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Dermatite atópica: 90% dos casos ocorrem antes dos 5 anos
DATA
28/12/2016 17:23:45
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Dermatite atópica: 90% dos casos ocorrem antes dos 5 anos

A dermatite atópica (ou eczema atópico) é uma das doenças crónicas da pele mais comum na criança, tendo uma evolução cíclica que intervala períodos de maior agravamento e de quase desaparecimento (remissão). O Jornal Médico Grande Público falou com três especialistas para compreender melhor esta patologia.

A fragilidade dos recém-nascidos é uma realidade sob todas as perspetivas e a sua pele não é exceção: não há dúvidas que esta é mais sensível do que a dos adultos pelas mais variadas razões, a primeira dos quais pela menor espessura que apresenta.

Também não nos é possível ignorar o facto das glândulas sebáceas produzirem menos óleo e as sudoríparas, por sua vez, menores quantidade de suor. Aquilo que pensamos ser um problema – gordura e suor – é, na verdade, aquilo que nos protege. Por tudo isto, as crianças estão mais suscetíveis a desenvolver problemas de pele, nomeadamente doenças inflamatórias como a dermatite.

Esta complicação pode apresentar-se sob três formas, de acordo com a idade da criança e a distribuição das lesões na pele: agudo, subagudo e crónico.

Para Rosa Mascarenhas, dermatologista do Hospital Distrital da Figueira da Foz, trata-se de “uma dermatose inflamatória crónica, recidivante (recorrente) e associada à atopia (alergia): a evolução das lesões é variável e não existe um teste de diagnóstico”. No caso específico dos recém-nascidos, o seu aparecimento ocorre habitualmente entre os dois e os seis meses de vida e, por norma, sofre uma remissão espontânea por volta dos três anos.

As dermatites atópicas entram também na vida das crianças, já na infância, por volta dos cinco anos. Os registos dos últimos anos dão conta de um aumento de casos desta patologia entre as crianças, estimando-se que a agudização do problema possa estar relacionada com a crescente poluição e aumento dos alergénios. Em 90% dos casos, a dermatite atópica ocorre antes dos cinco anos de idade, com 60% dos casos a surgirem no primeiro ano de vida e com igual incidência nos rapazes e raparigas. As estatísticas não enganam: afeta entre 10 e 20% das crianças nos países desenvolvidos e representa a principal causa de morbilidade infantil no mundo ocidental.

Ainda não existe uma explicação exata para o surgimento da dermatite atópica mas, de acordo com Sofia Abreu, enfermeira especialista em Saúde Infantil e Pediátrica da Unidade de Cuidados Intensivos e Pediátricos do Hospital Dr. Nélio Mendonça, no Funchal, “acredita-se que, uma combinação de uma pele seca e irritável, em conjunto com um mau funcionamento do sistema imunitário, seja uma das causas prováveis”. Acrescenta ainda o facto de poder estar “relacionada com a genética, aparecendo em bebés com asma, renite ou dermatite atópica (ou cujos pais sofram destas complicações)”. Porque a genética tem o seu peso.

Crianças e casas limpas em 3, 2, 1!

Não vale a pena continuar à procura de parecenças nas “marcas” das dermatites entre bebés, crianças, jovens e adultos. A única semelhança é o prurido e a pele seca. Vamos antes jogar às diferenças. Preparado?

Tome nota: os sintomas variam de acordo com a idade. Portanto, até aos dois anos (vamos apelidá-la de fase infantil), é comum a presença de lesões avermelhadas, húmidas e segregantes, maioritariamente localizadas na face e no couro cabeludo. Desta idade em diante as lesões são mais crónicas, podendo ser descritas como secas e descamativas e situam-se nas zonas das dobras (joelhos e axilas), nos punhos e nos tornozelos.

A dermatite atópica não tem cura, contudo existem diversos cuidados que podem ajudar na prevenção dos surtos de agravamento da doença. Opte por produtos adaptados ao banho e à hidratação dos mais novos. Boas e más notícias para quem sofre deste problema.

