugal, o que se prende com uma série de áreas terapêuticas que interessam muito à Cardiologia, Medicina Interna, Endocrinologia e Medicina Geral e Familiar (MGF) – diabetes, hipertensão arterial (HTA), insuficiência cardíaca (IC) e hipotiroidismo –, mas também à Neurologia, no caso da esclerose múltipla (EM). O terceiro vértice deste triângulo consiste no aumento da sobrevida dos doentes, e aqui destaca-se a nossa atuação na área da Oncologia.

 

JM | Que objetivos traçou para 2018?

PM | Enquanto managing director (MD) da Merck Portugal tenho como objetivo dar corpo aos três eixos da nossa missão. Objetivo esse que, a nível operacional, se interliga com duas missões muito concretas que defini para este ano. A primeira, na área da Oncologia, é a de tornar disponível para os doentes em Portugal, a breve trecho, um novo medicamento que até há bem pouco tempo estava no nosso pipeline e que está agora no nosso portefólio de Imuno-Oncologia: o avelumab. Trata-se de um anti-PDL1 aprovado a nível europeu numa indicação que é nicho, mas que é uma unmet need: o carcinoma de células de Merkel. Ainda que com uma prevalência e incidência baixas, não havia, até à data, tratamento disponível para este tumor neuro-endócrino. Enquanto não temos a comparticipação do avelumab, submetemos ao Infarmed e obtivemos aprovação para um Programa de Acesso Precoce (PAP) – procedimento que veio substituir as autorizações de utilização especial (AUE) – para este medicamento.

O segundo objetivo é disponibilizar – até à comparticipação também sob a forma de PAP já aprovado pelo INFARMED – a cladribina comprimidos para o tratamento de doentes com EM.

 

Portanto, de forma resumida, o objetivo, da Merck é garantir que os doentes portugueses têm acesso a medicamentos que possam melhorar as suas vidas.

 

JM | Como parceiros estratégicos que são, preocupa-vos enquanto companhia farmacêutica a formação pós-graduada dos médicos? Em que moldes dão o vosso apoio nesta vertente?

PM | O apoio à formação médica pós-graduada é, a nível local, uma prioridade, nomeadamente na área de CardioMetabolic Care – que engloba a Insuficiência Cardiaca, HTA, Diabetes e Hipotiroidismo – onde dispomos de vários canais abertos. O digital é apenas um desses canais, mas é um dos mais importantes na nossa comunicação com a comunidade médica. Neste sentido, disponibilizamos uma plataforma inovadora de conteúdos – FUTUREWAY by Merck – que contém webinars on-line e off-line, bem como um conjunto de ferramentas de e-learning e de self-education, que têm uma tónica absolutamente focada nestas quatro áreas terapêuticas. Enquanto no que refere a HTA é uma área bastante estudada e na qual o awareness já é bastante sólido, quando passamos para a IC, por exemplo e sobretudo no hipotiroidismo, há um enorme gap que tentamos mitigar.

 

JM | Em termos de Investigação & Desenvolvimento (I&D), a nível global, quais são atualmente as áreas fortes do vosso pipeline?

PM | Quando falamos de pipeline, de medicamentos que no futuro estarão disponíveis, desde há uns anos que a Merck tem o seu foco muito centrado na Imunologia, na Oncologia e na Imuno-Oncologia. Isto sem descurar, obviamente, todas as oportunidades que possam surgir nas áreas terapêuticas que atrás referi, nomeadamente na diabetes e no hipotiroidismo.

 

JM | É a primeira vez que a Merck tem, em Portugal, um MD português. Quais lhe parecem ser as mais-valias decorrentes desta aposta na “prata da casa”?

PM | Hoje em dia, numa empresa global como a Merck, mais importante do que a nacionalidade, é a corporização da cultura Merck, cuja linha orientadora é: as one for patients. Este mote é utilizado por todos, na prática, uma vez que no nosso dia-a-dia, na Merck, colocamos de facto o doente no centro dos nossos objetivos. Ainda que não sejamos uma empresa filantrópica, temos uma caraterística muito singular, que é o facto de sermos uma companhia maioritariamente familiar. Cerca de 70% da Merck é ainda familiar (a empresa está atualmente na 13.ª geração da família), com apenas 30% dispersa em bolsa. Fundada em 1668 com a compra da Farmácia Angel ainda hoje propriedade da família, é a farmacêutica mais antiga do mundo, comemorando 350 anos em 2018.

Por termos como missão criar vidas, prolongar e melhorar a qualidade de vida dos doentes, tentamos maximizar o número de doentes que, em cada país acedem, dentro da indicação e das diferentes áreas terapêuticas, aos nossos medicamentos. Porque acreditamos que ao maximizar o número de doentes com indicação para os nossos produtos, estamos a maximizar a forma como esses doentes estão a ser tratados. E, portanto, isto é uma inerência: ao maximizar o número de doentes estamos a aumentar as vendas o que, consequentemente, nos vai permitir um maior investimento em I&D nas áreas terapêuticas-chave. Em 2017, a Merck investiu 1.2 mil milhões de euros em Investigação & Desenvolvimento.

