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Graça Freitas: “O risco de não vacinar não é neutro!”
DATA
25/05/2018 15:55:15
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Jornal Médico
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Graça Freitas: “O risco de não vacinar não é neutro!”

No início de março, a diretora-geral da Saúde, Graça Freitas, recebeu o Jornal Médico na Direção Geral da Saúde (DGS), em Lisboa, para uma conversa sobre vacinação. Tendências, mitos, capacidade de resposta do Serviço Nacional de Saúde (SNS) face a eventuais surtos e alterações ao Programa Nacional de Vacinação (PNV), foram algumas das temáticas abordadas na entrevista. Consciente de que um novo surto de sarampo poderia acontecer, a breve trecho, no nosso país, a responsável deixou um apelo a todos – mas sobretudo aos profissionais de saúde – para que se vacinassem o quanto antes contra a doença. Poucos dias depois deste encontro, a DGS declarava oficialmente a existência de um surto de sarampo no país, detetado no Hospital de Santo António, no Porto. Inicialmente com sete casos confirmados, este surto contabiliza, à data, 109 casos.

JORNAL MÉDICO (JM) | Portugal tem uma das taxas de vacinação mais elevadas do mundo. A que se deve este sucesso?

GRAÇA FREITAS (GF) | Deve-se à primeira mulher a ocupar o cargo de diretora-geral da saúde, a Dr.ª Maria Luísa Van Zeller, que, em conjunto com outros colegas, chegou à conclusão que em Portugal, comparativamente ao resto da Europa, o peso das doenças transmissíveis/infeciosas para as quais já havia vacinas era enorme. No Portugal de 1965 adoecia-se e morria-se muito por doenças evitáveis pela vacinação.

A então diretora-geral da saúde, em conjunto com outros médicos – entre os quais o Dr. Arnaldo Sampaio – criaram o primeiro PNV e criaram-no muito bem, estudando ao pormenor a forma de implementá-lo, tornando-o gratuito para toda a população (à altura, Portugal era um país pobre), universal (qualquer pessoa, de qualquer etnia, de qualquer condição social, estivesse onde estivesse era abrangido), com uma base científica interessante e um processo rigoroso de avaliação dos resultados.

O facto de o PNV ter nascido desta forma tão robusta foi meio caminho andado para o seu sucesso. O PNV arrancou com uma grande campanha contra a poliomielite – doença muito grave, responsável por muitas paralisias infantis e com sequelas na idade adulta – repescando todas as crianças até aos nove anos e em pouco mais de um ano foram administradas mais de três milhões de vacinas. Em 1965, num país pobre e sem infraestruturas, isto foi um feito notável.

Devemos muito do sucesso do PNV português à forma como ele nasceu. Por não haver muito dinheiro, recorreu-se de início ao mecenato, tendo a Fundação Calouste Gulbenkian sido o grande mecenas nos primórdios do PNV. Não há PNV sem vacinas e as vacinas custam dinheiro. Como tal, o Estado tem que garantir que existam sempre vacinas, todos os anos. Não se pode andar para trás na vacinação! É uma conquista, é um direito, é um dever também da parte dos cidadãos vacinarem-se e, portanto, o Estado tem que assegurar que todos os anos existem vacinas seguras, vacinas de qualidade e vacinas eficazes para que não se quebre este ciclo de confiança.

Atualmente, os grandes princípios do PNV são os mesmos, com a diferença de hoje ser o Orçamento de Estado quem paga as vacinas.

Quer a população, quer os profissionais de saúde aderiram extremamente bem ao PNV, desde o iniciam, e confiam nele. E é por isso que temos tido taxas de cobertura tão boas – das melhores do mundo! – ao longo dos anos.

 

JM | Confiança essa que se repercutiu em resultados muito positivos…

GF | O sucesso do PNV resultou no desaparecimento ou na redução para números reduzidíssimos da maior parte das doenças. Este sucesso do PNV é – em Portugal, mas também nos outros países – o início do seu insucesso. Isto porque, as pessoas desabituam-se das doenças e há uma inversão da perceção do risco. As pessoas não têm medo do que nunca conheceram e, como tal, desvalorizam a gravidade das doenças e mais facilmente deixam de reconhecer a importância da vacinação.

Quando comecei a exercer Medicina, a difteria era uma doença prevalente e grave. Se hoje perguntarmos a alguém com menos de 30 anos – até pode ser profissional de saúde – o que é a difteria, pouca gente sabe o que é, viu ou teve conhecimento de casos. Da mesma forma, um pai ou uma mãe, hoje em dia, não tem noção do que são estas doenças, porque há muito que não existem em Portugal.

 

Atualmente, os pais começam sobretudo a preocupar-se com os raríssimos efeitos secundários da vacinação e assim surgem os medos, mitos e confusões em torno da vacinação.

 

JM | Os movimentos antivacinação em Portugal têm – ainda! – pouca expressão. Acredita que esta pode ser uma tendência crescente no panorama nacional? Quais os principais mitos relacionados com as vacinas que prevalecem?

