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Jesús Ponce: “Inovação disruptiva e Medicina personalizada serão garantia de eficiência”
DATA
26/11/2018 16:48:50
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Jesús Ponce: “Inovação disruptiva e Medicina personalizada serão garantia de eficiência”

“Tem sido um caminho de construção em que olhamos o futuro com expetativa, com paixão e com foco”. É desta forma que o Country President da AstraZeneca Portugal, Jesús Ponce, resume os três anos ao leme da farmacêutica, que tem a inovação como parte do seu ADN. Com duas dezenas de lançamentos previstos para os próximos três anos – metade das quais destinados ao tratamento das doenças cardiovasculares, renais e metabólicas – o responsável explica que em termos de pipeline na diabetes a companhia está particularmente empenhada em consolidar a sua presença nas diferentes classes terapêuticas (inibidores da DPP-4, análogos da GLP-1 e inibidores da SGLT-2), procurando sempre ser best in class ou first in class. Envolver a comunidade médica e científica portuguesa na Declaração de Berlim – ação conjunta com o objetivo de alertar para a necessidade de ação precoce na diabetes tipo 2 – é outro dos compromissos no âmbito desta doença “pandémica”.

JORNAL MÉDICO (JM) | Há dois anos, em entrevista ao nosso jornal, sublinhou a necessidade de tornar os processos de aprovação dos fármacos mais céleres, em Portugal. Considera que houve melhorias a este nível?

JESÚS PONCE (JP) | Acho que nos últimos dois anos a situação melhorou, especialmente em 2017, ano em que houve muito boas novidades em termos de aprovações. Atualmente, a dinâmica de avaliação dos processos é mais célere, é mais ativa, mas ainda há muitos atrasos e como tal ainda há muito trabalho a fazer.

Reconhecemos o esforço que está a ser levado a cabo pelas autoridades e enquanto companhia farmacêutica estamos sempre disponíveis para trabalhar em parceria e proximidade com as autoridades de saúde, no sentido de tornar estes processos cada vez mais céleres.

 

JM | Continua a deparar-se com uma certa “resistência à mudança” no contexto da Saúde a nível nacional? Como tem a AstraZeneca (AZ) procurado fazer frente a esta situação?

JP | Sinto que essa “resistência à mudança” persiste em Portugal, por ser um aspeto cultural profundo. Mas, os tempos avançam a uma velocidade enorme e as mudanças são inevitáveis, pelo que todos teremos que conviver com elas. O mundo à nossa volta está a mudar e não há outra forma de abraçar o futuro.

No âmbito da Saúde, enquanto empresa stakeholder do setor e com as competências que temos enquanto companhia farmacêutica, queremos ser parceiros e queremos colaborar no desenvolvimento de ferramentas e de plataformas que ajudem nos desafios que atualmente se colocam ao sistema de saúde.

Um dos principais desafios, já identificado por nós, é o da necessidade de geração de dados/informação. Ter evidência, dados epidemiológicos e dados de prática clínica real é fundamental. Esta é uma área em que estamos focados e em que a AZ está a apostar/investir. Há dois anos, já estávamos a começar a percorrer este caminho estratégico. Na altura tínhamos um total de 12 estudos em aberto. Atualmente temos 22, sendo que alguns são ensaios clínicos e outros estudos de evidência clínica real. Este é um dos pilares estratégicos da companhia em Portugal, uma das áreas onde a AZ coloca o seu investimento.

 

JM | Sendo a sustentabilidade do Serviço Nacional de Saúde (SNS) uma preocupação da AZ, que comentário lhe merece o Orçamento do Estado (OE) para 2019 recentemente aprovado, com um aumento de 0,5% na “fatia” alocada à Saúde?

JP | Acho que é um esforço notável. São mais 500 milhões, mas o subfinanciamento do SNS vai manter-se. Mais uma vez, a este nível, precisamos de um esforço conjunto de todos os agentes do setor.