De acordo com Filipa Barbosa, enfermeira especialista em Saúde Infantil e Pediátrica do Serviço de Pediatria do Hospital de Braga, “os tratamentos tópicos (locais) são eficazes nas crises de exacerbação. Os dermocorticoides, aplicados diretamente nas lesões, são indispensáveis para diminuir a inflamação e a vermelhidão das mesmas. Por sua vez, os emolientes (hidratantes) combatem a secura da pele que não tem lesões, diminuindo o desconforto e a comichão”.

O banho da criança deve ser diário, com água morna e num curto espaço de tempo. A secagem da pele é feita sem esfregar e, em seguida, deve ser aplicado um creme emoliente. No caso da atividade desportiva, sempre que a criança transpire tem de tomar banho de imediato, sendo aconselhada a verificação da limpeza e do tamanho das unhas (curtas).

“Os quartos devem ser bem arejados, estando desaconselhado o uso excessivo de cobertores na cama para evitar a transpiração. Não se deve usar aquecedores, as roupas que contactam diretamente com a pele (incluindo os lençóis) devem ser de fibras naturais (como o algodão) e o calçado deve ser de couro e as meias de algodão”, adverte a enfermeira especialista.

Sendo o pó um dos fatores de agravamento da doença está igualmente desaconselhada a existência de alcatifas, cortinas, peluches e tapetes nos quartos das crianças. Porque as questões ambientais em torno da criança também contam.

Depois de casa e criança limpas saiba que manter a calma pode ser decisivo em situações de agudização do problema até porque, segundo a opinião profissional de Filipa Barbosa, “as crianças captam o nervosismo dos pais, o que pode causar ainda maior agravamento dos sintomas”.

Conheça os principais sintomas da dermatite (ou eczema)

Ruborização da pele;
Aparecimento de bolhas;
Formação de crostas;
Descamação da pele;
Cicatrização da pele;
Borbulhas com pus.

Características da dermatite atópica segundo o critério da idade

Até aos dois anos de idade: lesões da face (mais região geniana) e superfícies extensoras;
Depois dos 2 anos de idade: pálpebras e linha de implantação do cabeço e superfícies flexoras.

Tome nota dos cuidados a ter

Banho diário com água morna e durante pouco tempo;
Secagem da pele (depois do banho) sem esfregar;
Aplicação de creme (depois do banho);
Em caso de atividade desportiva, a criança deve tomar banho logo de seguida;
Verificação das unhas (curtas e limpas);
Os quartos devem ser bem arejados;
Evite o uso excessivo de cobertores;
Evite o uso de aquecedores;
Opte por fibras naturais como o algodão para a escolha de peças em contacto direto com a pele;
Esqueça os perfumes;
Corte as etiquetas das roupas;
Evite furar as orelhas precocemente;
Evitar utilizar adornos com níquel;
Escolha calçado em couro acompanhado de meias de algodão;
Diga adeus às alcatifas, cortinas, peluches e tapetes nos quartos dos mais novos.

Caso real

Inês Assis tem 34 anos, é designer e tem dois filhos, um dos quais sofre de dermatite atópica desde os quatro anos (tem agora seis anos).

Quando é que começou este problema? A dermatite surgiu na vida do meu filho por volta dos quatro anos de idade.

Como é que a doença se manifestou? Apareceram várias manchas vermelhas, pele muito vermelha, minibolhas e ardor (prurido).

O que é possível fazer para atenuar o problema? Ponho-lhe o creme da varicela. Antes usava um hidrante e isso resolvia o problema.

É recorrente? Apareceu ontem. Surge de vez em quando e passa.

Alguma vez procurou um especialista? A primeira vez que a dermatite apareceu fui com ele à pediatra ou à médica de família, já não me lembro, porque estava com medo que fosse outra coisa qualquer.

Que conselho gostaria de transmitir a outras mães em situação semelhante? Devem lavar a criança e aplicar creme.

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