GF | Em Portugal, a maior parte da população adere de forma fácil e efetiva à vacinação. O que vemos a aumentar não são os movimentos antivacinas, mas sim as atitudes de complacência face à vacinação.

Dou-lhe um exemplo desta complacência: uma mãe cujo filho deve ser vacinado contra o sarampo aos 12 meses, mas aos pais não lhes dá muito jeito vacinar nessa altura e acham que a doença ‘até já nem existe no País’ e por isso vacinam a criança aos 14 ou aos 15 meses. Ou seja, os pais não são contra a imunização, mas não encaram como um risco deixar passar o prazo estipulado pelo PNV. O que sucede é que, quanto maior for o período de tempo em que a pessoa está desprotegida, maior o risco.

 

JM | Que consequências pode ter essa atitude de complacência?

GF | Esta complacência leva a atrasos na vacinação e quanto mais atrasos, maior número de pessoas vulneráveis/suscetíveis a casos de contágio por importação.

Daí que seja essencial passar a mensagem de que o risco de não vacinar não é neutro! Não vacinar não é um ato neutro! É como andar à chuva sem chapéu-de-chuva… Não é um ato neutro, porque a pessoa vai ficar molhada. É preciso não esquecer que as doenças podem chegar ao nosso país por importação e quem estiver desprotegido (não vacinado) pode ser contagiado, como no caso dos mais recentes surtos de sarampo em Portugal. Lembrar ainda que um indivíduo não vacinado que viaje para um país onde há a doença em circulação pode facilmente ser contagiado.

Digo sempre aos pais: “Se não vacinar os seus filhos na infância, quando eles crescerem e forem viajar sozinhos, além de um passaporte, têm que os avisar que também podem contrair uma série de doenças porque não foram vacinados”.

 

O risco de não vacinar não é neutro, é o risco da não proteção, que é importante na infância e em qualquer altura da vida.

 

JM | Falemos do sarampo… O Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge (INSA) apontou para o fim da imunidade de grupo contra o sarampo em Portugal. Esta é a realidade atual?

GF | Não, isso ainda não se passa… Não é por termos uma faixa da população mais suscetível que se perde a imunidade de grupo. A prova de que não perdemos a imunidade de grupo é que no ano passado tivemos dois surtos de sarampo em Portugal – o surto de Lisboa, com 20 casos, e o surto do Algarve, com 7 casos (através da genética conseguimos perceber que os vírus não eram os mesmos e tinham origens diferentes; ainda que tenham sucedido em simultâneo e fossem ambos de casos importados, foram duas cadeias de transmissão distintas) – e se não houvesse essa imunidade de grupo aconteceria o que acontece em alguns países da Europa: a partir da importação, o vírus tinha-se instalado. O que aconteceu em Portugal foi que tivemos dois surtos e esses surtos extinguiram-se, sem dar origem à transmissão de vírus-selvagem. Ou seja, neste momento, não temos a circulação do vírus, porque esta foi interrompida. O vírus não se instalou no nosso país porque não teve condições para tal.

Para além disso, Portugal é considerado um país com eliminação do sarampo, através de um certificado da Organização Mundial da Saúde (OMS). Se a imunidade de grupo se tivesse perdido, a OMS retiraria essa certificação.

Fazendo uma analogia com um incêndio, podemos dizer que os surtos de sarampo foram dois fogos distintos, já controlados, que não se espalharam…

 

JM | O que pode acontecer são novos “fogos”…

GF | Sim, podemos ter novos “fogos”, isto é, novos surtos a nível nacional. Com a aproximação do Verão e o aumento dos fluxos de pessoas/turistas, o risco aumenta, estando a Europa com inúmeros casos de sarampo atualmente. Só no ano passado houve milhares de casos reportados, dos quais resultaram 35 mortos, o que é muito para uma doença evitável.

 

JM | Há, então, motivo para preocupação?

GF | Se me perguntar se estou muito tranquila, respondo-lhe que não! Daí o nosso apelo para que as pessoas se vacinem: aos 12 meses as crianças devem ser vacinadas contra o sarampo e, se não estivermos em surto, aos cinco anos devem receber a segunda dose da vacina.

Para além das crianças, outro grupo prioritário para vacinação contra o sarampo é o dos profissionais de saúde. Basta haver meia dúzia de profissionais não vacinados para a propagação do vírus ocorrer, porque é aos serviços de saúde que acorrem as crianças ou adultos com sarampo. Obviamente que os profissionais de saúde não vacinados vão ficar contaminados – porque o sarampo é altamente contagioso – e dar início a uma cadeia de doença.

 

Os médicos têm uma dupla responsabilidade: a responsabilidade de se protegerem e a responsabilidade ética e deontológica de não serem veículo de transmissão da doença.

 

JM | E que papel têm os médicos na sensibilização da população para a vacinação?

