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Álvaro Carvalho: “Com projetos como o da FAC, o SNS só tem a ganhar!”
DATA
19/09/2018 16:46:17
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Jornal Médico
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Álvaro Carvalho: “Com projetos como o da FAC, o SNS só tem a ganhar!”

Quem o diz é Álvaro Carvalho, médico e presidente da Fundação com o mesmo nome, criada com o intuito de fazer chegar cuidados de saúde às regiões do interior do país, por serem aquelas em que as pessoas têm maiores dificuldades no acesso. Neste sentido, a Fundação Álvaro Carvalho (FAC), dá especial atenção às doenças crónicas, nomeadamente do foro oncológico, cardiovascular, hipertensão arterial (HTA), diabetes, demências, obesidade, assim como prestar apoio a idosos e a deficientes. No futuro, Álvaro Carvalho espera alargar o raio de ação da FAC,contemplando também o sul do país.

JORNAL MÉDICO (JM) | Como surgiu a ideia de criar a FAC?

ÁLVARO CARVALHO (AC) | Quando me reformei do serviço público, alguns amigos e colegas acharam que era demasiado novo para colocar a Medicina de lado, porque entendiam que ainda tinha muito para lhe dar. Um certo dia, o Dr. Luís Queirós, que é o verdadeiro padrinho desta ideia, lançou-me o desafio de criar uma fundação que tivesse por missão social prestar cuidados de saúde no interior do país. Acordou-se desde início que esta ação teria de ser articulada com o Serviço Nacional de Saúde (SNS) e com outras instituições locais. Após muita discussão em torno do assunto, uma vez que se anteviam algumas dificuldades, comecei a pensar na forma de concretizar o projeto.

O primeiro passo dado foi a angariação dos fundos necessários, porque para constituir uma entidade destas é preciso ter um património de 250 a 300 mil euros, no mínimo.Com a vontade de vários beneméritos que se quotizaram foi possível alcançar esse primeiro objectivo. Outra dificuldade inicial foi chegar a um consenso sobre que designação atribuir à fundação. Nessa altura, algumas hipóteses, como - Haja Saúde – foram colocadas em cima da mesa... Porém, o núcleo duro dos apoiantes manifestou a opinião de que fazia mais sentido dar-lhe o nome do seu “fundador”, porque era a sua imagem que estaria ali representada e a organização iria girar em torno dele.

 

JM | Qual é a missão social da FAC? E quais os seus principais objectivos?

AC | A ação da FAC é norteada por quatro linhas essenciais. Em primeiro lugar, ambiciona ter âmbito nacional, embora com especial incidência nas zonas “deprimidas” do interior do país. Em segundo lugar, quer privilegiar os sectores mais carenciados da população ou os socialmente excluídos. Pretende dirigir uma especial atenção às doenças crónicas, sobretudo do foro oncológico, cardiovascular, hipertensão arterial, diabetes, demências, obesidade, bem como o apoio a idosos e a deficientes.

Para atingir estes objectivos, aposta em ações de educação e formação para a saúde, de prevenção, avaliação de risco clínico, diagnóstico e tratamento de doenças.

Por último, a FAC pretende exercer a sua actividade em articulação e diálogo permanente com as estruturas assistenciais do SNS.

Em suma, no sentido de alcançar estas metas, celebra protocolos com estabelecimentos de ensino e estabelece parcerias, privilegiando a colaboração com instâncias governamentais e intergovernamentais, com entidades públicas e privadas, de âmbito local, regional e nacional e com organizações internacionais vocacionadas para os problemas de saúde.

 

JM | Qual o porquê desta especial atenção da FAC ao interior do país?

AC | O interior reúne condições especiais, na medida em que tem uma população muito envelhecida e carente de cuidados de saúde. Por isto, fazia todo o sentido que o trabalho da FAC começasse por incidir nestes territórios distantes. Nesta linha, as primeiras acções desenrolaram-se nos distritos da Guarda e de Castelo Branco.

Uma das primeiras especialidades a ser contemplada foi a Oftalmologia, porque nestas regiões os doentes esperam uma eternidade por consultas nesta área e por cirurgias às cataratas.

No estudo prévio que foi levado a cabo, percebemos que a Oftalmologia talvez fosse a área mais deficitária. Por isso, as primeiras iniciativas tiveram como alvo esta especialidade, incluindo operações às cataratas. Muitos dos habitantes destas zonas, maioritariamente idosos, estavam quase cegos, porque o SNS não lhes dava resposta neste sentido. Sendo assim, era prioritário começar por aí, dando o nosso contributo para a resolução dos seus problemas. Para tal, tentou-se e conseguiu-se fazer parcerias com algumas autarquias, de forma a custear as cirurgias, assumindo cada instituição metade do preço total. Também houve acordo quanto à selecção de doentes, baseada em critérios clínicos e sociais.

Mediante protocolos efectuados por todas as entidades envolvidas, as cirurgias têm sido feitas no Hospital da Cruz Vermelha, em Lisboa, e na clínica COBI, em Castelo Branco.

 

JM | Que outras ações estão na calha?