 

JM | Essa disponibilidade da AZ para um trabalho em parceria com as autoridades é, de certa forma, uma mensagem para a nova ministra da Saúde?

JP | Sim. A nossa postura mantém-se. Somos uma companhia focada na inovação. A inovação faz parte do nosso ADN e estamos totalmente comprometidos na missão de trazer essa inovação aos portugueses. Nos próximos três anos vamos ter mais de 20 lançamentos (entre novos produtos, novas formulações e novas indicações) e este é o maior reflexo do compromisso da AZ com a inovação.

 

JM | Quantos desses lançamentos serão na área da diabetes?

JP | Quase metade. Dez destes 20 lançamentos vão ocorrer na área terapêutica em que a diabetes se insere na AZ: a Cardiovascular, Renal & Metabólica. A par das áreas Respiratória e Oncológica, a Cardiovascular, Renal & Metabólica é uma das três áreas estratégicas da AZ. Temos as doenças cardiovasculares, renais e metabólicas agrupadas numa mesma área, na medida em que temos como foco principal o doente e queremos tratá-lo como um todo, ao invés de o olharmos de forma compartimentada ou apenas para as doenças isoladamente.

 

JM | O enfoque estratégico da AZ na diabetes não é de agora… O que há, atualmente, nesta área terapêutica, a destacar no pipeline da AZ a nível global?

JP | Em termos de pipeline na diabetes estamos muito focados em consolidar a nossa presença nas diferentes classes terapêuticas: nos inibidores da DPP-4, nos análogos da GLP-1 e nos inibidores da SGLT-2. Tudo o que não for insulina, são os grupos terapêuticos onde queremos estar presentes, sempre com o foco em sermos os best in class ou first in class. Esta é uma estratégia que nos tem levado a desenvolver combinações e associações fixas entre classes terapêuticas diferentes.

 

JM | Em termos quantitativos, que peso têm os antidiabéticos nas vendas da AZ Portugal?

JP | A áreas Cardiovascular, Renal & Metabólica tem um peso grande na nossa atividade e os antidiabéticos correspondem a cerca de 25 a 30% do nosso volume total de vendas.

Um dos pontos dignos de salientar, a este respeito, é que uma das classes terapêuticas mais promissoras é a dos inibidores da SGLT-2, na qual a AZ marca presença com a dapagliflozina, que é líder dentro do mercado português das formulações livres na diabetes.

 

JM | Enquanto responsável de uma farmacêutica com uma aposta forte na diabetes, quer deixar uma palavra aos médicos que lidam diariamente com este flagelo?

JP | A diabetes é uma verdadeira pandemia. Neste sentido, tem que haver um compromisso de todos na atuação precoce. Esse é o grande compromisso e a responsabilidade que nós próprios, enquanto companhia farmacêutica partilhamos. Uma das iniciativas que a AZ abraçou, neste âmbito, passou por sermos pioneiros em trazer a Declaração de Berlim para Portugal. Trata-se de uma ação conjunta, assente numa ambição coletiva de mudança nas políticas para tornar urgente a ação precoce na diabetes tipo 2.

A diabetes precisa, não só, de um foco na prevenção, diagnóstico e controlo precoces, mas também da garantia de acesso precoce às intervenções adequadas. O objetivo da assinatura desta declaração é divulgá-la, bem como aprofundar esse compromisso entre todos os parceiros e sociedade. Trazer a Declaração de Berlim para Portugal configura a translação local/nacional de uma declaração multinacional lançada há cerca de um ano. O grande objetivo da mesma é garantir que a ação precoce na diabetes tipo 2 acontece. E esta ação precoce tem várias componentes, entre as quais o desenvolvimento de programas de prevenção, de programas de deteção precoce, ativação do controlo precoce, garantia de acesso às intervenções/terapêuticas adequadas, entre outras.

