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Fernanda Rodrigues: O que há de novo em 2018 sobre vacinas extra PNV?
DATA
25/05/2018 16:27:17
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Jornal Médico
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Fernanda Rodrigues: O que há de novo em 2018 sobre vacinas extra PNV?

A propósito da Semana Europeia da Vacinação – efeméride promovida pela Organização Mundial de Saúde (OMS), entre 23 e 28 de abril e que ficou marcada por diversas campanhas e iniciativas no nosso país –, o Jornal Médico conversou com a presidente da Sociedade Portuguesa de Pediatria (SPP), Fernanda Rodrigues, para quem os profissionais de saúde continuam a ser “a principal referência” dos pais no aconselhamento sobre vacinação. Ao nosso jornal, a especialista adiantou o que traz de novo a revisão de 2018 do documento sobre vacinas fora do Programa Nacional de Vacinação (PNV) da Comissão de Vacinas da Sociedade de Infeciologia Pediátrica (SIP) e da SPP.

JORNAL MÉDICO (JM) | Qual o papel dos pediatras – e também dos médicos de família (MF) – no aconselhamento dos pais acerca da importância da vacinação dos filhos, não só no que respeita ao PNV, mas mais concretamente no que concerne às vacinas extra PNV?

FERNANDA RODRIGUES (FR) | Os profissionais de saúde ligados à vacinação – entre os quais se encontram os pediatras e os MF – são, para a maioria dos pais, a principal e a mais importante fonte de informação sobre as vacinas e a sua utilização. Estes profissionais têm acesso à evidência científica mais recente, através das múltiplas reuniões onde estes temas são abordados bem como através do acesso a recomendações elaboradas por sociedades científicas e a revistas médicas com artigos revistos por pares. Adicionalmente, têm a experiência e/ou conhecimento sobre as doenças que estas vacinas previnem e com as quais, a maior parte das vezes, os pais nunca tiveram contacto. Tudo isto faz destes profissionais uma referência para aconselhamento sobre as vacinas incluídas no PNV e, em particular, sobre as que ainda não estão incluídas no PNV e que, por essa razão, colocam aos pais questões adicionais, tais como a segurança e os benefícios da sua utilização.

 

JM | O que traz de novo a revisão de 2018 do documento sobre vacinas extra PNV da Comissão de Vacinas da SIP/SPP?

FR | A Comissão de Vacinas da SIP e da SPP é um órgão de carácter científico e independente que elabora recomendações sobre vacinas fora do PNV em idade pediátrica. Procede à revisão anual dessas recomendações, atualiza-as sempre que se justifique e elabora pareceres sobre novas vacinas.

Nesta linha, as recomendações de 2018 adicionam evidência sobre a utilização da vacina proteica de quatro componentes contra o meningococo B (Bexsero) e introduzem parecer sobre uma nova vacina para prevenção da doença invasiva causada pelo meningococo B (Trumenba), que foi licenciada em 2017 na Europa para utilização em adolescentes. Fazem também uma revisão sobre as recentes alterações na epidemiologia da doença invasiva meningocócica, nomeadamente o aumento em vários países de uma estirpe hiperinvasiva pertencente ao grupo W, o que levou à modificação de programas vacinais, por exemplo, no Reino Unido, com introdução da vacina conjugada MenACWY para adolescentes e na Holanda. Para as restantes vacinas, foi atualizada a evidência existente sobre a sua segurança, impacto e efetividade.

 

JM | Com base na sua prática clínica, que razões considera que mais pesam na decisão dos pais, quando optam por não administrar aos filhos as vacinas que não estão contempladas no PNV? O preço das mesmas (múltiplas doses), o receio de reações adversas ou alguma “desconfiança” pelo facto de serem, por norma, vacinas muito recentes no mercado?

FR | Julgo que o preço e, em alguns casos, insuficiente informação sobre a doença e a vacina serão os fatores mais importantes nessa tomada de decisão. Algumas pessoas consideram a inclusão de uma vacina em PNV como uma forma de reconhecimento da importância da mesma e, como tal, têm alguma hesitação em relação a vacinas fora do PNV, mesmo quando estas são reconhecidamente seguras e efetivas.

