Jornal Médico Grande Público

Os caracóis
DATA
17/04/2008 08:56:15
AUTOR
Jornal Médico
Os caracóis

Alguém me dizia, tempos atrás, falando sobre dermites ou dermatites, que a frequência dessas situações é desconhecida na população portuguesa...

 

Alguém me dizia, tempos atrás, falando sobre dermites ou dermatites, que a frequência dessas situações é desconhecida na população portuguesa. Parece ser um problema comum (refiro-me à nossa ignorância sobre muitos dos aspectos epidemiológicos e/ou estatísticos...).

Se calhar, é igualmente comum a tal "chatice" das dermatites de contacto!

Pessoalmente, sinto que devo ter uma reserva monumental de anti-histamínico, geneticamente adquirida ou modificada, já que me não lembro de ter caído nalgum caldeirão de poções mágicas, qual Obélix ou druida gaulês...

Não me recordo de alguma coisa ou de alguém que, apesar dos seus esforços ou da sua persistência, me tenha provocado qualquer das duas formas clínicas e clássicas de dermatite: a de contacto irritativa, ou a de contacto alérgica.

Provavelmente terei tido sorte, mas acredito que a exposição repetida a irritantes menos potentes, me possa ter conduzido "ao efeito endurecedor" que aumentou a resistência da minha pele.

Por outro lado, apesar de falar em reacções inflamatórias ou de hipersensibilidade, parece-me que beneficio de alguma "imunidade", a qual, por exemplo, me tem poupado aos inconvenientes da exposição a componentes bem irritantes e em concentrações bem elevadas, na ausência de contactos prévios...

Valha a verdade que, se nalguns casos tivesse existido contacto precedente, garantidamente evitaria a repetição, fosse qual fosse a factura a liquidar.

De igual modo, tenho tido a felicidade na gestão da minha relação com os designados "irritantes primários", quer os de natureza química, quer os de natureza física, embora tenha encontrado "primários", bem primários, em inúmeros locais, sítios, funções e hierarquias.

Refiro-me respectivamente e para melhor elucidação, procurando evitar que pensem noutras coisas que não quero dizer ou revelar, aos detergentes, desinfectantes, vernizes, tintas ou plantas, ou à radiação solar ou à ionizante, aos ares seco e quente ou a certos tipos de atrito ou fricção...

Vou livrar-vos de outros considerandos, não vão julgar que me quero "armar" em dermatologista que não sou, nem pretendo ser.

De facto, falei-vos nisto tudo porque li que a indústria cosmética europeia vai fazer novos e avultados investimentos!

Numa época de crise instalada!

Trata-se, naturalmente, de um sector em permanente evolução e desenvolvimento, muitas vezes impulsionado pelas artes e matreirices do marketing, mas neste caso, pelo espírito científico puro...

O impacto na nossa economia é que, pelo que admito, dá relevo à minha descoberta na referida leitura e à necessidade sentida de dela vos dar conhecimento e notícia!

Ao que aprendi, remonta aos anos do desastre nuclear de Chernobyl, em 1986, ainda nos tempos da defunta União Soviética! Vem daí a constatação inicial das características e das propriedades do tal recente desenvolvimento...

Não vos vou falar de algum composto químico sofisticado e sintético, ou de algum genérico de última hora.

Falo-vos da baba do caracol!

Esta secreção, quando é sujeita a radiação, reveste-se de um elevado poder cicatrizante, fruto da sua riquíssima composição em aminoácidos.

Os estudos que foram promovidos confirmaram, entretanto, tais efeitos em doentes submetidos a radioterapia, os quais beneficiaram desse poder regenerador e estimulante da produção do colagénio.

Ora, o meu entusiasmo passa exactamente pelo que o nosso país poderá ganhar com estes avanços.

Tal como com as dermatites, seguramente não acredito que se saiba quantos caracóis existirão em Portugal, sendo certo que serão muitos, tal a marcha com que o país se arrasta, ainda que se não babe!

E talvez, digo eu, nem seja pela velocidade com que eles – os caracóis – se movimentam, tanto mais que o TGV ainda não circula por aí e se vier a circular, também não deverá constituir autentico óbice, tal o número de estações e de apeadeiros que hão-de ser construídas para que pare em todos cantos verdadeiramente importantes!

Por outro lado, com um país tão calmo, tão tranquilo, quase parado, os caracóis viverão num paraíso, usufruindo de um clima simpático, em que o calor dos dias de sol contribui decididamente para uma boa babadela e nos casos mais complexos, os caracóis mais carenciados até poderão vir a receber um agradável apoio traduzido nalgum subsídio mensal ou rendimento mínimo garantido...

Ainda por cima, precisamos de baba, muita baba!

Ora, caracóis babados, devem ser aos milhares, tal a falta de vergonha e de tino que por aí se passeia.

Pelo sim, pelo não, proporia que, desde já, para que mais e melhor se babassem, escolhêssemos, na Assembleia da República, outro poderoso símbolo do nosso dinamismo – internacionalmente reconhecido e distinguido – uma data para uma celebração nacional, verdadeiramente, indispensável!

Se no passado recente, os senhores deputados da Nação, já discutiram um "Dia do Cão", acho que, agora e por maioria de razão, deveriam discutir e principalmente acordar numa data para o "Dia do Caracol"!

Rui Cernadas
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