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Alexandre Lourenço: “Urge redefinir o modelo de organização e prestação de cuidados em contexto hospitalar”
DATA
29/10/2018 15:06:43
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Jornal Médico
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Alexandre Lourenço: “Urge redefinir o modelo de organização e prestação de cuidados em contexto hospitalar”

A propósito do 27.º Congresso da European Association of Hospital Managers (EAHM) – organizado pela Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares (APAH), que decorreu entre 26 e 28 de setembro, no Centro de Congressos do Estoril – o Jornal Médico conversou com o presidente da Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares (APAH), Alexandre Lourenço, sobre o evento subordinado ao tema “Redefining the role of the hospital – innovating in population health”.

Pretende-se que o congresso seja “um ponto de partida para uma agenda de promoção do novo modelo de hospital”, adiantou, ao nosso jornal, Alexandre Lourenço. Isto porque, sublinha, “o atual modelo de prestação de cuidados a nível hospitalar encontra-se obsoleto”. A agenda, essa, quer-se europeia, e para tal a APAH conta com o apoio da Organização Mundial de Saúde (OMS), da Comissão Europeia (CE) e da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE).

No entender de Alexandre Lourenço, é urgente desenvolver um modelo de prestação de cuidados que responda às atuais caraterísticas sociodemográficas da população (envelhecimento e multimorbilidade), centrado nas pessoas, que envolva todos os prestadores e com enfoque nos doentes com necessidades complexas fora do ambiente hospitalar. Daí que, entre os tópicos a debate nos trabalhos, tenha merecido particular destaque o desenvolvimento de um sistema centrado nas necessidades e satisfação do cidadão e a identificação e implementação de modelos, soluções, metodologias e processos de integração vertical e horizontal dos cuidados de saúde.

O encontro, que reuniu mais de 500 gestores e diretores hospitalares de mais de 25 países da Europa, teve por objetivo o debate e partilha de experiências sobre administração hospitalar. Foi ainda dado ênfase ao papel das instituições hospitalares enquanto agentes de inovação em saúde populacional.

 

Redesenhar o hospital e adaptar o modelo de prestação aos doentes de hoje

 O novo modelo de organização e prestação de cuidados em contexto hospitalar preconizado pela APAH rejeita a ideia de hospital como entidade passiva e espaço físico tão rígido, salientando a necessidade de este passar a desempenhar um papel mais interventivo na saúde da comunidade, em proximidade.

De acordo com Alexandre Lourenço, “os doentes de hoje não são os mesmos de quando os hospitais foram criados. O atual modelo de organização hospitalar diz respeito a doentes essencialmente agudos que, na prática, iam ao hospital, eram internados, tratavam-se, tinham alta e voltavam para a comunidade. Hoje em dia temos doentes de continuidade que se mantêm no hospital durante vários anos e o hospital não está desenhado para estes doentes”.

O presidente da APAH considera que os hospitais estão atualmente “muito focados nos processos internos de prestação de cuidados”, mas “desfocados da experiência e do interesse do doente”. Esta é “a grande mudança cultural que tem de existir no sistema”, advoga.

O atual modelo de organização dos hospitais conta com mais de 50 anos e, garante Alexandre Lourenço, “tem vindo a descurar as alterações sentidas a nível de inovação tecnológica, digital, bem como dos perfis demográficos da população, sendo que, em muitos aspetos, ainda se continua a seguir a atividade pela tradição ou pelo costume, em detrimento do conhecimento”.

Assim, adianta o responsável, “o nosso modelo organizacional é cada vez mais visto como não confiável, inseguro e propenso ao erro e não é esse o rumo que queremos seguir”.

 

Profissionalização de gestor de serviços de saúde é imperativo

Na ótica da APAH, “os gestores de serviços de saúde necessitam de ser dotados de maiores conhecimentos e competências, passando necessariamente pela profissionalização e avaliação transparente., de forma a “promoverem a mudança necessária”.

Uma “avaliação permanente de todos os atores interessados no sistema de saúde” contribuirá para que haja gestores “preparados e qualificados”, explica Alexandre Lourenço, acrescentando: “a gestão [dos hospitais] é altamente complexa. São organizações com profissionais elevadamente diferenciados e estas pessoas também têm de estar envolvidas na gestão e na decisão da sua organização, principalmente na decisão estratégica do caminho a percorrer. [Os profissionais] têm de ser trazidos para a gestão de topo, não necessariamente na gestão operacional diária, mas na gestão estratégica”.

A APAH tem defendido que os gestores dos hospitais sejam avaliados e responsabilizados pela sua gestão, promovendo os melhores e afastando os que tenham pior desempenho, numa verdadeira cultura de qualidade e transparência.

O presidente da associação insiste na necessidade de ser dada autonomia aos hospitais, mas com “orçamentos próximos dos custos reais” e passando-se assim a responsabilizar a gestão. Ao nosso jornal, Alexandre Lourenço elencou os vários obstáculos à transformação que a APAH considera imperativa, entre os quais se destacam “a falta de autonomia e os orçamentos muito desfasados da realidade”.

Recentemente, o ministro da Saúde, Adalberto Campos Fernandes, anunciou a intenção de dar autonomia a um quarto dos hospitais portugueses, um processo que deverá arrancar já no próximo ano. A este respeito, e segundo o presidente da APAH, “parece existir muita abertura por parte do ministério da Saúde, mas nem tanta por parte das Finanças”.

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