 

Qualquer vacina, antes do seu licenciamento, passa por múltiplos estudos, nos quais a segurança está sempre em avaliação. Algumas das vacinas não incluídas no PNV português são recentes no mercado, mas para outras há já uma longa experiência de utilização em programas vacinais noutros países. 

JM | Qual a importância da imunização contra o rotavírus no mundo ocidental, sendo a taxa de mortalidade associada à infeção por este vírus praticamente nula na Europa e em Portugal?

FR | Efetivamente, a taxa de mortalidade associada à infeção por rotavírus na Europa é muito baixa. Porém, o impacto desta doença nas crianças afetadas, nas suas famílias e nos sistemas de saúde é muito elevado e está bem documentado. A doença é mais frequente e mais grave na baixa idade, levando a idas frequentes aos serviços de urgência, por vezes com necessidade de internamento e administração de soros endovenosos, por vezes com quadros de desidratação grave e de desequilíbrios hidroelectrolíticos. Para além do sofrimento para a criança, há a perda de dias de trabalho para os pais, e há os custos das observações e internamentos hospitalares. A diarreia causada pelo rotavírus é mais frequente no inverno, altura em que também ocorrem outras infeções, tais como as bronquiolites, contribuindo para a sobrelotação dos serviços de saúde. Além disso, é uma infeção muito contagiosa, sendo fácil a sua transmissão entre crianças em infantários e dentro da própria família.

 

Nos países que introduziram a vacina nos seus programas nacionais, é muito clara a importante redução da doença, em particular das infeções mais graves. Os benefícios da vacinação estendem-se para além da prevenção da mortalidade.

JM | Que impacto tem a imunização das crianças portuguesas contra a meningite por meningococo tipo B?

FR | A doença invasiva meningocócica é rara em Portugal, mas constitui um enorme desafio para o médico, pelo seu inicio súbito e pela rápida evolução. Atinge predominantemente crianças de baixa idade e, à semelhança do que acontece noutros países desenvolvidos, tem considerável mortalidade, morbilidade e sequelas. O meningococo do grupo B é o mais frequente em Portugal e na Europa. No Reino Unido, onde a vacina contra este grupo capsular faz parte do programa nacional de vacinação desde 2015 para crianças no primeiro ano de vida, há evidência crescente de importante impacto e elevada efetividade no grupo etário vacinado.

 

JM | No que respeita ao vírus do papiloma humano (HPV), a vacina está disponível no PNV apenas para as raparigas. Sendo os rapazes também transmissores do vírus, não seria ainda mais custo-efetivo incluir os rapazes nessa imunização a nível nacional?

FR | A vacina contra o HPV está licenciada desde 2006 e em uso em muitos países. Foi inicialmente introduzida nos programas nacionais de vacinação para raparigas, tendo como objetivo prevenir a infeção pelos tipos de HPV associados ao cancro do colo do útero.

Existem já dados muito robustos de uma importante redução da infeção persistente, dos condilomas genitais e de lesões genitais de baixo e alto grau, demonstrando uma elevada efetividade da vacina. Sendo assim, é expectável uma redução dos cancros associados aos tipos de HPV contidos na vacina. Adicionalmente, foi também observada uma redução importante dos condilomas genitais nos parceiros sexuais das raparigas vacinadas o que confirma a existência de imunidade de grupo. Esta imunidade de grupo está diretamente relacionada com a cobertura vacinal nas raparigas.

A análise do custo-efetividade é complexa e depende do preço da vacina, da incidência da doença associada ao HPV e da cobertura vacinal nas raparigas. Mas há outros argumentos relacionados com a vacinação dos rapazes, nos quais se incluem a equidade de acesso a uma vacina e, em particular, a proteção de homens que têm sexo com homens e que não beneficiam da imunidade de grupo de um programa vacinal que inclua apenas raparigas.

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