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Maria João Brito: A meningite é uma doença rara,  mas potencialmente fatal
DATA
06/02/2017 09:40:40
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Jornal Médico
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Maria João Brito: A meningite é uma doença rara, mas potencialmente fatal

Mais prevalente em crianças até aos 12 meses de idade, é difícil prever as consequências resultantes de uma infeção por meningite B e poucas são as situações em que estes doentes “saem ilesos” o que reforça a exigência na profilaxia, como a vacinação. A equipa do Jornal Médico Grande Público deslocou-se à Unidade de Infeciologia do Hospital de Dona Estefânia para compreender melhor esta realidade.

 

A doença meningocócica é uma emergência médica. A Unidade de Infeciologia do Hospital de Dona Estefânia recebe doentes com patologia infectocontagiosa em idade pediátrica (até aos 18 anos de idade) e dispõe de 12 camas com áreas de isolamento com pressão negativa. Sempre que necessário poderá haver um alargamento do número de camas até 15 unidades.

Existe ainda uma área reservada a doenças emergentes, igualmente ativada de acordo com as necessidades, a qual é referência nacional em Portugal para situações, como por exemplo, a infeção pelo vírus Ébola.

São vários os agentes que causam meningite: vírus, bactérias ou outros organismos menos frequentes, além das situações de meningite não infeciosa. “Nas [meningites] infeciosas, os casos mais graves são as meningites bacterianas. As mais frequentes são a pneumocócica, a meningite a haemophilus influenzae e a meningocócica”, esclarece a infeciologista pediátrica e coordenadora da Unidade de Infeciologia do Hospital Dona Estefânia, Maria João Brito.

Para a primeira destas encontra-se disponível, desde 2001, uma vacina que passou a integrar o Programa Nacional de Vacinação desde julho de 2015.

Também há uma vacina para a meningite  a  haemophilus influenzae que, apesar de rara, continua a existir, de que é exemplo um caso de uma criança recentemente internada nesta unidade, cuja situação cursou “com bastantes complicações”.

Esta é uma doença rara, mas potencial­mente fatal. Existe risco de morte e de sequelas a diferentes níveis: alterações a nível dos membros, amputações, defi­cits de audição e complicações intracra­nianas. A longo prazo, pode ainda haver também sequelas no desenvolvimento, epilepsia e complicações do foro cutâ­neo, auditivo e neurológico, entre ou­tros

Por fim, a meningite meningocócica, a qual tinha em Portugal duas estirpes prevalentes, a B e a C. Desde 2006 que a vacina para o serotipo C consta do Programa Nacional de Vacinação (PNV), pelo que houve uma diminuição da doença causada por esta estirpe. “No caso do serotipo B, também existe uma vacina que não se encontra integrada no PNV. A cobertura vacinal é muito reduzida, o que poderá relacionar-se com o seu elevado custo: nas crianças pequenas, onde a doença é mais prevalente, são necessárias três doses e, mais tarde, um reforço.”

Contudo, Maria João Brito é perentória: “Esta é uma doença rara, mas potencialmente fatal. Existe risco de morte e de sequelas a diferentes níveis: alterações a nível dos membros, amputações, deficits de audição e complicações intracranianas. A longo prazo, pode ainda haver também sequelas no desenvolvimento, epilepsia e complicações do foro cutâneo, auditivo e neurológico, entre outros.”

A colocação de máscara por parte dos profissionais de saúde é necessária nas primeiras horas de tratamento, uma vez que “a bactéria se propaga por gotículas e o doente deve ficar em isolamento”. Esta é uma patologia contagiosa durante as primeiras 24 horas para o antibiótico atuar. Um dos cenários possíveis é a instabilidade do doente, com falência multiorgânica como insuficiência cardíaca, renal e coagulopatia (distúrbios da coagulação sanguínea). A celeridade dos atos é a prioridade porque a morte pode ocorrer.

 

Um problema de saúde pública

Nas palavras da responsável da Unidade de Infeciologia do Hospital de Dona Estefânia, a doença representa também “um problema de saúde pública quando detetado em crianças que estão na escola ou em infantários”. Nessas situações, é alertado o delegado de saúde de urgência, que contacta o responsável da área. Este, por sua vez, dirige-se às escolas para fazer profilaxia às crianças que contactaram com o doente.

Não há estimativas para o tempo que uma criança pode permanecer no internamento porque tudo depende das complicações. “A doença é grave e os adultos também a podem contrair. Há um pico na idade jovem, por volta dos 20 a 30 anos, e depois, mais tardiamente”, alerta.

 

Vacinação: uma arma contra o risco de morte

A vacinação diminui o risco da doença, um risco menos calculado pelos pais que é, na opinião da entrevistada, “potencialmente grave”: a sépsis meningocócica pode ser “uma situação devastadora”, de gravidade máxima e colocar a criança em risco de vida. “Nenhuma vacina, à exceção da vacina do tétano, tem 100% de eficácia, mas como é óbvio os que são vacinados estão mais protegidos do que os que não o são. Como médica, aconselho esta [vacina], tal como aconselho as outras. O direito à vacinação deveria ser universal e mais ainda em doenças potencialmente fatais, mas reconheço que existem contingências económicas”, sublinha. “Contudo, o Programa Nacional de Vacinação é dinâmico: ao longo do tempo entram e saem vacinas, existindo revisões. Há prioridades e contingências económicas e o Estado português não consegue providenciar gratuitamente todas as vacinas”, conclui a especialista.

 

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