Jornal Médico

Lenine Cunha, a história de um atleta português
DATA
06/02/2017 09:10:10
AUTOR
Jornal Médico
ETIQUETAS



Lenine Cunha, a história de um atleta português

Viu o mundo pela primeira vez há 32 anos em Vila Nova de Gaia, mas a infeção por meningococos foi uma espécie de borracha que lhe apagou o percurso de vida até aos quatro anos de idade, deixando marcas profundas. Mais de três décadas depois, é a vez de o mundo inteiro o ver, medalhar e reconhecer pelo seu mérito enquanto homem e atleta. Hoje divide os seus dias entre os treinos intensos e as sessões de esclarecimento em escolas públicas e instituições de ensino especial um pouco por todo o país, onde não esconde as dificuldades trazidas pela doença. Chama-se Lenine Cunha e faz parte da campanha #WinForMeningitis ao lado de outros atletas marcados pela mesma doença.

 

Da fama já não se livra. Lenine Cunha é, para todos os portugueses, orgulhosamente “o atleta mais medalhado do mundo” graças às suas 183 distinções, mas nem sempre de desporto foram feitos os seus dias. Nasceu em Vila Nova de Gaia no seio de uma família cujos laços o marcaram para sempre, pelo espírito de entreajuda que nunca permitiu desistir perante as dificuldades, as dores e os silêncios.

Os seus primeiros anos de vida são recordados na terceira pessoa, naquilo que parece ser uma manta de retalhos de contos, onde as vozes dos outros se sobrepõem à sua. Era uma criança igual a tantas outras, saudável e feliz, quando aos quatro anos a Meningite atingiu o seu pequeno corpo, irrompendo-lhe a vida. As lesões graves no desenvolvimento de Lenine, carinhosamente tratado por Lenny pelos mais chegados, não tardaram em fazer-se presentes: perdeu, nessa altura, a memória, a capacidade de falar e de andar, golpes demasiado duros para uma curta vida.

Outras “marcas” ficaram para sempre. “Vejo apenas 25% no olho esquerdo e tenho problemas de audição, mas o pior foi o impacto intelectual”, explica Lenine Cunha ao nosso jornal.

Os dias nas escolas por onde passou têm implícito o peso dos obstáculos. “Tinha dificuldades a tudo. Só com a ajuda dos meus pais é que conseguia fazer tudo”, recorda o atleta. Foi no desporto que encontrou uma nova vida graças à mãe, Ana Maria, que viu no Atletismo mais do que simplesmente “mexer as pernas”, uma forma de correr contra o tempo, aquele que a Meningite roubou sem pejo. “O desporto entrou na minha vida aos sete anos pela mão da minha mãe, que tinha como objetivo que eu me desenvolvesse fisicamente, claro, mas principalmente a nível intelectual. Foi a melhor coisa que ela podia ter feito!”, aponta.

Começou no andebol à volta do círculo nos Jogos Juvenis de Gaia, uma competição típica nas suas raízes. Foi, mais tarde, um colega do pai de Lenine, o treinador José Costa Pereira, a falar-lhe de outros caminhos possíveis no mundo do desporto. Os pais do jovem atleta, sempre presentes, conheciam bem as suas dificuldades e, como o próprio afirmou, “sabiam que eu era diferente das outras crianças”.

Também aquele que é o seu atual preparador físico era um bom conhecedor da sua história de vida e não tardou em contar-lhe casos iguais ao seu. Começou a introduzir-lhe novos conceitos, espicaçando-o para dar um passo diferente, que exigia mais de si, quer a nível interior, quer exterior. “Deficiência intelectual” (conhecida, à época, como deficiência mental). “Desporto adaptado”. Terminologia que era nova, mas que não lhe parecia inovadora. Aí, a revolta tomou lugar. “Não reagi bem. Tinha 16 anos e aqueles eram termos muito fortes. Quando me falavam em deficiência mental eu pensava num miúdo com trissomia 21 e assumia que ele teria dificuldades muito diferentes das minhas”, rememora.

