Jornal Médico Grande Público

“Pensamento do dia...”
DATA
12/03/2008 09:50:23
AUTOR
Jornal Médico
“Pensamento do dia...”

Os problemas sobre o modelo de financiamento do SNS são recorrentes.
O que para nós, nos Cuidados de Saúde Primários (CSP), tem impacto particular.

Os problemas sobre o modelo de financiamento do SNS são recorrentes.
O que para nós, nos Cuidados de Saúde Primários (CSP), tem impacto particular.
O saudoso José Guilherme Jordão, num editorial escrito em meados de 2002, (Postgraduate Medicine, vol. 17, n.º 5, Maio 2002), escrevia à volta destes assuntos que, “as forças de pressão sociais e económicas seriam das que mais se fariam sentir na evolução da MGF”
Na verdade, há que entender que os cidadãos devem ser orientados no sentido do sistema de cuidados primários, racionalizando ou restringindo, se for adequado, o acesso e a procura imediatista de tecnologias médicas mais sofisticadas, dispendiosas e desproporcionadas.
Outro lado da questão, seria o de privar ou limitar forte e amplamente, o direito dos médicos de família e dos seus utentes acederem a esses meios, desde que medicamente justificado.
Não é, aliás, por acaso, que os diversos estudos de satisfação das populações em relação aos seus serviços de saúde, mostram o apoio aos seus médicos de família, o que se tem observado entre nós por diversas vezes e ocasiões, mas igualmente em França, na Alemanha, na Holanda, na Suécia e no Reino Unido!
Mais: todos compreenderiam a necessidade de se rentabilizarem os custos, o que passaria pelos sistemas de informação capazes de, entre outras coisas, poupar os doentes à repetição tão desnecessária, quanto potencialmente perigosa, de exames complementares de diagnóstico que, nos CSP, são feitos para referenciar e nos hospitais, são efectuados para confirmar o que estava confirmado ou para guardar nos ficheiros e arquivos até data oportuna que, fatalmente, obrigará a nova realização...
O relacionamento próximo e confiante que se estabelecer entre médicos e cidadãos, no âmbito da Medicina Geral e Familiar pode, no futuro, ser reforçado pela aplicação do modelo actual das USF.
O papel coordenador do Médico de Família nos cuidados de saúde globais, cada vez mais face ao envelhecimento demográfico e ao crescimento das doenças crónicas, passará pela área dos cuidados continuados.
Validar-se-á, desse modo, uma estratégia horizontal ou longitudinal de prestação de cuidados médicos, mais económica, atenta e humanizada.
Os chamados ganhos de eficiência só podem ser avaliados pelo topo da pirâmide.
Mas, como quer que seja, é provável que a discussão mais alargada sobre a sustentabilidade desde SNS ou de qualquer outro, em qualquer parte e país, tenha que contar com novas medidas adoptadas em simultâneo, evitando o tipo avulso...
As populações ouviram os seus governantes falar de saúde como um direito de consumo, até constitucionalmente universal e gratuito, ou quase...
Há as entidades reguladoras e outras que, falam deste “mercado”, como outras reguladoras falam de energia, da banca ou das OPA!
Criaram expectativas que, porventura, o desenvolvimento social e do ambiente não consentirão, infelizmente!
Os grupos mais vulneráveis da população, como sempre, ficam em maior risco, desde que não seja ressalvada a capacidade de pagamento de taxas moderadoras ou outras designações idênticas nos propósitos.
Claro que, em Portugal, sabemos que aquando da criação do SNS não se procedeu à desmontagem e desarticulação de outros sistemas de assistência na doença, o que entretanto se passou a designar de subsistemas. É por isso que algumas franjas populacionais podem ainda usufruir de esquemas de protecção para além do próprio SNS.
É possível que, na linha de algumas medidas já assumidas, se assista à eliminação próxima desses subsistemas...
A manutenção do sistema público de financiamento do SNS parece carecer, a prazo, de revisão.
Para quando?
Não se conhece com precisão o timing dos decisores, mas apenas o controlo da despesa pública em saúde não se configura compatível com as exigências e eventuais taxas de crescimento no lado da procura.
E por falar em para quando...
Para quando, além de se explicar a questão dos genéricos com tanto empenho e afinco, por exemplo, não se detalhar aos portugueses, a quem se reconhece um enormíssimo desconhecimento, as questões e os problemas e forma de financiamento do SNS?
O quanto os serviços que utilizam banalmente lhes custam?
O quanto nos custa, também a nós, cidadãos que pagamos contribuições, taxas e impostos?
A nós, que assistimos ao funeral da conquista da classe, no pós-25 de Abril, num propósito tão irreversível, quanto se calhar inevitável, fim das carreiras médicas?
A nós que, agentes do SNS, somos igualmente coniventes com certa percentagem do seu despesismo?
Registe-se

news events box

Mais lidas