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“Generiquices” e mais equívocos
DATA
25/11/2010 08:14:47
AUTOR
Jornal Médico
“Generiquices” e mais equívocos

Há duas semanas que deambulamos pelas vielas tortuosas da poupança com medicamentos...

" Os erros pagam-se caro"

Provérbio popular

 

Há duas semanas que deambulamos pelas vielas tortuosas da poupança com medicamentos. Espreitámos os becos duvidosos onde se acumulavam pilhas de preçários, estorvando os movimentos de quem quer prescrever mais com base na farmacologia e menos nos cifrões. Curiosamente, este regresso à farmacologia, em detrimento da economia, é susceptível de trazer mais benefícios financeiros que o actual modus operandi.

Frequentemente, políticos, prescritores e farmacêuticos esquecem que o medicamento tem uma outra faceta, para além da farmacologia e mercantil. Até que alguém sugira designação mais apropriada, diria que o medicamento tem uma vertente simbólica.

Recordo-me daquela doente que me apresentou, nada menos do que três embalagens de sinvastatina, de três laboratórios diferentes, e que pedia uma receita de cada! Na perspectiva do utilizador, frequentemente, o omeprazol comercializado pelo laboratório X, não é igual ao omeprazol comercializado pela casa Y, mesmo que ambos tenham adquirido a substância no mesmo fabricante e usado apenas diferentes invólucros. Não! O tal omeprazol "da" X é, não omeprazol, mas o medicamento da caixa laranja com a risca azul. E o omeprazol Y é outro remédio diferente, porque tem embalagem verde e roxa. E como os medicamentos são para serem consumidos por todos os que deles necessitem (e não apenas por farmacêuticos e médicos) temos pela frente um problema, mormente numa Nação que tem a triste honra de ser a campeã europeia - destacada, sublinhe-se - do analfabetismo.

É um grave problema semântico que tem a ver com diferentes processos de descodificação, ou seja, o significante tem distintos significados para prescritores e utilizadores.

As consequências financeiras (já para não evocar os efeitos na saúde dos consumidores) desta disparidade de descodificação são previsivelmente elevadas e pergunto-me se serão objecto de mensuração ou mesmo tidas em conta. Para já, a duplicação de tomas dum dado fármaco com embalagens diferentes de diferentes genéricos, vai erodir as poupanças nos preços decorrente da política de genéricos. Mas se a toma de 60 mg de sinvastatina ou 40 de omeprazol não acarrete, previsivelmente, consequências nefastas para a integridade do equivocado utente, já o mesmo não se poderá inferir da "associação" amiodarona-cordarone!! Fixemos a nossa atenção apenas nos cifrões e imaginemos os custos do internamento do infeliz doente, e imaginemos a quantidade de embalagens de genéricos necessários para compensar o rombo gerado por este efeito colateral. Portanto, a poupança com a introdução dos genéricos está seguramente sobrestimada, já que é erodida por casos de consumo duplicado (ou mesmo triplicado) e pelos prejuízos causados por intoxicações decorrentes de algumas destas, chamemos-lhes assim, redundâncias.

Poder-se-á objectar que estes inconvenientes são ultrapassáveis se forem seguidas as boas regras da comunicação médico-doente e se a prescrição deste for integralmente cumprida, nomeadamente a marca do genérico escolhido pelo clínico. Ora, esta é daquelas coisas que só são lineares para quem está fora do meio.

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A miríade de apresentações do mesmo fármaco e a plêiade de laboratórios, alguns deles, autênticos pirilampos, surgindo e apagando-se de forma desconcertante, introduzem um factor multiplicativo da complexidade em todo o processo e tornam ilusória a esperança numa solução fácil. Essa variedade, ao invés da biodiversidade, é nefasta para todos os intervenientes, excepto, talvez, para as empresas farmacêuticas. Reguladores do Infarmed, médicos, farmacêuticos e consumidores vêm-se enleados num ambiente de doidos a lembrar um quadro de Brughel.

 Comecemos pelo Infarmed: a tarefa hercúlea de manterem actualizado o prontuário é inglória. São tantas as apresentações, de tão tantos e desvairados laboratórios e tão volúvel a sua presença no mercado, que se torna impossível apresentar informação actualizada e isenta de erros. Por exemplo, no prontuário, não é raro estarem nomeadas apresentações de fármacos que não estão comercializadas (algumas, nunca o estiveram, a acreditar nos DIM). Este facto representa, por si só, algum desperdício de trabalho por parte dos gestores do prontuário.

Passemos ao prescritor. Este, depois de tropeçar demoradamente nos sucessivos alertas (obstáculos) sobre preços, lá escolhe o medicamento mais baratinho, parido por um laboratório de nome a lembrar aldeia polaca. Desgraçadamente, a apresentação escolhida, com tanto afinco e preocupação económica, já não está comercializada. Entra o farmacêutico em cena. Escrupuloso, certifica-se junto do distribuidor (perdendo tempo, claro está) que de facto o prontuário induziu em erro o médico. Duas opções se lhe colocam então: ou substitui esse por outro genérico - e lá entramos na via da confusão de embalagens - ou sugere ao utente que regresse ao consultório para trazer outra receita que não prescreva miragens, mas sim medicamentos com existência real... E lá teremos o pobre utente de regresso ao médico e o duplicar do tempo gasto a prescrever.

Esta cascata de acontecimentos fatigantes é penalizadora da produtividade destas quatro personagens, mormente do utente, do tal sobre quem nos ensinam que deveria estar no centro do sistema!

Visto isto, dir-se-ia que as quantias poupadas com a introdução dos genéricos são menos lustrosas que o anunciado.

Como vai algo longa a prosa e mais há para dizer, permita o leitor complacente que prolongue o autor, até ao próximo nº do JMF, esta reflexão.

 

Acácio Gouveia

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