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No mundo, a cada oito minutos, morre uma pessoa com doença invasiva meningocócica
DATA
06/02/2017 09:20:20
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Jornal Médico
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No mundo, a cada oito minutos, morre uma pessoa com doença invasiva meningocócica

A meningite é uma infeção grave das membranas que envolvem o cérebro e a medula espinhal (que se encontra alojada na coluna vertebral) e é potencialmente fatal. 

Pode ser causada por diferentes microrganismos tais como bactérias, vírus, fungos e parasitas. As meningites mais importantes do ponto de vista da saúde pública, pela magnitude da sua ocorrência e potencial de produzir surtos, são as meningites bacterianas.

Uma das principais bactérias causadoras de meningite é o meningococos (Neisseria meningitidis). A meningite por meningococos é uma das manifestações da doença meningocócica, tal como a sépsis ou bacteriémia, uma infeção da corrente sanguínea. Esta doença progride de forma rápida, podendo levar à morte em 24 a 48 horas após o aparecimento dos primeiros sintomas. O contágio pode ocorrer através de partículas de tosse e espirros.

Os sintomas iniciais da doença meningocócica ou vulgarmente designada por “meningite” não são específicos e percetíveis, pois assemelham-se aos da gripe, sendo difíceis de diagnosticar durante a primeira fase, até mesmo para os profissionais de saúde. Nas primeiras 4 a 8 horas, as crianças podem ficar sonolentas, irritadas, sem apetite, com febre, náuseas, vómitos e dor nas pernas. Os sintomas clássicos como a rigidez da nuca, sensibilidade à luz, e erupções na pele verificam-se normalmente mais tarde, o que pode atrasar o tratamento.

A meningite é uma doença causada pela inflamação das meninges (membranas que protegem o cérebro e a medula espinhal)

Crianças e adolescentes são grupos mais vulneráveis à doença. Os bebés, em particular, estão em maior risco, uma vez que ainda não desenvolveram defesas contra esta doença, que pode ser tratada com antibióticos, desde que a terapêutica seja iniciada atempadamente. Mesmo com o tratamento adequado, um em cada dez casos pode ser mortal e um em cada cinco sobreviventes pode vir a sofrer sequelas físicas ou mentais para toda a vida.

Anualmente, registam-se cerca de 1,2 milhões de casos de meningite meningocócica em todo o mundo, vitimando mortalmente cerca de 65,700 pessoas. Números que impressionam, ainda mais, se pensarmos que uma pessoa morre, a cada oito minutos, no mundo, devido a esta doença e que um em cada cinco sobreviventes apresenta incapacidade subsequente.

Os efeitos a longo prazo podem igualmente afetar as necessidades financeiras do sobrevivente, as capacidades a nível educativo e a respetiva vida familiar. De acordo com estudos britânicos, o custo de vida implicado numa criança com sequelas ronda os 2,24 milhões de euros.

A meningite na criança é um importante problema de saúde pública e, apesar dos avanços feitos nas últimas décadas, a morbilidade e a mortalidade associadas a esta doença têm-se mantido praticamente inalteradas. De facto, a maioria dos casos (cerca de 70%), ocorre antes dos 5 anos

A vacinação é o mais eficaz meio de prevenção

Os seis grupos principais de meningococos em todo o mundo são: A, B, C, W, X e Y.

Na Europa, o tipo B é o principal responsável pela infeção, correspondendo a 85% dos casos em crianças.

Dados da Direção-Geral da Saúde (DGS) em Portugal mostram que, em 2012, as estirpes mais frequentemente identificadas foram também as do tipo B (81,5%). Tal como no resto da Europa, em Portugal a incidência máxima foi observada em crianças menores de um ano de idade. Este perfil observado em Portugal é coincidente com o observado em outros países.

Apesar dos progressos em termos de tratamento antibiótico, a taxa de mortalidade inerente a esta infeção permanece elevada, entre 5 e 15%, e as sequelas permanentes, como surdez e alterações do desenvolvimento psicomotor, ocorrem em cerca de 25% dos sobreviventes

Sendo impossível prever futuras infeções, o meio de prevenção mais eficaz para controlar a doença é a vacinação.

O Programa Nacional de Vacinação (PNV) contempla, desde 2006, a administração gratuita da vacina contra o meningococo do tipo C a todas as crianças.

Contra o meningococo do tipo B, o mais frequente no nosso país, existe desde 2014, disponível para compra em farmácias (mercado livre), uma vacina. Apesar de não estar incluída no PNV, a sua administração é recomendada pela Comissão de Vacinas da Sociedade de Infeciologia Pediátrica da Sociedade Portuguesa de Pediatria (ver caixa).

Esta vacina é administrada gratuitamente a crianças com défice de imunidade, uma medida de exceção, anunciada recentemente por Graça Freitas. Para tal, o Serviço Nacional de Saúde (SNS) adquiriu vacinas que estão disponíveis nos serviços de pediatria ou nos postos de vacinação e que serão administradas mediante prescrição médica, explica a médica, responsável pelo PNV. A população que recebe a vacina que protege contra a meningite B através do SNS é composta por crianças com quadros clínicos complicados, como as que sofrem de asplenia (ausência de baço) anatómica ou funcional. “Pelas suas doenças de base, estas crianças estão em risco de ter uma meningite mais complicada do que uma criança saudável”, esclarece Graça Freitas.

 

Diferentes tipos de meningite

Meningites bacterianas – as bactérias mais frequentemente envolvidas são a Neisseria meningitidis (meningococo), o Streptococcus pneumoniae (pneumococo) e o Haemophilus influenzae tipo b, que provocam infeções graves e potencialmente fatais;
Meningites virais – mais comuns e tendem a ser menos graves. São causadas por vírus como os enterovirus ou o herpes simplex;
Meningites fúngicas – mais raras, podem ocorrer a partir de inalação de fungos no meio ambiente ou em doentes com diabetes, cancro ou infeção pelo VIH/SIDA;
Meningites causadas por parasitas – importantes nos países menos desenvolvidos.

 

Comissão de Vacinas da SIP/SPP
Recomendação da vacina contra a meningite B

Num documento intitulado Recomendações sobre vacinas extra PNV (Atualização 2015/2016), a Comissão de Vacinas da SIP/SPP conclui que “a vacina contra o meningococo B é imunogénica e segura em lactentes, crianças e adolescentes. Apesar de mais reatogénica quando administrada em simultâneo com as vacinas incluídas no PNV, os efeitos secundários observados não são graves e a resposta imunológica aos antigénios das várias vacinas não é significativamente alterada”. Nestas recomendações, a referida Comissão, composta por especialistas em Pediatria e Infeciologia, adianta que “mesmo desconhecendo-se com precisão qual será a percentagem das estirpes circulantes em Portugal cobertas pela vacina, ela é, atualmente, a única forma de proteção contra a doença invasiva meningocócica tipo B”.
Como tal, a Comissão de Vacinas recomenda:
1 | A vacinação das crianças dos dois meses aos dois anos, nos esquemas aprovados para proteção da doença invasiva por N. meningitidis tipo B; pode também ser administrada a crianças e adolescentes;
2 | A vacinação das crianças e adolescentes com fatores de risco para doença invasiva por N. meningitidis, nomeadamente défices do complemento, asplenia e tratamento com eculizumab; 
3 | A vacinação pode, ainda, ser considerada em crianças e adolescentes com doença ou tratamento imunossupressores e na prevenção de casos secundários intradomiciliários ou em instituições e para controlo de surtos;
4 | Para minimizar os efeitos secundários mais frequentes como a febre e dor local recomenda-se administração de paracetamol.

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