GF | A esse respeito os médicos têm um papel determinante! Porque são os médicos – e também os enfermeiros como grandes vacinadores que são – que aparecem, à cabeça, nos inquéritos à população como os principais conselheiros em termos de vacinação. Isto é, estudos mostram que o conselho do médico/profissional de saúde é o que mais pesa na decisão das pessoas para se vacinarem (este resultado é especialmente válido para a gripe, mas extensível a outras doenças).

À medida que os pais vão “relaxando” face à gravidade das doenças e à importância da vacinação, os médicos – mas também os enfermeiros – são um fator importantíssimo na promoção da imunização e também na verificação da mesma. Em qualquer consulta, o médico pode e deve aproveitar para verificar o estado vacinal do indivíduo. É um dos lemas do PNV: não perder oportunidades de vacinação!

 

JM | Para além do sarampo, há alguma doença que possa provocar um surto a nível nacional e com a qual nos devamos preocupar?

GF | O sarampo é, sem dúvida, a nossa principal preocupação, por ser a mais contagiosa. Mas há sempre hipótese de existirem surtos de outras doenças preveníveis pela imunização, de vez em quando, em países onde a taxa de vacinação desce.

Em Espanha, por exemplo, houve casos recentes de difteria por importação. Outra doença grave, com sequelas graves, que já só existe em alguns países do mundo, mas cuja importação pode sempre ocorrer e dar origem a casos na Europa, é a poliomielite.

 

JM | Se é inegável que a população em geral precisa de estar melhor informada sobre os riscos da não vacinação, é sobretudo de estranhar que essa seja uma mensagem que ainda não está completamente enraizada entre a classe médica. O nosso jornal teve conhecimento de que a Ordem dos Médicos (OM) instaurou dois processos disciplinares a dois médicos que, durante os surtos de sarampo de 2017, proferiram declarações públicas antivacinas. Que comentário lhe merece esta situação?

GF | Estou total e incondicionalmente com a OM e com o Sr. Bastonário nessa decisão. É incompatível com o exercício da Medicina não agir de acordo com a evidência que suporta a eficácia e segurança das nas vacinas/medicamentos. Milhares de milhões de pessoas em todo o mundo são vacinadas. Está comprovado que as vacinas são um medicamento eficaz, seguro, com qualidade, tendo por base um suporte de evidência científica e clínica muito vasto.

Qualquer médico que não creia nesta evidência, nem atue de acordo com ela não pode exercer Medicina! É o mesmo que um piloto de aviões afirmar que não acredita na engenharia que faz com que o avião levante voo… e ainda estar à frente dos comandos do aparelho!

 

JM | Quais os principais mitos em torno da vacinação que ainda persistem?

GF | “Coitadinhas das crianças que levam com milhares de antigénios”. Mentira! Nunca se administraram tão poucos antigénios como agora, porque quando a vacinação começou, as vacinas já eram seguras, mas do ponto de vista antigénico muito menos “apuradas”, algo que a tecnologia de hoje em dia permite.

Quando uma criança nasce e lhe entra a primeira golfada de ar nos pulmões, está imediatamente sujeita a inúmeros antigénios que andam no ar. E a nossa vida é isso, contatar com antigénios e criar defesas. Os antigénios da vacina são a forma benigna de contatar com os vírus/bactérias, sendo que a alternativa é ter a doença.

 

 

Outro mito é o de que “as doenças não existem”. Ora, não existem porque vacinamos! Costumo dizer às mães que eu vejo bem porque uso óculos. Se os tirar, se deixarmos de nos vacinar, os vírus e bactérias não se extinguiram e como tal podemos ficar doente.

 

JM| No início de 2017, o Programa Nacional de Vacinação (PNV) sofreu algumas alterações à sua estrutura. Já temos dados que permitam perceber se as mudanças efetuadas trouxeram efetivamente ganhos em saúde? Prevêem-se mais mudanças para breve no PNV?

GF | Estamos precisamente neste momento a começar a avaliar esse impacto, quer ao nível da dinâmica das doenças, quer das alterações de doses.

É preciso salientar que o PNV é uma ferramenta que jamais pode ser estática. Todos os anos, a Comissão Técnica de Vacinas da DGS reúne e faz a avaliação macro do PNV, decide qual o plano de avaliação especial (sem ser de rotina) e estabelece a agenda das vacinas que vão entrar em revisão nesse ano. Para além disso, há um movimento contínuo de avaliação: estamos sempre a estudar o impacto da vacinação e o que acontece a este respeito em outros países. Não temos qualquer problema em mudar de decisão ou alterar esquemas, de acordo com a evidência que vai sendo publicada. Revemos constantemente o PNV, de acordo com a evidência científica. A tranquilidade que as pessoas podem ter na vacinação advém desta enorme base de evidência científica, que não é imutável.

Importa realçar que, para as vacinas, seguem-se as boas práticas que se aplicam a qualquer medicamento. A única diferença é que, contrariamente a uma consulta, em que o médico prescreve o medicamento mais adequado para determinado indivíduo, o PNV é uma receita universal.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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