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Vítor Veloso: “A descoberta da vacina contra o HPV foi um acontecimento extraordinário”
DATA
26/11/2018 16:45:29
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Vítor Veloso: “A descoberta da vacina contra o HPV foi um acontecimento extraordinário”

No âmbito da celebração dos dez anos da introdução da vacina contra o vírus do papiloma humano (HPV) no Programa Nacional de Vacinação (PNV), assinalados em outubro, o nosso jornal falou com o presidente da Liga Portuguesa Contra o Cancro (LPCC), Vítor Veloso, sobre o panorama atual do cancro do colo do útero, bem como das mais-valias da nova vacina nonavalente, entretanto incluída no PNV.

Atualmente, o HPV é considerado o segundo carcinogéneo mais importante, logo a seguir ao tabaco. Este vírus está associado a 5% dos cancros, em geral, e a 10% na mulher. De salientar, ainda, que o cancro do colo do útero é o segundo mais frequente na mulher a seguir ao cancro da mama, sendo, em praticamente 100% dos casos, associado à infeção por HPV.

Questionado acerca da relevância do aparecimento de uma vacina contra o HPV e sobre a importância da sua inclusão no PNV, Vítor Veloso não tem dúvidas de que a mesma representa uma grande conquista para a Medicina.

“Considero que a descoberta de uma vacina, neste caso contra o HPV, foi um acontecimento extraordinário, ao qual a LPCC não poderia ficar indiferente. Foi, por isso, que a LPCC, juntamente com todas as sociedades científicas nacionais direta ou indiretamente relacionadas com o HPV, encetou uma campanha nacional (e até internacional a nível da Europa Comunitária), no sentido da introdução da vacina no PNV”, começou por dizer.

De acordo com o especialista, o panorama de há dez anos em Portugal relativamente ao cancro do colo do útero e outras doenças provocadas pelo HPV, “era dramático em comparação com outros países da Europa”. Por exemplo, “tínhamos o dobro da incidência e mortalidade do que a nossa vizinha Espanha”.

Felizmente, Vítor Veloso considera que o panorama atual está bastante melhor, nomeadamente ao nível da incidência e da mortalidade, que têm vindo a diminuir gradualmente ao longo dos últimos anos.

Já sobre as vantagens da nova vacina nonavalente, entretanto incluída no PNV (a primeira dose é administrada às crianças do sexo feminino com 10 anos), o presidente da LPCC destacou o facto de ser “mais abrangente” e “dirigida a um maior número de vírus de alto risco”.

Recorde-se que, na altura, esta vacina veio substituir a vacina quadrivalente contra o HPV, por apresentar um maior potencial para prevenir mais 20% de casos de cancro e mais 30% de casos de lesões pré-cancerosas associadas a este vírus. Os nove tipos de HPV contra os quais a nova vacina protege são responsáveis por aproximadamente 90% de todos os casos de cancro do colo do útero, 85-90% dos cancros da vulva associados ao HPV, 90-95% dos cancros do ânus associados ao HPV e 80-85% dos cancros da vagina associados ao HPV, em toda a Europa.

De futuro, Vítor Veloso espera que a vacina contra HPV seja introduzida no PNV para crianças e jovens do sexo masculino. “Se houver introdução da vacina para os jovens do sexo masculino penso que Portugal estará nos primeiros lugares do ranking desta prevenção primária”, sublinhou.

Note-se que dos mais de 130 genótipos de HPV estudados até hoje, cerca de 40 infetam, preferencialmente, o trato anogenital: vulva, vagina, colo do útero, pénis e áreas perianais. De acordo com o seu potencial oncogénico, os genótipos HPV podem ser classificados como de “baixa risco” ou de “alto risco”. Por sua vez, os genótipos oncogénicos ou de “alto risco” estão associados ao desenvolvimento do cancro anogenital.

No caso do sexo masculino, sabe-se que a incidência média acumulada ao longo da vida em heterossexuais, entre os 18 e os 44 anos, oscila entre os 56 e 65%, dos quais 26-50% são HPV-AR (alto risco), sendo que a incidência se mantém constante ao longo dos anos, ao contrário da mulher em que há uma redução a partir dos 30 anos. Sublinhe-se que no caso dos homossexuais e bissexuais a prevalência é mais alta.

Note-se, ainda, que os homens estão em risco de desenvolver condilomas genitais, cancros do ânus, do pénis, da cabeça e pescoço e neoplasias intraepiteliais do pénis e ânus (PIN e AIN), estimando-se que, na Europa, o número de casos/ano, associados aos tipos de HPV6, 11, 16 e 18, seja elevado.

Saúde Pública

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