AC | Já foram efetuadas operações às cataratas a doentes dos concelhos de Almeida, Penamacor, Sertã e Proença-a-Nova, para além de Idanha-a-Nova (112 no total). Mas a acção da FAC não se tem centrado apenas nesta especialidade. Outras têm sido objecto de atenção, como é o caso da Dermatologia, atendendo a que no distrito de Castelo Branco existe apenas um dermatologista a trabalhar no SNS. Para ajudar a colmatar esta lacuna, estão a ser feitas consultas desta especialidade nos centros de saúde (Idanha-a-Nova, Proença-a-Nova e Penamacor – 60) e no Hospital Distrital de Castelo Branco (60).

Na valência de Cardiologia têm sido oferecidas consultas (Almeida, Penamacor e Idanha-a-Nova – 54), com exames auxiliares de diagnóstico (electrocardiogramas e ecocardiogramas). Já estão a ser programadas mais algumas em  Proença-a-Nova.

A FAC está ainda empenhada na melhoria das condições de tratamento e de mobilização dos idosos e deficientes motores que residem em lares seniores.Pretende-se com isso evitar, ou reduzir ao máximo, as complicações resultantes de quedas dessa população idosa e fragilizada. Além disso, a aplicação de boas práticas também vai permitir reduzir os acidentes de trabalho a que estão sujeitos os funcionários que deles cuidam.

Estas ações de sensibilização estão a cargo de uma equipa de fisioterapeutas, formados na Escola de Reabilitação do Alcoitão, que aliam à sua juventude, muita competência e aplicam enorme entusiasmo no desempenho dessas tarefas. Foram feitas cinco sessões (duas em Almeida eum em Idanha-a-Nova, Sertã e Cascais), que abrangeram uma centena e meia de profissionais. Estão previstas mais algumas nos próximos meses, a primeira das quais na Associação Sócio Terapêutica de Almeida (ASTA), já no mês de Outubro.

A Fundação vai estender esta prestação multifacetada de cuidados assistenciais a outros concelhos da região centro do país, através de um projeto que se encontra em aprovação. Mais tarde, tencionamos avançar também para o sul, havendo já contactos em marcha no sentido de cumprir esse desígnio. 

 

JM | Já pode levantar o véu sobre esse novo projeto em aprovação?

AC | Sim. Chama-se “Dar visão ao Interior”. Esta designação tem um duplo sentido: tem que ver com o facto de, com ele, se pretender melhorar a visão de pessoas com cataratas; mas também é uma forma de evidenciar e dar visibilidade às carências de saúde que se vivem no interior do país.

Esta iniciativa pretende reforçar a promoção da inclusão social de populações desfavorecidas, através da intervenção de várias entidades públicas (hospitais, centros de saúde, autarquias) e empresas, em parceria com a FAC.

No fundo, esta convergência de esforços visa melhorar a qualidade de vida de pessoas fragilizadas, promovendo um acesso mais rápido aos cuidados de saúde de que necessitam. Desta forma, estamos a colaborar com o SNS na redução de listas de espera para consultas, em especialidades problemáticas, e para as operações às cataratas (temos previstas 2.400 consultas e 260 operações em três anos).

Neste programa, também estão agendadas as ações de sensibilização para as boas práticas, que abrangerão um universo de 100 lares e 1.500 funcionários. O cálculo do investimento global é de 560 mil euros.

 

JM | De que forma é que os médicos podem colaborar com a FAC?

AC | Podem fazê-lo de várias maneiras, porque o mais importante é ajudar a concretizar estas e outras ações que venhamos a desenvolver. Alguns têm-no feito de forma voluntária, sem quererem receber nada em troca. Claro que sabemos que há colegas com dificuldades financeiras. A estes, a FAC está em condições de pagar o que for justo e razoável pelo seu trabalho. Todos aqueles que estiverem na disposição de colaborar podem contactar a Fundação, porque quantos mais forem os cooperantes nesta missão, mais longe iremos na construção desta obra solidária.

Todos os anos envio mensagens de e-mail para cerca de mil amigos, a pedir para doarem os 0,5% do seu IRS. Logo no primeiro ano, foi possível angariar, com esta consignação do IRS, uma verba total de 17.500 euros. Esperamos que este valor cresça nos próximos anos. Pode parecer pouco, para os fins em vista, mas esta quantia deu para pagar as operações a 28 doentes.

 

JM | Qual a sua opinião sobre o estado atual do SNS?

AC | O SNS, tal como acontece noutros países, tem carências, dificuldades e não chega a todo o lado. Além dos entraves esperados, existem constrangimentos devido a assimetrias regionais. A fixação de especialistas em determinadas zonas do país é muito difícil. Por exemplo, a ULS da Guarda tem cinco dermatologistas, mas a ULS de Castelo Branco só tem um. No entanto, na área da Urologia, a situação é mais favorável neste distrito do que no da Guarda.

Acho que para suprir as lacunas, os governantes têm de procurar soluções inovadoras, se possível com o apoio de entidades diversas. Se estas questões forem bem equacionadas podem atrair-se para estes projectos diversos organismos locais – autarquias, sector social, empresas e outras organizações da sociedade civil.

Não temos dúvidas de que se houver projetos interessantes, como o que a FAC está a desenvolver, o SNS só tem a ganhar!

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