Também neste âmbito da diabetes tipo 2 e da importância da atuação precoce, a AZ lançou um projeto inovador, designado “Inércia Clínica”, que pretende avaliar quais os fatores que na prática clínica levam a que os médicos atrasem/adiem o início da intervenção terapêutica, isto é, quais os fatores que contribuem para uma certa inércia clínica.

 

JM | Atualmente, a AZ tem a decorrer linhas de investigação e desenvolvimento (I&D) na diabetes com potencial para “revolucionar” o tratamento desta doença. Podemos falar em travar a progressão da diabetes ou até numa cura para a doença?

JP | Estamos a falar de substâncias em fase I e II de I&D, pelo que temos que esperar para ver... Para já, estamos a testar essa possibilidade.

A nossa grande ambição é articular todas as nossas linhas de investigação de forma a que se traduzam em outcomes reais para os nossos doentes, seja no sentido de adiarmos a progressão da doença, seja na obtenção de ganhos cardiovasculares.

Recentemente, os nossos estudos têm obtido um grande reconhecimento a nível internacional. A título de exemplo, fomos recentemente reconhecidos pela Idea Pharma como a companhia que teve a maior capacidade de translação de estudos de fase II e III para produtos disponíveis no mercado.

Procurar que estas linhas de investigação se materializem na prática clínica real em produtos comercializados é algo que está no ADN da AZ. Um bom exemplo disso é o estudo DECLARE, levado a cabo com a dapagliflozina para avaliar outcomes a nível cardiovascular e que consiste no estudo com uma população mais alargada que reflete a prática clínica real. Ao invés de incluir doentes de alto risco com evento cardiovascular prévio, este estudo inclui a população diabética geral, ou seja, aquela que entra diariamente no consultório do médico de família e que configura o perfil do doente real. Os headlines deste estudo foram apresentados recentemente no EASD 2018, em Berlim, com resultados globalmente positivos, estando prevista para breve a divulgação da totalidade dos dados.

 

JM | Quais prevê que sejam, numa perspetiva nacional e em termos globais, as tendências do mercado farmacêutico a curto/médio prazo e como fará a AZ frente a essas dinâmicas?

JP | Associadas à sustentabilidade, há dois conceitos-chave que também fazem parte do ADN da AZ e que certamente marcarão o futuro do mercado farmacêutico: inovação disruptiva e Medicina personalizada.

A garantia do sucesso depende da capacidade de criar inovação disruptiva, pois este é o único tipo de inovação que terá espaço no futuro. Associada a este conceito, a Medicina personalizada (perfil do doente, biomarcadores específicos que garantam a máxima eficácia terapêutica para determinado fenótipo) é outro conceito de futuro.

Não tenho dúvidas de que a inovação disruptiva, associada à Medicina personalizada, será o garante da eficiência.

 

JM | Que balanço faz destes quase três anos à frente da AstraZeneca Portugal?

JP | O balanço que faço é muito positivo, mas tem sido um caminho de muito esforço, de muitas mudanças e de muito sacrifício por parte de todos os colaboradores da companhia.

Da minha parte e da equipa com que trabalho diariamente, a garantia que posso dar é a de entrega total, que permitiu que as expetativas que tínhamos há dois/três anos estejam agora a tornar-se realidade. O momento que vivíamos há dois anos, com um pipeline robusto de lançamentos possíveis, está hoje a concretizar-se. O pipeline está a tornar-se portefólio e a prova disso são as duas dezenas de lançamentos de novos produtos, novas formulações e novas indicações que teremos nos próximos três anos. É este, sem dúvida, o fator mais diferenciador.

Tem sido um caminho de construção em que olhamos o futuro com expetativa, com paixão e com foco. As metas que agora alcançamos não teriam sido possíveis sem o empenho dos colaboradores, nem sem a cultura que partilhamos dentro da companhia. Uma cultura que aposta nas pessoas, no empreendedorismo, na inovação e que se foca no crescimento, com todas as componentes de risco que esta estratégia comporta.

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