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Médicos - Filósofos
DATA
17/04/2008 08:47:12
AUTOR
Jornal Médico
Médicos - Filósofos

Na crónica precedente esbarrei na minha própria incapacidade para escrever um texto decente sob o vetusto tema "Filosofia e Medicina" e, portanto, optei por tecer algumas considerações sobre os médicos e a filosofia

 

Na crónica precedente esbarrei na minha própria incapacidade para escrever um texto decente sob o vetusto tema "Filosofia e Medicina" e, portanto, optei por tecer algumas considerações sobre os médicos e a filosofia.

Hoje vamos falar daqueles (poucos) médicos que são admitidos no mundo restrito da Filosofia, de uma elite, em suma. Neste grande grupo sugiro três categorias: (i) Os Epistemologistas honoris causa - os que desaguaram na Filosofia ainda que o não desejassem expressamente; (ii) Os Filosofos a pulso – a designação diz tudo; (iii) Os Sages - aqueles que nasceram Filósofos e também se licenciaram em Medicina.

Citam-se os Colegas a título de exemplo e sem desprimor para outros, que a este burilador de frases mais não é lícito pedir.

Na primeira categoria, temos aqueles que buscam, nem mais nem menos, que Verdade em estado puro e definitivo. Embalado na exigência do rigor, o homem de Ciência vai fatalmente debruçar-se sobre a própria ferramenta que usa na busca da verdade - a metodologia científica. Dissecar o método científico já não é bem Ciência, mas Teoria do Conhecimento, ou seja, Filosofia. O objecto do cientista, a partir de certa altura, passa a ser bicéfalo: por um lado o assunto específico que está estudando, por outro lado, o próprio método que utiliza para estudar esse assunto. Não é crível que a verdade científica esteja ao alcance de quem descure o como procurá-la.

António Damásio é, talvez, o modelo mais óbvio destes que, por exigência de rigor da Ciência, acabam por extravasar-lhe, involuntariamente, os limites. O Professor Vaz Carneiro é outro exemplo dos que aprofundando o estudo da Medicina, em constante azáfama pelo dilatar do saber e minguar do desconhecido, acabam por se verem confrontados com a necessidade de utilizar os instrumentos próprios dos Filósofos.

Julgo que estes Colegas poderiam perfeitamente mesclar-se num congresso sobre Teoria do Conhecimento com filósofos "puros", com mútuo ganhos.

Paradoxalmente, são estes cavaleiros que juraram encontrar o Graal da Sabedoria e que porfiam para o fim da incerteza em Medicina, os próprios os arautos da perplexidade. Da perplexidade face à irredutível impossibilidade de saber com precisão absoluta. Afinal, se calhar, Deus joga aos dados. Afinal entre nós e este doente, em carne e osso, a incerteza é a única e perene verdade.

Mas lá está outra vez o ajuntador de ideias a subir acima do joelho, como o pretensioso sapateiro que queria ser consultor estético de Fídias! Divagar sobre os Filósofos tem já que se diga e, por isso, é mister que deixe a Filosofia para os Filósofos e regresse à simples escrivinhação.

Juntaria mais dois nomes para ao lote dos que resvalam para a Filosofia ou disciplinas estranhas ao paradigma biomédico puro. Citaria o Prof. Manuel Quartilho, psiquiatra, cujo livro "Cultura, Medicina e Psiquiatria" merece leitura. Para além do interesse do conteúdo, está escrito com elegância sóbria, centrada na clareza da exposição. O outro, Dr. Manuel Janeiro – chefe de serviço de Medicina Familiar a exercer no Alentejo - é o autor do "Ideação Suicida e Percepção da Funcionalidade Familiar". A pluralidade das matérias que maneja para abordar o tema revela um sentido holístico, filosófico, se quiserem.

O Dr. Manuel Silvério Marques está no segundo grupo. Este Hematologista do IPO não elegeu a Filosofia como passatempo, um simples exercício lúdico, elaborado q.b., inocente e simpático. Não. O empenho que lhe dedicou é puro e duro. Se duvidam leiam "O Espelho Declinado". Mas não partam para essas águas difíceis sem o auxílio de um dicionário de termos filosóficos, já que o Houaiss é omisso num ou noutro termo mais arrevesado!

Por fim, citaria o Prof. João Lobo Antunes. Nele, a Filosofia é prévia à Medicina. É inata. Na Medicina encontrou lei motif para enriquecer a reflexão filosófica sobre o mundo. Na Filosofia encontra instrumento para apurar o exercício da Medicina.

Abandonamos a Filosofia para, na próxima crónica, falarmos de filosofia, quer dizer: desceremos dos etéreos domínios do Grande Veículo para repousar nos prados apetecíveis do Pequeno Veículo.

Acácio Gouveia
aamgouveia@clix

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