 

Ser português é uma mais-valia, tendo em conta as questões óbvias da língua e da cultura. Porém, as questões do ADN são independentes da nacionalidade.

 

JM | Como é o Pedro Moura, diretor-geral da Merck Portugal, enquanto líder?

PM | Tenho o privilégio de, na Merck Portugal, trabalhar com uma equipa que é uma boa combinação entre colaboradores que trabalham na empresa há muitos anos – e que incorporam o ADN da raiz da companhia em Portugal, onde a Merck opera desde 1934 – e uma geração de gente muito nova. Fruto desta diversidade etária, temos igualmente uma boa combinação de aspetos comportamentais. Ao nível das competências, também dispomos de uma oferta muito diversificada de valências (farmacêuticos, médicos, biólogos, químicos, entre outros).

Como líder da organização tento, a cada momento, reter e desenvolver os elevados potenciais que temos na organização. O objetivo central da minha função como MD é esta preocupação constante com a retenção e o desenvolvimento de todos e de cada um dos elementos que constituem a Merck. Paralelamente, tenho como prioridade fazer crescer as áreas nucleares da companhia e ser bem-sucedido nos lançamentos que se avizinham e que em 2018 serão dois.

 

JM | Considera que é fácil ser-se inovador em Portugal? São recorrentes, por parte da maior parte das companhias farmacêuticas a operar em Portugal, as críticas aos atrasos na aprovação de fármacos inovadores por parte do Infarmed… De que modo a atuação da autoridade nacional do medicamento tem impacto na vossa estratégia?

PM | Após quatro anos fora de Portugal, a realidade que encontro hoje, a nível nacional, é francamente melhor do que a que deixei, e que coincidiu com a fase em que Portugal estava sob intervenção da troika. Foi feito um esforço muito significativo – e que é tangível (basta olhar para os indicadores!) – no número de aprovações, a par de uma, não tão bem-sucedida, mas ainda assim notória, evolução nos prazos de aprovação de preços e comparticipações dos medicamentos. Há um caminho longo a percorrer, mas importa salientar que a tutela tem feito um esforço efetivo, que se tem traduzido em indicadores que mostram a aceleração dos prazos de aprovação.

É uma missão muito complicada – a do Estado e do Infarmed – porque os medicamentos inovadores que a cada passo surgem implicam aumento da necessidade de recursos disponíveis. Os recursos são, por definição, finitos, pelo que a cada momento é necessário fazer-se escolhas. É do balanço entre a maximização das escolhas, no sentido de aproveitar o potencial que as novas soluções têm para as patologias, que são cada vez mais desafiantes, e a minimização dos custos associados a produtos que já perderam a sua patente, mas que em muitas indicações terapêuticas continuam a ser fármacos muito válidos, que irá resultar uma consolidação/racionalização da despesa em saúde. Este é um trabalho que obriga a um diálogo constante…

A Imunologia e Imuno-Oncologia, bem como o tratamento da infeção pelo VIH e as hepatites, nomeadamente, são áreas onde o desenvolvimento tem sido notável. Doentes que há uns tempos não tinham qualquer esperança de vida e que hoje passam a ser doentes crónicos (no caso do VIH) ou ficam curados (no caso da hepatite C) impõe às sociedades atuais uma questão: existe um preço para a saúde? E a resposta é afirmativa, precisamente porque os recursos são não são ilimitados. Daí a necessidade de uma gestão integrada dos mesmos.

 

Importa ainda referir que os custos com medicamentos são uma parte menor da despesa total em Saúde. E que é nesta perspetiva que se enquadra a necessidade da profilaxia/prevenção e do rastreio/diagnóstico precoce. Em áreas como a diabetes, a prevenção é essencial para travar, a médio/longo prazo, o aumento exponencial dos custos com medicamentos e outros tratamentos. A este nível, há ainda um longo caminho a percorrer.

 

JM | Como perspetiva o futuro da Merck? Não direi nos próximos 350 anos, mas na próxima década…

PM | Daqui a 10 anos, será uma companhia substancialmente diferente, nomeadamente na área de Biopharma. Isto porque acreditamos que os pilares que sustentam as áreas nucleares da Merck ainda têm potencial para crescer. Nomeadamente ao nível do tratamento da infertilidade e nos ativos que temos atualmente no portefólio de Oncologia, há medicamentos com alguns anos de mercado que permanecem eficazes na sua indicação terapêutica. Pensemos, por exemplo, no cetuximab. Num futuro próximo, a eficácia destes fármacos será potenciada através do desenvolvimento de biomarcadores que permitirão selecionar os doentes que mais beneficiam desses tratamentos. As vantagens são a dois níveis: não expor inapropriadamente aos tratamentos os doentes que deles não vão beneficiar, evitando toda a carga de efeitos adversos e potenciando a sua segurança; por outro lado, baixar os custos associados ao tratamento.