José Costa Pereira não desistiu. Um mês depois, convidou o jovem Lenine para ir assistir a uma prova nacional e aí surge a surpresa. “Não vi nada de chocante. Havia pessoas com mais dificuldades e outras com menos, mas cada um competia na sua categoria”, afirma. A persistência do seu treinador começou a ganhar frutos: nesse mesmo ano iniciou os treinos de Atletismo no Desporto Adaptado e em março de 2000 partiu para o Campeonato da Europa, na Suécia, para a sua primeira competição no plano internacional.

As medalhas não tardaram em surgir, mas admite que só começou a pensar fazer do desporto uma carreira no ano em que competiu em Sidney, Austrália, tendo consciência das dificuldades que implica viver do desporto no país de origem. Antes da partida para a competição perdeu o trabalho como ajudante de eletricista por ter optado pela competição no estrangeiro. Teve, mais tarde e até 2003, um emprego como rececionista num ginásio, e dividia o tempo entre essa ocupação e os treinos. Depois desse ano, passou a dedicar-se em exclusivo ao desporto. “Hoje em dia treino todos os dias. Quando se aproximam as competições intensifico o tempo de treino, acrescentando uma ou duas horas por dia”, conta.

 

#WinForMeningitis
uma campanha que é a sua cara

Lenine Cunha faz parte da campanha #WinForMeningitis e é visível a motivação que sente ao representar um papel de esclarecimento acerca de uma doença que tão bem conhece. Apesar da sua história de sucesso, superação e de vitórias, Lenine Cunha acredita que é essencial haver um conhecimento concreto desta patologia. “Quando fui contactado, conheciam bem o meu percurso e eu sabia que estavam a falar com vários atletas que, tal como eu, tinham sido atingidos pela meningite. Fizeram-me o convite e eu aceitei de bom grado pela causa que é e porque tem tudo a ver comigo!”, explica.

Foi Anne Geddes, fotógrafa de renome mundial quem fez sobressair a beleza dos atletas que, juntamente com Lenine, abraçaram esta causa. “Gostei de conhecer a fotógrafa Anne Geddes, já conhecia algum do seu trabalho, mas não sabia que era dela. Pediu-me para fazer a sessão fotográfica, estive cinco dias em Nova Iorque e foi fantástico. Ela é uma pessoa excecional, tem um bom coração e durante esses dias convivi com outros atletas com mais dificuldades do que eu”, recorda.

A experiência da viagem até aos Estados Unidos da América para ser fotografado marcou muito o entrevistado, que admite ter aprendido mais sobre a própria doença, que é prevenível. “Não sabia, por exemplo, que a meningite podia causar amputações”, admite ao recordar uma jovem italiana, que também faz parte desta campanha, e que sofreu amputações nas pernas e nos braços, imagem que não esquece e que Anne Geddes imortalizou no seu estilo único.

 

E o futuro?

As ideias do jovem atleta não param. Já de regresso aos treinos após as grandes competições e um curto período de férias, Lenine encontra-se a recuperar de um joelho para, já em março, rumar até à República Checa para novos saltos.

Por cá, tem também outras preocupações. Criou, com o apoio dos amigos mais próximos, o Sport Clube Lenine Cunha e tem um objetivo muito claro na sua cabeça: “formar campeões”. Como ele. Com as suas dificuldades. Com outras. Com sonhos, garra e vontade de vencer. A prioridade, uma vez mais, passa pelo esclarecimento acerca da doença. “Quero aproveitar a minha capacidade de comunicar com as pessoas para alertar para os perigos da meningite, o que os pais podem fazer para a prevenir e para proteger as suas crianças” de uma doença que pode matar, esclarece, porque sabe que, por mais barreiras que salte, a barreira da meningite é maior, mas nunca superior à sua força interior. “Vou até onde o meu corpo me deixar!”, garante.

Registe-se

news events box