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O Trabalho Balint e a Globalização
DATA
04/02/2010 12:16:22
AUTOR
Jornal Médico
O Trabalho Balint e a Globalização

Balint idealizou um sistema de saúde no qual o médico de família estaria no centro, realidade que não se concretizaria nos anos que se seguiram

cronica_susana_corte_real_01.jpgSó agora consegui encontrar um bocadinho de tempo para fixar em boa forma a viagem que realizei em Setembro último, a Brasov, cidade romena da região da Transilvânia onde no séc. XV, Vlad Tepes, príncipe da Valáquia, protagonizou algumas das maiores atrocidades de que há registo na história da humanidade (e que inspiraram Bram Stocker na criação de Drácula).

Estive presente no 16º Congresso Internacional Balint, organizado pela Associação Romena Balint e pela Federação Internacional Balint. ... Juntamente com um grupo de colegas portugueses, membros dos corpos dirigentes da Associação Portuguesa de Grupos Balint... E também muitos "adeptos" oriundos de países onde, actualmente, mais se faz sentir o fenómeno Balint como a Alemanha, Austrália, Bélgica, Estados Unidos da América, França, Israel, Itália, Reino Unido e Suiça (curiosamente, não existem grupos Balint aqui ao lado, em Espanha).

Este ano, o congresso teve como tema principal o Trabalho Balint e a Globalização, e como subtemas: "É fácil efectuar uma prescrição, entender o doente não é tão fácil" e "Tradição e mudança no trabalho Balint e na prática clínica". O programa teve uma forte componente sociocultural, necessária num congresso onde prevalecem as emoções.

A festa de boas-vindas decorreu num ambiente afectuoso, não tendo sido dado ênfase ao grau académico de cada um dos participantes, de entre eles médicos de família, psiquiatras, psicólogos, enfermeiros... Com os mais diversos graus académicos

Na cerimónia de abertura, o presidente da Federação Internacional Balint, Henry Jablonski, lançou um convite à reflexão sobre o trabalho Balint, com vista ao desenvolvimento de novos métodos e práticas.

Michael Balint, nos anos cinquenta, apoiou a ideia de que o médico deve ser treinado para integrar os aspectos técnicos médicos com a compreensão do doente como um ser individual e com a relação existente entre o médico e o doente. Balint idealizou um sistema de saúde no qual o médico de família estaria no centro, realidade que não se concretizaria nos anos que se seguiram. Outra ideia a reter é a de que as alterações globais no sistema de saúde também podem complicar a relação/médico/doente, sendo actualmente motivo de reflexão nos grupos Balint.

Uma das actividades mais marcantes no congresso, designada "Aquário", consistiu num grupo demonstração composto por membros experientes, que discutiram um caso diante dos participantes do congresso. As mensagens transmitidas convidaram à meditação sobre a nossa prática de grupos Balint em Portugal e a sentir que ainda temos um longo caminho a percorrer.

cronica_susana_corte_real_03.jpgOs congressos internacionais Balint têm uma abundante vertente prática, tendo os congressistas a oportunidade de participar em pequenos grupos Balint compostos por dez elementos de diferentes nacionalidades. Os grupos eram bastante heterogéneos, sendo formados por indivíduos com diferentes graus académicos. Para além disso, alguns dos grupos eram formados somente por elementos que, no seu país de origem, desempenham funções de líderes/facilitadores. Diariamente e durante cerca de noventa minutos, o relato de um caso abria a discussão sobre as dificuldades encontradas e expressas. O caso era avaliado e analisado pelo grupo, que o reformulava em termos do problema que o médico queria partilhar com o grupo. O problema era discutido e clarificado, com expressão de sentimentos emergentes ou implícitos e criação de alternativas, que poderiam ser hipóteses de trabalho futuro. Seguidamente, o médico relator participava numa avaliação sobre os significados daquela relação problemática, tanto para si como para o doente, podendo regressar à prática clínica diária mais informado e sossegado.

De acordo com o aforismo de Michael Balint, a formação pessoal e profissional dentro do grupo permite ao médico ganhar uma noção mais certa da sua acção terapêutica, aprendendo a receitar-se na dose correcta e no momento mais adequado, de acordo com os princípios gerais da farmacologia.

Uma dificuldade transversal a todos os grupos foi a expressão de emoções numa língua estrangeira (o inglês foi a língua oficial). Por momentos sentimos o que um estrangeiro poderá sentir na nossa consulta. Por outro lado, fez-nos pensar como é ser médico de família de alguém cuja cultura é diferente da nossa e até que ponto essa diferença poderá interferir na relação médico/doente.

Após a discussão do caso, foi sempre efectuada uma avaliação da dinâmica do grupo, algo inovador e enriquecedor na nossa experiência de formação Balint. Esta actividade contribuiu para um mais rápido conhecimento dos outros intervenientes, com progresso na relação entre os diversos elementos do grupo.

Foi interessante tomar conhecimento da experiência de grupos Balint noutros países e assistir à apresentação de casos Balint por parte de estudantes de medicina, que revelaram maturidade na relação com os doentes.

A festa de despedida decorreu num ambiente descontraído e teve a particularidade da entrega prémios Albert, criados pelo anfitrião, Albert Veress, com o objectivo de prestar homenagem aos que mais contribuíram para a realização do evento na Roménia.  

O próximo congresso internacional Balint será em Filadélfia em 2011.

Saúde Pública

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