Os biomarcadores são uma peça essencial na Medicina personalizada, que para nós, é uma prioridade. Para além da Oncologia, também temos ativos de referência na área de Cardiometabolic Care e da EM com potencial futuro. É exemplo a Metformina que, com 60 anos de existência, é ainda uma referência no tratamento da Diabetes tipo 2, mas também o bisoprolol e a levotiroxina que são, igualmente, ainda hoje referencias nas suas áreas terapêuticas. Outro exemplo é o caso do interferão, um medicamento de referência que celebra este ano 20 anos no mercado e que tem ainda um grande potencial para tratar um conjunto significativo de doentes com indicação específica. Assim sendo, as áreas de foco da empresa têm potencial para crescer.

 

JM | Num futuro próximo, outro momento marcante será o do lançamento de novos produtos…

PM | Sem dúvida. A partir de 2018 vamos ter um número muito significativo de lançamentos a cada ano, com especial foco nas áreas de Oncologia, Imunologia e Imuno-Oncologia.

Estamos a falar de fármacos inovadores, com um potencial absolutamente fantástico. É o caso da cladribina – aprovada na Europa e que está em processo de aprovação de comparticipação em Portugal –, que constitui o primeiro medicamento para o tratamento da EM que permite uma eficácia terapêutica a quatro anos, com apenas 20 dias de duração do tratamento, aliado à facilidade de administração da sua formulação oral. Em Portugal, nove em cada dez doentes com EM podem ser tratados com oferta de medicamentos da Merck, o que deixa antever o enorme potencial de crescimento a médio/longo prazo da companhia nesta área terapêutica. Ainda no âmbito da Imunologia, a Merck dispõe de um expressivo pipeline nas áreas da artrite reumatoide (AR) e do lúpus eritematoso disseminado (LED), com substâncias que num horizonte a cinco/dez anos poderão alcançar o mercado e alterar o paradigma do tratamento destas patologias.

O mesmo sucede na área da Imuno-Oncologia: o avelumab está indicado no carcinoma de células de Merkel, mas tem um plano de desenvolvimento que é pan-tumoral. Quando falamos no avelumab, mais do que em produto, falamos num conjunto de indicações para uma mesma molécula. Todos os tumores com resposta imunológica são passíveis de responder positivamente a terapêuticas anti-PDL1, sendo os do pulmão, gástrico, cabeça e pescoço e ovário as neoplasias deste grupo em que se registam maiores avanços.

Desta forma, dentro de uma década, a Merck será uma companhia substancialmente diferente, devido à expansão das áreas nucleares e aos inúmeros lançamentos, todos eles de elevada qualidade e de cariz disruptivo. Porque a disrupção também é uma das nossas prioridades: queremos ser, se não os first in disease, os best in disease nas áreas onde atuamos.

 

JM | É dessa forma que marcam a diferença nesta área de negócio tão competitiva quanto a IF?

PM | Exatamente! Atuamos sempre na perspetiva de não disponibilizarmos mais um medicamento para o tratamento de uma determinada doença, mas com a intenção de providenciarmos, ou o primeiro, ou o melhor.

 

JM | Quais prevê que sejam, numa perspetiva nacional e em termos globais, as tendências/dinâmicas do mercado farmacêutico a curto/médio prazo e como fará a Merck frente a esses desafios?

PM | Estamos a assistir, cada vez mais, a uma sensibilização crescente para a sustentabilidade dos sistemas de saúde e, como tal, para a importância vital do rastreio precoce e da profilaxia.

Em termos de tratamento, estamos hoje a entrar na era da Medicina personalizada e a dar passos que há 20 anos provavelmente nos pareceriam ficção científica. Através do conhecimento da expressão do genoma, poderemos um dia, no limite, vir a ter um medicamento completamente personalizado, não para determinada patologia, mas para determinado doente/indivíduo, potenciando desta forma não só a eficácia, mas também a segurança do tratamento, no que aos efeitos adversos diz respeito. O velho chavão de que “não há doenças, mas doentes”, é levado ao extremo com esta abordagem. Se pensarmos que uma doença é apenas uma expressão fenotípica de um conjunto muito alargado que é representado por cada doente, percebemos que não há um carcinoma do pulmão, mas sim n cancros do pulmão.

A Imuno-Oncologia anda de braço dado com a Medicina personalizada. Durante muitos anos, em Oncologia, o tratamento foi feito no sentido de prolongar a sobrevida dos doentes. Com a abordagem imuno-oncológica, estamos a falar de tornar alguns doentes oncológicos, ainda que em estado avançado, em doentes crónicos. Acredito, realmente, que o cancro se vai tornar numa doença crónica, no máximo a 20 anos. O grande desafio que hoje se coloca é saber exatamente que doentes e porque beneficiam mais que outros. E esse é o último pilar: o do desenvolvimento de biomarcadores.

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