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Luís Varandas: A moda de não vacinar as crianças  é egoísta!
DATA
06/02/2017 09:50:50
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Luís Varandas: A moda de não vacinar as crianças é egoísta!

Pediatras e médicos de família têm o dever de informar os pais sobre a existência e vantagens para a criança da imunização extra Programa Nacional de Vacinação (PNV), nomeadamente acerca da vacina antimeningocócica (contra a meningite B). 

Quem o diz é o pediatra do Hospital D. Estefânia, presidente da Sociedade de Infeciologia Pediátrica (SIP) e coordenador da Comissão de Vacinas da SIP/Sociedade Portuguesa de Pediatria (SPP), Luís Varandas, salientando que, na Europa, o serogrupo B é o principal responsável pela infeção, correspondendo a 85% dos casos de meningite em crianças. Dados da Direção-Geral da Saúde (DGS) mostram que, em 2012, foram registados em Portugal 75 casos de meningite, dos quais cerca de 90% foram confirmados. Nesse mesmo ano, a estirpe mais frequentemente isolada foi a do serogrupo B (81,5%). Em entrevista ao nosso jornal, o professor e investigador da Faculdade de Ciências Médicas de Lisboa alertou para os perigos da “moda antivacinação”.

 

JORNAL MÉDICO GRANDE PÚBLICO | Que impacto tem a imunização das crianças portuguesas contra a meningite por meningococo tipo B e quais as recomendações da Comissão de Vacinas SIP/SPP a este nível?

LUÍS VARANDAS | A meningite por meningococo B – causada pela bactéria Neisseria meningitidis – é uma doença muito rara, mas muito grave. Em Portugal há entre 40 a 50 casos por ano, mas a taxa de mortalidade pode chegar aos 10%. Para além da mortalidade elevada, esta infeção pode deixar sequelas para toda a vida, quer a nível cognitivo, quer físico. Estes argumentos são suficientes para a Comissão de Vacinas da SIP/SPP emitir uma recomendação a favor desta imunização.

JMGP | Como se explica aos pais a importância da administração desta vacina em múltiplas doses, tendo em conta o seu preço elevado?

LV | Os estudos clínicos mostram que é necessária a administração de mais do que uma dose, em função da idade e da resposta imunológica. Quanto mais cedo for administrada, mais doses serão necessárias para o nosso sistema imunológico responder de forma adequada.

 

JM | Com base na sua prática clínica, que razões considera que mais pesam na decisão dos pais, quando optam por não vacinar contra a meningite B? O preço da vacina, o receio de reações adversas ou o facto de ser uma vacina ainda muito recente?

LV | Penso que a decisão de não vacinar se prende com uma mistura de todos esses motivos. Porém, quando informo os pais sobre a efetividade de determinada vacina e lhes apresento dados concretos, eles acabam por interiorizar a importância dessa imunização e decidem, na quase totalidade dos casos, pela administração da mesma.

 

JM | Até porque ao entrarem para o PNV – e temos o caso da vacina antipneumocócica – a adesão é total…

LV |Sem dúvida. Portugal tem uma das taxas de vacinação mais elevadas do mundo.

A meningite B é uma doença muito rara, mas muito grave. Em Portu­gal há entre 40 a 50 casos por ano, mas a taxa de mortalidade pode chegar aos 10%. Esta infeção pode deixar sequelas para toda a vida, quer a nível cognitivo, quer físico.

 

JM | A “moda” de não vacinar as crianças não tem grande expressão entre nós…

LV |Felizmente, não há essa tendência. Os perigos desta “moda” são bem conhecidos. Se pensarmos que só existe uma vacina que não é condicionada pela vacinação em massa – a do tétano – e que todas as outras vacinas beneficiam da imunidade de grupo, percebemos que a “moda” de não vacinar as crianças é uma “moda” egoísta.

Ao contrário dos medicamentos, as vacinas encaixam na categoria de prevenção, em que a noção de risco é subjetiva. As pessoas não sentem o medo da doença, porque esta é apenas uma hipótese. Mas é preciso lembrar que a única doença erradicada até à data é a varíola. As outras – como o sarampo ou a difteria – andam por cá… E infelizmente temos casos recentes e mediáticos, como o da criança espanhola que morreu de difteria porque não era vacinada e de imediato os pais vacinaram o outro filho.

 

Novidades para 2017

A vacina contra o meningococo C está disponível em Portugal desde 2002 no mercado livre e incluída no PNV desde 2006, o que levou à quase ausência de casos de doença por este serogrupo nos últimos anos.
Por sua vez, a vacina contra o meningococo B está disponível no mercado livre nacional desde 2013 e, já a partir do próximo ano, passará a estar incluída no PNV para crianças e adolescentes pertencentes as grupos de risco. Isto é, uma população que, por razões clínicas, tem défices de imunidade: asplenia anatómica ou funcional e hipoesplenismo; défice congénito de complemento; terapêutica com inibidores do complemento (eculizumab). Disponíveis nos serviços de Pediatria ou nos pontos de vacinação nos cuidados de saúde primários, estas vacinas serão administradas mediante prescrição médica. Atualmente, não existe qualquer comparticipação e cada uma das doses necessárias (que dependem da idade da criança) tem um custo estimado de cerca de 95 euros.
Esta vacina foi desenvolvida utilizando uma técnica inovadora chamada de “vacinologia reversa”, devido às limitações inerentes à biologia do meningococo do grupo B. Apresenta dados de imunogenicidade e segurança em lactentes, crianças e adolescentes muito positivos, que estiveram na base da sua aprovação na Europa, pela Agência Europeia do Medicamento, em 2013. Mesmo desconhecendo-se com precisão qual será a percentagem de estirpes do menigococos B circulantes em Portugal cobertas pela vacina, esta imunização é, atualmente, a única forma de proteção contra a doença invasiva meningocócica tipo B, sendo recomendada pela Comissão de Vacinas da SIP/SPP.

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